Praxe

Caricatura da vida adulta?

Não se olha de frente. Joga-se. Superam-se provas. Há quem considere que são rituais de iniciação. E quem fale de atentados à dignidade. Que praxe é esta?

Fica-se de quatro. “Enche-se bastante.” Não se olha de frente. Joga-se. Superam-se provas. Há quem considere que são rituais de iniciação. E quem fale de atentados à dignidade. Que praxe é esta? No mês em que se realizam as semanas académicas nas principais cidades do país, num ano em que tanto se tem falado de praxe, contamos o que mais de 250 alunos e ex-alunos nos escreveram a contar. “Há aqui depoimentos que mostram que as pessoas percebem que para se ser adulto ‘tem de se fazer sacrifícios’, ‘que isto é uma preparação para as hierarquias, para a responsabilidade, para o trabalho em equipa’”, diz um historiador. “Vejo isto como uma caricatura da vida adulta.”

Alexandra está à espera, junto à porta fechada da sala onde decorre o julgamento. Lá dentro há gritos. Parecem de aflição. Ela não sabe o que se passa. Daqui a nada, é a sua vez de ser chamada para entrar. O que é que lhe vão pedir? Está um bocadinho nervosa, mas recapitula os últimos dias: têm sido incríveis. Os “padrinhos” costumam ir buscá-la — a ela e aos colegas — às salas de aula, pintam-lhe a cara, chamam-na de “besta”, levam-na para os jardins do Campo Grande, ordenam-lhe que cante a canção da vaca leiteira... enfim, tanta coisa. Tem adorado. Há meia dúzia de dias era uma miúda acabada de chegar do Algarve, sem amigos nem família por perto. E agora está em Lisboa, a estudar para ser enfermeira e já conhece a turma toda.

Alexandra Mendonça, 33 anos:
“Fizemos jogos, gincanas, brincadeiras com teor sexual frente a uma ou duas centenas de pessoas, andei com badalos de vaca pendurados ao pescoço, pisei uvas para fazer pseudovinho, vesti pijama e andei pelo Campo Grande e fui baptizada com água de demolhar o bacalhau que tinha estado a repousar havia meses. E adorei! Brinquei muito, diverti-me muito. Não senti nunca que tivesse sido maltratada ou subjugada no verdadeiro sentido das palavras! Bom senso acima de tudo e uma reverência quase cómica pelos padrinhos! Respeito e nunca medo!”
Enfermeira, ex-aluna da antiga Escola Superior de Enfermagem de São Vicente de Paulo

“Foi praxado? Conte-nos a sua experiência.” Foi este o desafio lançado pelo PÚBLICO no seu site. Recebemos mais de 250 respostas de estudantes e ex-estudantes, praxados, praxistas e antipraxe, de diversas gerações e profissões, de vários pontos do país.

São centenas de páginas de testemunhos de quem esteve na praxe este ano, no ano passado, há cinco anos, 10, 30. Há até quem conte o que viveu na década de 50 do século passado. Descrevem rituais de recepção aos “caloiros”, rituais de passagem de um patamar para o outro da “hierarquia praxística”, rituais para ensinar “o outro lado da praxe” aos “doutores”.

Falam de “baptismos” e de “enterros”. De “latadas” e de “queimas”. De “julgamentos” e “trupes”. De “brincadeiras” e “castigos”. De “estar em formatura” e “estar de quatro”. Alguns falam de “medo”... Mas cerca de 80% dos testemunhos que recebemos são um elogio da praxe.

Em teoria, ninguém acha que ela legitime a “violência” ou a “coacção”. Muitos admitem que há, por vezes, “abusos” e defendem que estes devem ser “punidos”. A maioria, contudo, está convicta de que isto de fazer o que os estudantes “hierarquicamente superiores” estabelecem “ajuda a integrar” os mais novos — a palavra “integrar” e o verbo “integração” são referidos perto de 200 vezes nos emails que recebemos, “respeito” ou “respeitar” mais de 150, a palavra “tradição” mais de 100.

O cerne da “polémica em torno das praxes”, acrescentam muitos, é que quem está “de fora” não as percebe: “A praxe não se conta, nem se fala, vive-se, sente-se”, dizem.

Ana Rita Borrego, 24 anos:
“Fazem parte os gritos, as flexões, os ‘olhos no chão’, os jogos, uns mais agradáveis do que outros, é verdade. É fácil? Não. Mas nada na vida o é. A praxe ensina-nos que juntos vamos mais longe do que sozinhos.”
Estudante, Universidade Técnica de Lisboa

Cecília Gonçalves, 19 anos:
“A praxe ensina-nos que na vida há uma hierarquia natural e que nós vamos ter de aceitá-la, ensina-nos a respeitar essa hierarquia.”
Estudante, Universidade de Coimbra

João Monteiro, 18 anos:
“Descansai, o significado que vós atribuís a beijar o chão à ordem de um trajado nada tem que ver com o significado que o caloiro atribui.”
Estudante, Universidade Nova de Lisboa

Nídia Sobral, 21 anos:
“É uma preparação do nosso psicológico. Há muitos caloiros que se sentem mal, choram, porque não percebem. Mas, se calhar, a nossa vida vai ser muito pior.”
Estudante, Instituto Politécnico de Leiria

Sara Afonso, 24 anos:
“Toda a gente sabe que só fazemos aquilo que queremos, mas naquela altura acreditei piamente no que me disseram e decidi continuar, pois a minha grande alegria seria ver no fim os meus familiares numa festa, que é a Queima das Fitas, por eu ter conseguido alcançar mais uma etapa.”
Desempregada, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Alexandra Mendonça tinha orgulho — mesmo naquele dia em que depois do “baptismo do caloiro”, quando a ensoparam com água a tresandar a bacalhau, teve de apanhar um autocarro para voltar a casa e várias pessoas se afastaram dela por causa do cheiro. Toda a gente em Lisboa sabe que quem chega à universidade é praxado. Pois bem: ela tinha acabado de chegar!

