Ode contra os vikings

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A islandesa Auður Ava Ólafsdóttir escreveu um romance sobre os complexos mecanismos da representação da masculinidade

“O mundo é um conjunto de números que andam juntos, formando o núcleo mais profundo da criação, e a interpretação das datas pode produzir verdades profundas e beleza”, diz uma das personagens quase no começo do romance Rosa Candida, da islandesa Auður Ava Ólafsdóttir. E, de facto, toda a história narrada se desenvolve a partir de umas quantas coincidências de datas que as personagens recusam serem obra do acaso.

Arnljótur é um jovem de 22 anos que acaba de perder a mãe num acidente de automóvel. Foi ela quem lhe ensinou a paixão pelas flores durante as muitas tardes passadas na estufa. Ele está de partida para um outro país, mesmo sabendo que acaba de ser pai de uma menina (nascida no dia da morte da mãe), resultado de um fugaz encontro amoroso com uma estranha, “um momento de descuido feito carne”. Para trás deixa um irmão gémeo, autista, e o pai septuagenário – que no sexto aniversário de Arnljótur, quando este encontrou três trevos de seis folhas, lhe prognosticou um bom futuro.

“A força dos números também está nos meus outros romances”, conta Auður Ava Ólafsdóttir ao Ípsilon. “Talvez por influência do meu pai, que era engenheiro e que em vez de contos me narrava histórias de números. Eu rejeito um pouco o pensamento analítico, realista. Faço outra aproximação, a dos sentidos, do sabor, do olfacto, do tocar. Naquilo que escrevo o corpo é mais importante do que a palavra.”

O protagonista segue viagem para um país nunca nomeado, algures no Norte da Europa (o que presume, por algumas referências, como o “licor de arando”), e atravessa vários países. Para além de preservar os talões de roseiras (de uma variedade rara, a rosa candida) que leva na mochila, ele vai tendo encontros com várias mulheres ao longo da viagem (que preenche quase metade do romance, numa espécie de road book), ao mesmo tempo que desfia pensamentos obsessivos acerca do corpo, numa contínua descoberta. “O único desafio que agora enfrento, nesta vida, é fechar a braguilha das calças.”

A viagem de Arnljótur tem como destino um mosteiro conhecido desde a Idade Média pelo cultivo de rosas, das variedades mais raras do continente. É lá que, a par da sua nova função de jardineiro e de aprendizagem de uma língua quase extinta, o jovem protagonista se vai descobrir nas suas potencialidades, se vai fazer adulto numa espécie de epifania. Sem sequer se assemelhar a um Bildungsroman, este Rosa Candida procura de maneira simples ilustrar os complexos mecanismos da representação de alguns papéis sociais. Como se para isso fosse necessário afastar-se da solidão daquela ilha de mais de uma centena de vulcões. “Estamos envoltos por uma natureza instável, com erupções constantes, tremores de terra”, diz a autora. “As nossas casas são construídas para aguentarem sismos de 5.5 na escala de Richter, tudo é muito instável e violento em nosso redor e isso, claro, passa para as pessoas.”

A nova masculinidade

Caminhar horas sobre o musgo que cobre os extensos e mais antigos campos de lava acaba por ser mais duro do que caminhar sobre as rochas, a sua enganadora suavidade castiga os tendões de Aquiles, nota uma das personagens. Isto quase poderia servir de metáfora sobre a complexidade que este romance, narrado de maneira cândida e despretensiosa, consegue esconder, não apenas sobre dúvidas existenciais comuns, mas sobre outros assuntos que são igualmente abordados, como o das “línguas minoritárias” ou questionamentos sobre a “nova masculinidade”, isto depois de a mãe e a criança se juntarem ao protagonista na cidade perto do mosteiro onde ele cuida das rosas.

“A minha personagem não é o único homem que recebeu um telefonema de uma quase estranha a informá-lo de que irá ser pai, quis-me centrar nos diferentes papéis que são pedidos ao homem, de filho, irmão, pai, amante”, diz Auður Ava Ólafsdóttir. “Os vikings deixavam as suas famílias para irem roubar e violar, destroçavam aldeias e voltavam a casa para descansar. O meu livro é uma ode ao homem, mas à sua nova masculinidade. É totalmente anti-viking.”

Desde sempre, e ao contrário da restante literatura escandinava (mais dura e realista), que a narrativa islandesa se inscreve naquela singular atmosfera de elementos naturais ferozes e opressivos, de uma Natureza não subjugada pelo Homem (de fogo e de vento, de gelo e de rios indomáveis), e tão característica da ilha, de um tempo que apesar de actual nos remete sempre para a memória lírica do mito, para um tempo dominado por uma sombria e avassaladora solidão. Neste romance, apesar de estas características não serem demasiado evidentes, há a inevitável presença obsessiva da paisagem, quase sempre desolada, varrida por ventos frios, onde raras árvores crescem a custo, onde as flores são breves entre duas tempestades de neve, e onde a lava escura e estéril predomina.

E há também aquele lado que quase se poderia chamar de “realismo mágico” não estivéssemos a falar de literatura nórdica, em que a filha do protagonista poderia ser “uma menina de um conto do García Marquez” (como aliás refere a autora), ao curar os achaques dos vizinhos idosos, e de tão parecida que é com uma das figuras da igreja que fica perto de casa.

Na conversa com a autora ela fez notar a polissemia do título original, Afleggjarinn, uma palavra islandesa que tem três significados, todos eles bastante adequados ao livro: “um caminho de inúmeras curvas que não se percebe bem onde nos pode levar, uma flor (neste caso a variedade rosa candida), e um filho.” Uma palavra de apreço para a tradução competente de João Tordo, feita a partir da versão inglesa; mas é pena que, e mais uma vez, as editoras continuem a apostar em traduções feitas de uma língua que não a do original.