Entrevista

“Ao longo da nossa vida sofremos 30 a 40 perdas, só que não as identificamos como lutos"

No dia do arranque do congresso O Luto em Portugal, o seu promotor diz que até os académicos resistem a falar e investigar algo que remete para o sofrimento. Mas têm-se dado passos importantes, garante José Eduardo Rebelo.

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José Eduardo Rebelo é professor universitário em Aveiro: ensina Biologia a alunos de Psicologia Adriano Miranda

José Eduardo Rebelo é doutorado em Biologia e professor na Universidade de Aveiro. Há 20 anos, perdeu a mulher, que estava grávida, e duas filhas, num acidente de carro. Dez anos depois, decidiu fazer um mestrado em Psicologia. Mais tarde, fundou a Apelo, uma associação de apoio a pessoas em luto. E, posteriormente, a Sociedade Portuguesa de Estudo e Intervenção no Luto (SPEIL) que nesta sexta-feira e neste sábado promove o 3.º congresso O Luto em Portugal, em Aveiro.

Ao PÚBLICO, Eduardo Rebelo, vice-presidente da SPEIL, fala de alguns dos temas que vão estar em cima da mesa, com investigadores portugueses e estrangeiros a apresentar trabalhos.

Neste congresso vai falar-se de muitos tipo de luto: o luto pela perda de um filho, “o luto por perda de expectativas” quando nasce um filho deficiente, o luto por desvalorização social... Parecem coisas muito diferentes. O que é que estes lutos têm em comum?
O luto pode ser definido de forma sintética como um processo de reacção a uma perda com um significado pessoal profundo. Quando falamos em luto, associamos à morte mas, na realidade, o conjunto de reacções vivenciadas face a diferentes tipos de perdas são muito semelhantes: a negação, a busca da pessoa ou da coisa perdida, a desorganização emocional, a reorganização emocional.

Nos lutos causados pela separação da pessoa amada — e podemos considerar a morte, mas também um divórcio, a emigração — o processo de luto é a reacção a essa separação. Quando nasce um filho deficiente, ou no caso de um aborto, existe também esse tipo de reacção, existe um luto. Quando há a amputação de um membro, também. A pessoa tem necessidade de percorrer um caminho de superação. Quando existe uma desqualificação social... vocês jornalistas dão-nos muitas vezes conhecimento de situações como estas: “Professores em luto”, “Agricultores em luto”. É porque se sentem desqualificados, desvalorizados...

Para haver luto não é preciso haver uma morte física...
O luto é uma reacção a uma perda com um significado pessoal profundo. Uma perda. E essas perdas são tão diversas quanto as que mencionei.

Está estudado que ao longo da nossa vida sofremos 30 a 40 perdas só que não as identificamos como lutos. Vivemos 30 a 40 lutos, 30 a 40 processos em que, em primeiro lugar, não acreditamos no que está a suceder, em segundo, andamos à procura do que perdemos e, depois, há um momento em que reconhecemos a perda, não há nada a fazer, e começamos a reorganizarmo-nos. Começamos a aprender a viver sem aquilo que considerávamos que era insubstituível ou que era muito importante na nossa vida.

No congresso vamos abordar nove grandes temas associados a perdas com significado profundo. E um tema fundamental: “Quem apoia o luto.” A SPEIL acredita dois cursos, um no Espaço do Luto [associação com sede em Aveiro], outro no Centro de Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

O primeiro para conselheiros de luto, o outro para terapeutas de luto. O que são os conselheiros?
A maior parte dos lutos, 80 a 90% dos lutos, são lutos normais, mesmo sendo complicados, não são psicopatológicos, não são doentios. Mas são necessários técnicos para apoiar essas pessoas.

Mesmo essas precisam de apoio?
Precisam. Um exemplo: a perda de um filho. Quer o pai quer a mãe estão numa situação tal que não podem apoiar-se mutuamente e sabemos que à volta de 50% dos casais que perdem um filho ou que vêm nascer um filho deficiente acabam por se divorciar. Portanto, há aqui um problema: com quem é que estas pessoas conseguem partilhar as suas dores, o seu sofrimento? Esse apoio poderá ser dado por um conselheiro de luto, até que a pessoa encontre o seu caminho de superação, de forma autónoma.

O que é que faz o conselheiro de luto?
Não existia em Portugal. Isto basicamente partiu de mim. O conselheiro de luto gere grupos de partilha, nos quais se juntam pares.

E os terapeutas do luto?
Os conselheiros acompanham. Os terapeutas intervêm sobre a pessoa, o que tem de ser feito com supervisão psiquiátrica. Os cursos de terapeutas de luto destinam-se por isso a enfermeiros, médicos, psicólogos... A primeira edição teve boa adesão.

Fala-se mais de morte e de luto hoje do que há dez anos quando criou a Apelo?
A morte continua a ser um tabu e o luto está associado à morte. As pessoas continuam a tentar distanciar-se. E sentimos muito essa dificuldade. Uma das lutas que desenvolvemos é essa: contra o isolamento.

Há quem diga que os próprios rituais fúnebres têm sofrido alterações, no sentido de escondermos mais a morte...
Há 50 anos dizia-se que a morte era pública e o casamento era privado. Agora a morte é cada vez mais privada e o casamento cada vez mais público. As sociedades, quando tendem a ser mais hedonistas, mais vocacionadas para o prazer, tendem a esconder o que é sofrimento.

Os hospitais estão cheios de pessoas idosas, algumas delas numa fase terminal. Quando há um problema de saúde, e não havendo mais solução, os familiares mais próximos remetem a pessoa para o hospital — pode já ter 90 anos, mas vai para o hospital para ‘eu não ficar responsável, ele morreu e a culpa foi minha’ e por aí adiante. E o médico vai, vê a pessoa, diz: ‘a minha arte, a minha ciência já não chegam’ e corre-se a cortina e a pessoa fica ali até morrer. No hospital, no lar... Cada vez mais, os últimos momentos da vida são passados num profundo isolamento.

Efectivamente, não se tem visto grande alteração no comportamento das pessoas em relação à morte e ao luto. Mas pelo menos ao nível académico isto debate-se mais. Com muitas reservas, mas já existe.

Com muitas reservas porquê?
Falar sobre a morte, investigar sobre a morte, sobre o luto, o sofrimento, etc... em cada momento que estamos a fazê-lo estamos a vivenciar a nossa própria morte, o nosso próprio sofrimento. Não é agradável.

No seu caso, foi o acidente da sua família que o fez dedicar-se ao tema.
Sim, há 20 anos sofri essa perda, toda a minha família, num acidente rodoviário. Tinha 35 anos. Durante dez anos andei a tentar sobreviver. E ao fim de uma dezena de anos tentei consciencializar todo o turbilhão de emoções que tinha vivido e achei que a melhor forma era inscrever-me num mestrado de Psicologia. O tema da minha dissertação foi “contributos para o estudo do processo de luto”.

Na altura em que estava muito aflito procurei respostas. E estamos habituados, pelo menos nós, os intelectuais, a ir buscar respostas nos livros. Procurei na livraria e encontrei dois tipos de livros: os técnicos e os de catarse (que falam de experiências pessoais). Nenhum me satisfez. Pensei: um dia hei-de escrever qualquer coisa que tenha rigor científico e que seja um livro de divulgação. E foi assim. Depois disso, já escrevi três livros: Desatar o Nó do Luto: Silêncios, Receios e Tabus; Amor, Luto e Solidão e Defilhar: Como viver a perda de um filho.

Programa completo do congresso e preço de inscrição pode ser consultado em http://congresso.speil.pt/.