“A besta não respira, a besta não tem direitos, a besta deve obedecer sempre ao padrinho...” Foram as palavras que lhe pediram para gritar no “juramento do caloiro”. Ainda hoje não consegue não se rir ao repeti-las — “aquilo é um rito, nunca me senti violentada”, insiste Alexandra, hoje enfermeira no Hospital Garcia de Orta, em Almada.

Na sua escola, os recém-chegados, como ela, tinham o nome de “bestas”. De resto, é assim em muitas escolas e faculdades do país (ainda que as “categorias de alunos”, tal como as actividades de praxe e sua duração, variem de escola para escola; a regra, contudo, é que à medida que o tempo passa e o estudante vai ultrapassando certos “níveis”, muda também de “categoria”).

Regresso ao dia do julgamento de Alexandra: chamaram-na, por fim, para entrar na sala dos gritos. (Não se recorda qual era a acusação.) Mandaram-na descalçar-se. Havia um tapete coberto de pioneses, com um “caminho estreito”, livre de picos. Alexandra seria vendada e deveria, com um só pé, aos saltinhos, atravessar o tapete, por esse “trilho”.

Nessa altura, não sabia ainda que aqueles gritos dos colegas, que ouvira quando estava à porta da sala, fingiam uma aflição que não existia. Mesmo assim, não lhe passou pela cabeça não fazer o que os mais velhos lhe ordenavam... Pensou: se os outros tinham arranjado maneira de passar pelos pioneses, ela também arranjaria. E avançou. “Enquanto estava a ser vendada tiraram o tapete sem eu ouvir. Eu achava mesmo que estava a andar em pé-coxinho a desviar-me dos pioneses.... foi horrível.”

“Horrível”? Horrível, não.

No ano seguinte, Alexandra integrou a comissão de praxe e praxou (as “comissões de praxe” existem em quase todas as escolas, são constituídas por estudantes com pelo menos duas matrículas que, em geral, são “seleccionados” por outros, mais velhos, os “doutores”, “veteranos”, dux... é a estes grupos que cabe zelar para que a praxe corra “bem”).

Alexandra faz questão de sublinhar que ainda hoje, passados todos estes anos, os seus “afilhados”, enfermeiros, como ela, são pessoas com quem se dá bem.

Ana Rato, 23 anos:
“Fomos todos informados de que poderíamos ser antipraxe mas que [a ser assim] não poderíamos trajar nem participar em qualquer actividade académica, incluindo jantares e festas académicas.”
Aluna de mestrado, professora de Música, Universidade de Aveiro

Diana Antunes, 28 anos:
“Eu queria fazer tudo certinho, tudo bem. Para mim, usar o traje era, e ainda é hoje, uma grande honra. Eu visto o traje e sinto-me orgulhosa do meu traje. E daí a praxe, realmente.”
Estudante de mestrado, Universidade de Évora

Várias pessoas relatam experiências semelhantes às de Alexandra. Noutra escola, no Porto, as “caloiras” a quem foi pedido que fingissem que lhes estavam a fazer coisas horríveis dentro de uma sala foram, provavelmente, mais convincentes nos gritos. E os “doutores”, que entravam e saíam dessa sala, ajudaram a compor a cena dando a entender que estavam embriagados e, portanto, descontrolados.

A tensão foi-se instalando entre os “caloiros” que esperavam pela sua vez para entrar. Uns quantos choraram. Outros acabaram por desatar aos pontapés à porta, para salvar as colegas lá dentro. Mas, uma vez mais, era “só teatro”.

O aluno que nos contou este episódio achou tudo muito perturbador, mas, explica, não quer prejudicar a “imagem” da instituição de ensino que frequentou, por isso prefere não se identificar nem identificá-la. De resto, outros fizeram o mesmo.

Anónimo:
“A minha praxe envolveu ter de rebentar dois ovos na cabeça do presidente da Associação de Estudantes. Após ter sido obrigado a fazê-lo, o presidente retaliou obrigando-me a pôr de quatro na relva, onde me rebentaram oito ovos na cabeça e despejaram farinha. Um doutor teve a infeliz ideia de me pôr um ovo pelos boxers adentro, ao que respondi levantando-me para esmurrá-lo de fúria. Fui prontamente bloqueado por um grupo de doutores. O presidente disse que o doutor foi longe de mais e obrigou-o a pedir desculpa para que todos vissem. A humilhação por que passei serviu de castigo para um doutor que teve uma infeliz ideia.”
Estudante que pediu para que o seu nome não fosse divulgado

Falámos pessoalmente com quase duas dezenas dos que nos escreveram — fomos às suas casas, aos seus locais de trabalho ou às universidades onde estudam, sendo que algumas recusaram que as entrevistas fossem feitas nas suas instalações por não quererem associar-se a um tema polémico.

Pedimos a um psicanalista (Carlos Amaral Dias), a um político (Alberto Martins) e a um historiador da Educação e especialista em Análise de Discurso (Jorge Ramos do Ó) para ler e analisar excertos de cerca de 50 relatos — as entrevistas na íntegra, onde esse exercício é feito, podem ser lidas no site do PÚBLICO num projecto multimédia especial sobre praxe, lançado neste que é o mês em que se realizam as semanas académicas das principais cidades do país.

Bia Miranda, 19 anos:
“Tudo aquilo é preparado para nós e para nos receber. O que damos em troca? Enchemos [fazer flexões] um pouco, gritamos como um só, rimos e saltamos como tolinhos, mostrando o NOSSO orgulho pelo NOSSO curso!”
Estudante, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Cecília Gonçalves, 19 anos, aluna de Direito da Universidade de Coimbra, “uma praxista de Portugal”, como se descreve, também foi convocada para um “julgamento”. A casa onde decorreu estava decorada com pernas de porco e de galinha, velas e panos pretos. Foi o máximo. Aparece trajada para esta entrevista, num final de um dia de Fevereiro, camisa branca muito justa, parece que o peito vai explodir de orgulho.

Em Coimbra, há regras claras sobre como deve ser um “julgamento de praxe”: manda o Código da PRAXE que o dux veteranorum (nome que se dá ao estudante que preside ao conselho de veteranos da academia) tem de ser informado do acto, que a sala onde este decorre tem de “estar privada de luz natural”, sendo “iluminada por uma vela que tenha por castiçal uma caveira”, e que as “insígnias da praxe”, tesoura, moca e colher de pau, têm de estar presentes. Mais: só podem assistir “os doutores que estiverem na PRAXE e tiverem a capa traçada pela cabeça, de forma a só ficarem visíveis os olhos”. Tudo isto está no “código” (quase 300 artigos) que define como “PRAXE” — assim, em letras maiúsculas, sempre — “o conjunto de usos e costumes tradicionalmente existentes entre os estudantes” e os que forem “decretados pelo Conselho de Veteranos”. O “código” de Coimbra (publicado nos anos 50 e várias vezes alterado) inspira muitos, de outras instituições de ensino, feitos por diferentes “vagas” de estudantes, sobretudo nos anos 1980 e 90, quando o país assistiu à massificação do ensino superior.

Rodrigo Santiago, 66 anos:
“Fui ‘praxado’ — neologismo, julgo, desconhecido à época — em Coimbra, no (remoto) ano lectivo de 1965/66. O mocho (banco dos réus) era, como então se dizia, um ‘penico’ repleto, até cima, de líquido orgânico — como então não se dizia. Era permitido, com raro espírito de homenagem às ‘garantias de defesa’, naquele tempo, de resto, muito pouco, quase nada ou mesmo nada, em voga, que se baixassem as calças para permitir um mais directo e cálido contacto com o assinalado líquido. E pronto. Fui submetido a julgamento e, stupete gentes, absolvido pelos julgadores, uma luzida plêiade de atrasados mentais, no caso já ‘veteranos’. Por que razão me sujeitei? É simples: por não querer ser rapado! É a isto que alguns chamam ‘praxes saudáveis’? Se sim, vou ali e já venho.”
Advogado, ex-aluno da Universidade de Coimbra

Também nos anos 1960, Carlos Amaral Dias passou por algo semelhante. Era um “caloiro” de 18 anos. Mandaram-no sentar-se num bacio que aparentemente estava cheio de urina. E fazer um discurso. “Sentei-me ali com a alma empenada. Lá fiz o discurso. E, no fim, um disse: ‘Acha que eu o mandava sentar num penico de urina? Não vê que isso é chá que eu pus aí?’ E era chá. E aí ele exerceu um poder mais forte do que se fosse mesmo urina. O poder de me mostrar o quão magnânimo ele era.”

“É a pior forma de despotismo”, esta ideia, continua o psicanalista, de que “não te faço mal, mas se quisesse fazia”. Uma ideia presente, de forma mais ou menos discreta, em alguns testemunhos que lhe pedimos que lesse.

Nos anos 60, Amaral Dias combatia a praxe. Hoje, constata que o facto de ela ter ressurgido em força mostra que na nossa cultura continua a existir espaço para “rituais de iniciação”. Em vez de alinhar no discurso moralista que acha que marca muito do debate sobre o assunto, o psicanalista prefere levantar outras questões: “Qual é o lugar que a praxe ocupa que a vida universitária não ocupa? Que lugares são oferecidos ao estudante que chega a uma universidade para se poder integrar? Há um espaço destinado a isso, em que isso seja possível? Um espaço destinado aos caloiros? Isso é pensado pela universidade? Não é.”

João Mota, 37 anos:
“Eu estava à espera de ser praxado, mas achei que ia ser mais aceitável. Quando era miúdo, nove, dez anos, tive umas experiências de bullying que não me agradaram muito. E aquilo foi um flashback. Pensei: ‘Espera lá, eu agora não tenho de aturar isto, tenho 18 anos, isto é o ensino superior.’ Achei aquilo bullying puro e duro, institucionalizado. E disse: ‘Isto assim não dá.’ Foi a primeira declaração antipraxe daquela instituição [uma escola que estava no segundo ano de vida], o que me valeu uma fama surpreendentemente abrangente — e até entrevistas para um dos jornais da cidade.”
Engenheiro civil, ex-aluno do Instituto Politécnico de Leiria

Não sabemos se o julgamento de Cecília cumpriu todos os formalismos do “código” conimbricense. O que é certo é que ela fala com um sorriso rasgado dessa longa noite — como, aliás, de tudo o resto, a nova cidade, a nova vida, a nova “família”. Os “padrinhos de praxe”, que a “baptizaram” no ano passado, são hoje as pessoas a quem pede “um carinho” quando está mais em baixo ou tem saudades de casa. São eles que ajudam com os apontamentos, com a escolha das disciplinas, que orientam.

E sobre isto nem quer dizer mais, senão ainda começa a chorar...

No ano passado, os primeiros dia de aulas foram um turbilhão, recorda Cecília. Acabava de chegar de Viana do Castelo, pela primeira vez estava a viver sozinha e dava com ela a entrar na universidade — “aquelas paredes velhas, toda aquela história e tradição em cima dos meus ombros...” — para estudar o que mais queria na mais antiga das universidades portuguesas: Direito. “Agora é a minha vida, agora é que vai começar tudo o que vai ser o meu futuro!”, pensou. E quis viver cada segundo.

Começaram por lhe perguntar se aceitava integrar uma “tertúlia” — em Direito, como há muitos alunos, estes são divididos pelos mais velhos em grupos, chamados “tertúlias”, para serem praxados. A primeira coisa que teve de fazer foi ajoelhar-se sobre uma capa negra e fazer uma declaração de amor a um “doutor”.

Nas semanas seguintes, gritou e cantou pelas ruas da cidade até ficar rouca. “É ferro, é aço, é merda ao calhamaço, com Direito a marcar passo. / Quem foi, quem viu, para a puta que os pariu / Eu bem dizia que era grossa e não cabia/ era a maior de toda a academia/ Passou, passou, passou, passou, passou ao lado / Tenha cuidado senão é enrabado.” Cecília canta para nós a canção “mais conhecida”, mas como isto é uma conversa e não praxe substitui a palavra “puta” por “piiii”.

Falar de sexo, usar palavrões, faz parte. E muitos dos que nos escreveram dizem que é bom que assim seja, porque “faz rir” e porque se pretende que os mais novos percam “a timidez”. Outros não vêem bem assim.

Catarina Barroso, 20 anos:
“Havia praxes de conteúdo sexual, como simular actos sexuais com um burro de plástico e simular orgasmos com outros caloiros. Quando me recuso a fazer esta última praxe, logo uma trajada se dirige a mim aos berros, ordenando-me que fizesse aquilo que ela estava a mandar. A insistência ainda durou um bom bocado. Foi desconfortável, humilhante. Outra das praxes que me recusei a fazer foi o chamado ‘leilão do caloiro’, em que as raparigas colocam o soutien fora da roupa e viram a roupa de baixo, calças ou saia, ao contrário, e em que os rapazes ficam de tronco nu com frases escritas no corpo. Disse que não queria fazer aquilo e mais uma vez a minha decisão não foi aceite de bom agrado. Disseram-me que se não fizesse aquilo não poderia trajar, entre outras coisas. Acabei por aceder, sem estar muito convencida. Ninguém ali pensa nas pessoas que se sentem mal com o seu corpo.”
Ex-estudante do Instituto Politécnico de Lisboa

Diana Antunes, 28 anos:
“Fomos questionados, por exemplo, acerca das nossas supostas experiências e preferências sexuais, filmados, forçados a colocar as mãos no peito e no rabo, a rebolar na relva... Passeámo-nos pela cidade com pensos higiénicos colados ao corpo, à chuva e ao frio, sem poder parar para comer, horas a fio. Desde os típicos ‘comer sem talheres’, passando por dar comida na boca do colega da frente de olhos fechados, até a situação mais degradante: um dos veteranos em plena cantina universitária sugeriu que os rapazes colocassem o iogurte da sobremesa entre as pernas, e as raparigas, ajoelhadas, lambessem o iogurte. Com o constrangimento geral, desistiram da ideia, mas uma das caloiras ainda o chegou a fazer. Percebi que teria de sair dali o mais rápido possível.”
Professora de Música, aluna de mestrado, Universidade de Aveiro

A Cecília, aquilo que lhe custava mais era “estar de quatro”. “Na minha tertúlia feminina, fui a rapariga que mais esteve de quatro. Porque eu era muito respondona.” Na altura, não percebia exactamente por que razão os colegas “doutores” lhe faziam aquilo. Hoje percebe tudo.

“A pessoa que eu era não tem nada que ver com o que sou hoje. Nada.” Dá um exemplo do “bem” que a praxe lhe tem feito: “Uma professora disse-me, numa oral: ‘Tu não vales os mil euros que os teus pais investem em ti todos os anos.’ Isto é horrível.” Se fosse antes, teria respondido torto. “O que se calhar significava que nunca ia acabar o curso.” Já a “nova” Cecília não foi mal-educada. “A praxe ensina-nos isso: tens uma pessoa acima de ti, quer queiras quer não.”

Em suma: “O que cada um entende pelo conceito de ‘praxe’ é muito relativo, mas, no fundo só há um conceito, o sentimento. A praxe envolve humilhação, gritos, envolve estar de quatro, envolve copos e festa, mas também envolve tradição, respeito, amizade, companheirismo, espírito de grupo, crescimento, amadurecimento, risos e gargalhadas e também as lágrimas quando no silêncio da noite se ouve o fado e a cidade aparece coberta de um manto negro.”

E dizer “não”? Envolve?

“Nós, muitas vezes, fazemos praxes à espera que o caloiro diga que não. Por exemplo: ‘Vai e lambe o chão.’ Se nós vemos que o caloiro se está a baixar, é óbvio que vamos ter uma atitude muito repressiva em relação ao caloiro, porque ele tem é de dizer que não.” Na praxe, diz Cecília, há muita coisa que “não é literal”.

A Carlos Amaral Dias não surpreende a dificuldade de muitos dizerem “não” mesmo quando acham que devem dizer “não”. As pessoas, diz, não são em grupo o que são quando estão sozinhas. E quem não percebe isto não pode perceber estes rituais.

Pedro Silva:
“Depois, veio o afamado e terrível Rally Tascas. O dia mais nojento, duro e extremamente divertido que eu tive. Levantei colegas minhas do chão quando elas queriam desistir, foi uma experiência que nunca hei-de esquecer. No meio de todos aqueles gritos e porcaria que me mandavam para cima, sentia que havia um grande cuidado e responsabilidade pela parte de quem nos estava a ‘torturar’.”
Estudante, Instituto Politécnico de Lisboa

A primeira coisa que impressionou Ramos do Ó nos relatos que leu foi esta: “Há aqui depoimentos que mostram que as pessoas percebem que para se ser adulto ‘tem de se fazer sacrifícios’, ‘que isto é uma preparação para as hierarquias, para a responsabilidade, para o trabalho em equipa’. E é como se estivéssemos aqui todos numa espécie de loucura consentida a aprender o que há de pior para vir a ser um cidadão.”

Não é por acaso, isto não nasceu “no meio do nada”. Considera que os rituais de praxe mostram o modo como os estudantes universitários mais velhos procuram mimetizar uma ideia que têm do próprio sistema educativo: “A ideia de que alguém tem tudo a ensinar e alguém tem tudo a aprender. A ideia de que não existe uma simetria de inteligências. A ideia de que o saber se ouve, não se constrói. A ideia que não se pensa, reproduz-se. Isto está enraizado no nosso sistema de ensino há séculos.”

O historiador “compreende” quem entra neste jogo. “Não tenho nenhuma espécie de identificação com as praxes, mas vejo isto como uma caricatura da vida adulta.”

João Monteiro, 18 anos:
“Ocupem o vosso tempo e usem a vossa grandiosa sabedoria para reformular um sistema educativo arcaico e que tresanda a podre, que esse, sim, é o primeiro que nos desrespeita enquanto seres individuais, livres e criativos, que esse, sim, é o verdadeiro responsável por sermos os seres cruéis, estúpidos e inúteis que nos acusam de ser.”
Estudante, Universidade Nova de Lisboa

A “tragédia”, prossegue Ramos do Ó, “é imaginarmos que podemos estar dentro de uma instituição, a universidade, que foi criada para ser autónoma de todos os poderes, para pensar sobre tudo e pôr tudo em causa, e, depois, produzirmos uma vida lá dentro que reduz esse princípio a algo que é o contrário” — o professor pode dizer tudo, “incluindo os maiores disparates”, e “haverá sempre alguém que imagina que se se adequar a esses disparates, e sobrevivendo a eles, pode um dia ser um adulto respeitado”.

Bia Miranda, 19 anos:
“Sim, não foi fácil, às vezes é necessário fazer um esforço para não chorar e largar tudo e ir para casa. São sacrifícios, vá, fáceis, que tive de ultrapassar. Mas afinal de contas o que é que o futuro nos aguarda? Não há um Governo que nos calca tanta vezes, uns bancos que nos tentam lixar? Não tem um adulto que fazer tantos sacrifícios?!”
Estudante, Universidade de Trás -os-Montes e Alto Douro

Júlio Henriques tem 19 anos, está no 2.º ano de Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde todo o tipo de actividade praxística ao caloiro está proibida no campus universitário, como faz questão de sublinhar, “a pedido do director”, logo no início da conversa.

Marcámos a entrevista com Júlio para um final de dia de Fevereiro. Anoitece rapidamente. Na estrada que ladeia o campus, um trajado de megafone grita palavras de ordem que os “caloiros” atrás dele repetem, enquanto marcham como se estivessem na tropa. Atravessando a estrada, é o jardim do Campo Grande. O relvado foi dividido em “talhões” — cada curso tem um “talhão” de praxe no jardim. Desta árvore até àquela, informa Júlio, é o “talhão” de Biologia.

O estudante pede-nos que nenhum “caloiro” seja filmado. Ele, como aluno do 2.º ano, já tem a obrigação de “proteger” os “caloiros”. Esta ideia também não é original: muitos dos que nos escreveram sublinham mais esta “função” da praxe: “proteger”, ao mesmo tempo que se “educa”. As “trupes”, por exemplo, assumiam-se, no passado, em Coimbra, como tendo a missão de garantir que os recém-chegados não se perdiam nas noites de festa e ficavam em casa a estudar. Havia quem não aceitasse — e até partisse, rumo a Lisboa, mudando de curso, para não ter de levar com esta imposição. Outros não viam mal nestes horários forçados.

Eduardo Neto Lucas dos Santos, 81 anos:
“Entrei para a Faculdade de Medicina em Coimbra, em princípios dos anos [19]50 (...), a primeira coisa que tínhamos de saber era que se andássemos pela cidade depois de tocar o sino na torre da universidade (chamado a Cabra), o que acontecia às 18 horas, podíamos ser rapados pelos estudantes que se organizassem em ‘trupe’. Se apanhavam um caloiro (que não conseguisse fugir) depois de a Cabra tocar, ele era rapado sem apelo nem agravo. Cada um dos estudantes da trupe dava uma tesourada e o chefe dava duas. Se, porventura, o caloiro já estava rapado, levava com a colher nas unhas (…) Da minha parte, só posso dizer que a praxe em Coimbra tinha uma finalidade disciplinar obrigando os novatos a recolher cedo aos seus aposentos e, ao mesmo tempo, a integração era feita com o convívio com os mais velhos nas mobilizações e latadas.”
Neurocirurgião reformado, ex-aluno da Universidade de Coimbra

Ana Rato, 23 anos:
“Os ‘bichos’ têm, supostamente, recolher obrigatório a partir das nove da noite. Quando os caloiros são apanhados por uma trupe, são praxados até às sete da manhã — passam uma noite de praxe como castigo. No final da praxe, é-lhes dada uma fitinha, com um guizo. Eu quis ser apanhada porque queria o meu guizinho.”
Estudante de mestrado, Universidade de Évora

Júlio compõe a capa. “Está-se a ver branco?”, questiona preocupado. Quando se está com a capa traçada, como Júlio está hoje, o “código” proíbe que apareça algum pedaço do colarinho ou dos punhos da camisa branca.

Foi o pai quem lhe disse: deveria deixar-se praxar. Ia estar longe de casa (é de Castelo Branco), ia fazer-lhe falta um grupo de amigos que o ajudasse. O pai sabia do que falava. “Esteve vinculado à praxe da Academia da Força Aérea.” E, assim, Júlio, um rapaz de bons modos e sorriso afável, chegou à faculdade a achar que pior do que a praxe militar a sua não haveria de ser.

No primeiro dia de aulas, um “trajado” foi ter com ele e fez-lhe um pequeno questionário: como se chamava, de onde vinha, se sofria de alguma doença. Todas as informações seriam colocadas numa placa que deveria transportar ao pescoço no resto do ano. “Eles têm em atenção isso tudo. Por exemplo, se alguém tem um problema no joelho, não faz flexões, faz exercícios com os braços...”

Disseram-lhe ainda que, em praxe, deveria manter os olhos pousados no chão e nunca olhar um “doutor” ou “veterano” de frente. Cumpridas as formalidades, Júlio deu consigo na “formatura” com os outros caloiros. E viveu empenhadamente cada ritual, ao longo do ano. Hoje já tem “afilhadas”. E garante: “A praxe não é fácil. Enche-se bastante, luta-se por lá se estar. Mas ninguém é obrigado a estar.”

Diz que conhece pessoas que não foram praxados como ele. E que fizeram amigos. Mas não da mesma forma. “A praxe é o reforço do sistema imunitário.” Ensina “autocontrolo”, “união”, “humildade”, coisas úteis para se “ser cidadão”.

Laura Caldeira, 25 anos:
“Temos 18 pessoas na comissão de praxe. E cada pessoa está na comissão por motivos diferentes. Eu, por exemplo, sou a vilã. Na cara deles [dos caloiros], nunca me rio, é sempre: ‘Olhos no chão! Não podes olhar para mim! Faz isto! Faz aquilo!’ Mas depois chega a meia-noite, carimbamos os passaportes e vá, bora para a festa.”
Aluna de mestrado, Instituto Politécnico de Leiria

Sara Afonso, 24 anos:
“Chamavam-nos nomes, rastejávamos na lama, fazíamos flexões a valer… Cheguei a um ponto que era um ‘dr’ a berrar-me ao ouvido, dizendo ‘senta-te’, e outro a dizer ‘levanta-te’, e eu naquele meio termo sem saber o que fazer. A pior praxe foi sem dúvida no dia em que nos mandaram ir todos vestidos de pijama para uma garagem escura. Estivemos na garagem horas a fio à espera que nos chamassem a outro piso do prédio para nos praxarem um a um. Estive sete horas dentro daquela garagem ao frio, até às 5h da manhã. Fui a última a ser chamada. Não tenho palavras para descrever o sufoco.”
Desempregada, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

O debate em torno da praxe estala de cada vez que há notícia de actividades de praxe violentas ou que dão origem a acidentes graves. É assim, literalmente, há séculos (a primeira proibição da praxe é de 1727 e foi determinada por D. João V). Nos últimos anos, alguns casos chegaram a tribunal.

Em 2003, o CDS-PP propôs ao Governo a realização de um estudo exaustivo, “de molde a perceber” estas práticas. Não aconteceu. E em 2008, a Comissão Parlamentar de Educação ouviu dezenas de reitores e directores de faculdades. Face à falta de conhecimento sobre o tema, propôs uma vez mais que se realizasse um “estudo independente” acerca “das práticas de praxe académica nas instituições”. Não foi feito.

Anita Roque, 39 anos:
“Estava bastante entusiasmada até me deparar no hall de entrada da faculdade com um agrupamento de pessoas cujo líder ditava ordens e falava duma forma agressiva, insultando os recém-alunos. Um tipo aos gritos ‘obrigou-me’ a gatinhar e a lamber pósteres de imagens nojentas que se encontravam pregados à parede. Se até então estava com dúvidas em relação ao curso, depois daquela recepção ‘calorosa’, perdi completamente a vontade de regressar às aulas. Embora o dia de praxe não tenha sido o principal factor na minha decisão, posso adiantar que contribuiu em muito para ela: acabei por optar por outro curso. Hoje, talvez me arrependa. A praxe nunca devia ter sido um factor quase decisivo na minha vida.”
Técnica de análises, ex-aluna da Universidade Técnica de Lisboa

Em Dezembro do ano passado, um grupo de alunos do chamado Conselho Oficial da Praxe Académica (COPA) da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, de Lisboa, foi passar um fim-de-semana em Aiana de Cima, perto do Meco. Num sábado, vários foram vistos a fazer exercícios enquanto um tinha uma colher de pau gigante (num grupo, é a quem tem a colher que os alunos devem obedecer). Horas depois, de madrugada, seis morreram na praia. O Ministério Público continua a investigar, mas, mesmo não se sabendo se estariam a cumprir mais um ritual, o debate estalou de novo.

Ricardo Moreno, 34 anos:
“A praxe ao caloiro em nada se compara com a praxe ao ‘doutor’. A praxe ao doutor, normalmente nocturna (fora das horas da praxe ao caloiro) tem o intuito de preparar e ensinar aos doutores ‘o outro lado da praxe’, todo o conjunto de regras, tradições, histórias, rituais que cada faculdade/curso tem e quer transmitir aos seus ‘discípulos’. Discípulos no sentido de alunos que amanhã irão ficar com a tarefa de transmitir esse mesmo conhecimento.”
Engenheiro informático, ex-aluno da Universidade do Porto

No final de Fevereiro deste ano, a discussão voltou ao Parlamento. O Bloco de Esquerda propôs, entre outros, “a realização de um estudo nacional sobre a realidade da praxe em Portugal”. A proposta foi chumbada. Já a recomendação ao Governo, do CDS-PP e do PSD, para que seja ponderado com as instituições de ensino e os alunos uma campanha pela “tolerância zero à praxe violenta e abusiva” recebeu os votos favoráveis de todas as bancadas.

Esta semana, o CDS-PP voltou ao tema e deu mais um passo. Apresentou um projecto de resolução que recomenda ao Governo que crie um regime sancionatório para as praxes “humilhantes e degradantes”.

Margarida Oleiro, 28 anos:
“Nunca uma situação que incomodasse um caloiro deixou de ser criticada (embora não na frente dos caloiros) e eu própria, que tive comportamentos impróprios com caloiros, por duas vezes fui punida pela representante do meu curso e acho que o castigo foi mais do que justo.”
Formada em Serviço Social, ex-aluna da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Sérgio Duarte, 28 anos, hoje bolseiro de doutoramento, na área da Psicologia, tinha chegado de coração aberto à Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto — os trajados que o receberam como “caloiro” foram, aliás, “muito simpáticos”. Disseram-lhe: “Há uma coisa que se chama ‘praxe’, se quiseres participar, a partir de agora, há aqui meia dúzia de regras que tens de saber, se não quiseres, estás a vontade.” E ele alinhou para “conhecer pessoal novo”.

Quando, pouco depois, se viu a fazer flexões ao som da gritaria típica da praxe, pensou: “Eles estão a tratar-me mal, mas no fundo querem que eu goste deles.”

Havia coisas que achava absurdas: a saudação em latim, por exemplo, que era suposto os caloiros repetirem, de olhos colados ao chão, de cada vez que um “veterano” chegava a um local de praxe: “Ave Veteranorum Praxis Turis Te Salutem” (qualquer coisa como “aqueles que vão ser praxados estão aqui para te saudar”). A frase, diz, inspira-se nas palavras que os gladiadores dirigiam a César quando iam para lutar na arena: “Ave, Cesar, morituri te salutant” (“Aqueles que vão morrer estão aqui para te saudar”).

Também o desgostava que, de cada vez que recusava obedecer a uma ordem, visse os colegas do seu ano serem castigados por ele. “Caloiros são um só” ou “se um faz asneira, todos são castigados”, são frases recorrentes.

Até que chegou o dia do “julgamento”. Era uma sala escura e os “trajados” cantavam em coro “morte ao caloiro, o caloiro vai morrer”. Depois, veio a acusação: era o pior “caloiro do ano”, por não olhar para o chão, por se ter recusado a fazer determinadas actividades e por, às vezes, ser apanhado a gozar com os mais velhos. Foi condenado a escrever cinco mil vezes uma frase, em papel higiénico, e a dar 20 voltas de joelhos a uma fonte.

Recusou-se e virou costas para se ir embora. Foram atrás dele, convenceram-no a não ir. E ele voltou atrás.

É difícil não ceder.

Anónimo
“Decidi que bastava depois de uma ‘guerra entre cursos’, na qual me senti mal. O meu curso ‘ganhou’, mas ‘ganhou’ rodeando, gritando e insultando um curso maioritariamente formado por raparigas, que estavam em menor número, e através de insultos machistas. Afastei-me. Um ‘doutor’ reparou e ‘ordenou’ que eu deveria voltar para a praxe. Admito que cedi e voltei. No entanto, tive um ‘castigo’. À frente de todos, tive de fazer flexões na lama, gritar alto, rebolar, justificar-me perante o ‘doutor’. Fiz tudo isso já com a decisão tomada de que iria sair da praxe. Fiz também, admito, para que não dissessem que não fazia porque era fisicamente difícil.”
Estudante do Instituto Politécnico de Tomar que não quis ser identificado

Sérgio não fez o que lhe exigiram, mas viu outros colegas a ser castigados e a ficar com os joelhos inchados. Para ele, a praxe morreu naquele dia. Mais tarde, integraria a Associação de Estudantes da faculdade e seria eleito presidente. E deu consigo a entrar em choque, de novo, com ela: às quartas-feiras à tarde não havia aulas, por isso as RGA (reuniões gerais de alunos) eram marcadas para as quartas. O problema era que esse era também o dia das actividades de praxe.

“Se muita da cultura da praxe gravita à volta do orgulho de pertencer a determinada faculdade — ‘eu tenho orgulho de estar nesta casa’ —, eles absterem-se de participar numa RGA, que é o órgão principal de representação dos seus interesses, fazia-me confusão.”

Como “solução de compromisso”, chegou a propor ao dux que dispensasse a praxe nesses dias. Mas nunca o convenceu. O dux dizia que cada um era livre de fazer o que quisesse. “E tínhamos RGA com três e quatro pessoas, às vezes a tratar de temas importantíssimos, e a praxe cheia de gente lá fora.”

Rita Rocha, 20 anos:
“Acredito que a praxe possua em si grandes valores, tanto sociais como emocionais. Lá planeei acções de caridade, pedi nas ruas para ajudar instituições e, infelizmente, isso não é passado nas redes sociais e televisões. Apenas passam o lado mais negro deste movimento.”
Estudante, Universidade do Porto

A 17 de Abril de 1969, foi inaugurado o edifício das Matemáticas da Universidade de Coimbra. No exterior, vários estudantes empunhavam cartazes exigindo mais participação no governo da universidade e mais diálogo. No interior, na cerimónia oficial, numa sala apinhada de gente, o jovem Alberto Martins, de capa e batina, pedia a palavra a Américo Thomaz. “Sua Ex.ª, Senhor Presidente da República, dá-me licença que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?”

Não só não usou da palavra, como a cerimónia acabou por ser interrompida e, à saída, a comitiva foi vaiada. Depois do episódio, foi decretado luto académico: greve às aulas e aos exames; Queima das Fitas e restantes actividades de praxe suspensas. Os estudantes uniram-se em torno das suas reivindicações.

Passaram 45 anos. O líder do grupo parlamentar socialista, duas vezes ministro, recebe-nos no seu gabinete na Assembleia da República. E explica: “Quando pedi a palavra ao chefe de Estado da ditadura, vesti a capa e a batina. Não porque a vestisse com regularidade — já na altura não vestia. Mas para fazer sentir, quando me ia levantar, que quem se levantava era um estudante de Coimbra.”

Alberto Martins faz questão de distinguir: há praxe e praxe. “As praxes académicas que vejo hoje, e de que tenho notícia, as praxes retrógradas, humilhantes, que põem em causa a dignidade e os direitos fundamentais das pessoas, são algo de intolerante.”

E prossegue: “Agora, uma dimensão gregária lúdica, integradora que houve, e com a qual eu convivi na academia de Coimbra, tinha um lado positivo.” É certo que, mesmo no seu tempo, havia uma dose de violência. Em 1964, chegou a ser apanhado pelas “trupes” e rapado. Mas essa dimensão da praxe, diz, já tinha perdido importância no final da década.

A “tradição” de Coimbra que imperava era outra: “O fado, a canção de Coimbra são símbolos de resistência à ditadura. A equipa da associação académica, de futebol, quando entra de capa e batina sobre os ombros no estádio do Jamor no final da Taça [a 22 de Junho de 1969], fá-lo como sinal de luto e de resistência à ditadura. As latadas [os ‘caloiros’ desfilam em trajes escolhidos pelos ‘doutores’ e exibem mensagens satíricas] eram manifestações lúdicas que eram aproveitadas para a resistência à ditadura...”

Mais: a greve à Queima foi uma forma de luta, não uma recusa da praxe.

E dito isto, confessa-se chocado com alguns testemunhos que lhe enviámos. Acredita que “um dos traços fundamentais das juventudes de todos os tempos é a rebeldia, lutar contra o poder instalado, procurar uma alternativa...” E, no entanto, em algumas manifestações relatadas vê “a procura de traços identitários a roçar muitas vezes dimensões incompreensíveis”.

Susana Jaulino, 29 anos:
“Fui convidada a entrar numa carrinha de caixa aberta com mais 20 ou 30 alunos e levaram-nos até um lago de água estagnada, onde fomos forçados a entrar, depois de termos sido atirados a umas poças de lama. Fiquei com água pela cintura, mas alguns dos meus colegas acharam que seria divertido mergulhar. Depois deste banho forçado, levaram-nos novamente para o edifício principal, no estado que podem imaginar. Se na altura já estava com a tolerância no limite (e devia ter recusado de imediato a proposta ridícula do mergulho), caiu-me a ficha quando um ‘doutor’ me ordenou que lhe limpasse os sapatos com as mãos. Mandei-o literalmente à merda e recusei. Voltei para casa encharcada, com a roupa a precisar de uma desinfecção em vez de uma lavagem na máquina. Na semana seguinte, não fui à faculdade por ser semana de praxes. Faltei às aulas. Nos meses seguintes, desenvolvi uma doença de pele num pé, que acabou por ser diagnosticada como um fungo que está presente em águas não tratadas e que me acompanha desde então.”
Gestora de redes sociais, ex-aluna da Universidade Técnica de Lisboa

Menos de meia centena dos testemunhos dos cerca de 250 que recebemos são de pessoas que relatam más experiências relacionadas com a praxe. Nem todas autorizaram a publicação dos relatos que nos fizeram chegar. “Várias vezes me fechei na casa de banho da faculdade a chorar”, conta uma aluna.

Dias antes de lançarmos o desafio “Foi praxado?” recebemos este texto:

“Apanhados numa aula, fomos todos levados para um anfiteatro (dentro da faculdade, note-se) onde nos davam a beber um copo de ‘cerveja’ ou outra coisa semelhante a que chamavam ‘a prova de confiança’. Quem passava essa etapa sentava-se e aparentemente estaria integrado no caloiro obediente. Quem se recusava, que foi o meu caso... vi o meu cabelo todo cortado. Sem hipótese de me defender, chorei de mágoa. Sei que me agarraram, bateram... Uma brutalidade. Porém, como se isso não bastasse, houve uma ‘besta’ que decidiu que tinham de me despir. Urinaram para cima [de mim] e todos aplaudiam com grande euforia. Finalmente, quando se preparavam para me obrigar a beijar o sexo da ‘besta’, reagi e comecei a defender-me como podia. Bateram-me e arrastaram-me para uma casa de banho... O resto não preciso dizer o que se passou.”

Falámos com o ex-estudante que assinava o texto. Mas, após vários contactos, ele acabou por desistir de participar nesta reportagem. Passaram vários anos, na altura faltou-lhe a “coragem” para denunciar e agora prefere não lembrar.

“Estamos todos a operar na miséria relacional — as vítimas, os agressores, os que se sentiram excluídos, os que ficam traumatizados, os que se sentem muito felizes com a praxe...”, diz Ramos do Ó. O historiador acha que as universidades e politécnicos assobiam para o lado. E os professores, muitos dos quais abrem as portas das salas de aula para que as praxes aconteçam, reagem a estas actividades como se elas não tivessem nada que ver com o que eles fazem. “Como se elas fossem uma coisa da barbárie cultural, própria daqueles que são os recém-chegados, que vemos como estando em ascensão social e nada têm que ver com o nosso mundo e as nossas referências culturais e existenciais.”

Rita Trindade Mendes, 21 anos:
“Quero voltar a frisar que lamento a morte dos alunos [no Meco] e que para mim a comunicação social está a criar uma tempestade num copo de água ao misturar situações que nada têm que ver com a praxe, gerando um ódio por parte de pessoas que nem ligadas à praxe estão. Repito que graças à praxe conheci a minha nova família e criei memórias para a vida.”
Estudante de mestrado, Universidade Lusófona

Micaela Rocha, 19 anos:
“As nossas praxes eram basicamente isso: teatros, cantar ao desafio e fazer coreografias de dança. Era divertido, nada de humilhante. Mas achei que esta praxe era quase exclusiva do meu curso. Acabar com a violência e educar os ‘doutores’, que nem doutores são, é uma necessidade urgente. Terminar com a hierarquia também. O poder de uns é, em grande parte dos casos, o mal de outros.”
Estudante, Universidade de Coimbra

Certo é que as mortes do Meco abalaram o país. E, em particular, muitos dos defensores da praxe. Alguns escreveram-nos para dizer que os jornalistas e as suas notícias vão acabar por roubar aos caloiros o “melhor” das suas vidas de estudantes.

Já Raquel Sirvoicar Rodrigues, 23 anos, advogada estagiária, diz que tem acompanhado o assunto. E, de repente, não se identificou com o seu passado recente. Foi uma estudante de Direito empenhada, na Universidade de Lisboa. Depois dos “regulamentares dois Natais cumpridos”, chegou o dia do “enterro do caloiro” e pôde trajar. Já era “uma das grandes”. Por fim, praxou.

Na sua faculdade, a praxe não tem o peso que tem noutras. Reduz-se a uma ou outra actividade e, a ela, não a marcou. Também acha que nunca pediu nada a nenhum “caloiro” que o pudesse ter traumatizado. Mas, ainda assim, quando viu o apelo no site do PÚBLICO, que pedia testemunhos sobre praxe, decidiu escrever aquilo a que chamou “Carta de uma veterana arrependida”. Este é um excerto:

“Usei a minha antiguidade enquanto aluna para vos tornar submissos. Pedi-vos que não me olhassem nos olhos. Determinei e ordenei castigos. Pintei-vos a cara, atirei-vos farinha para cima, chamei-vos ‘bestas’. Gritei convosco quando não tinha qualquer autoridade para o fazer e obriguei-vos a cantar músicas, a gritar obscenidades, a tratar-me por excelentíssima senhora veterana. Não fui excelentíssima em nada. Fui grotesca. E, enquanto escrevo estas linhas, dói-me pensar que fui assim algum dia. Dói-me pensar que o fiz por um dia ter sido como vocês, por saber como era ser um passarinho perdido e ter-me aproveitado disso. E peço-vos perdão — peço-vos, mesmo que não tenham sentido que fizeram alguma coisa obrigados. Fui uma mulher das cavernas e, em vez de vos oferecer ajuda e amizade naquele dia, ofereci-vos uma postura autoritária, despótica, tirana. E não tinha direito de o fazer. De facto, nada disto promovia a integração nem vos ajudava a fazer amigos e, no fundo, servia para nós, veteranos, nos sentirmos grandes e nos divertirmos a ver-vos prostrados, no chão, patéticos. E para quê tudo isto, no fim? Em nome de quê é que fiz tudo isto? De nada.”
 

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