Entrevista

O problema da Europa é a unipolaridade alemã

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O candidato socialista considera que Durão foi um presidente sem visão. E acredita que até Juncker, o candidato designado pelo PPE, será melhor.

O que é que tem de mudar na União Europeia?
A primeira grande mudança é de opções políticas. Qual é essa mudança de opção política? É a rejeição deste modelo de uma Europa a duas velocidades. Há hoje na Europa um problema sério, uma divisão entre países que estão a ganhar com a globalização e países que estão a enfrentar grandes dificuldades com o processo da globalização; países que estão a ganhar com o euro forte e países que estão a atravessar grandes dificuldades com o euro forte; países que estão a ganhar porque são credores e países que estão a perder muito porque são devedores. É preciso construir uma política que ponha fim a essa dicotomia.

E como é que se consegue essa política?
Temos de ter não apenas uma política preocupada com a consolidação orçamental, mas uma política que promova o crescimento da economia europeia e para promover o crescimento da economia europeia há várias mudanças. Em primeiro lugar, os países que têm excedentes comerciais têm que ter uma outra atitude em relação aos seus próprios mercados internos de maneira a não potenciarem, a não aumentarem ainda a austeridade que se está a verificar nos outros países. Em segundo lugar, o Banco Central Europeu tem de ter em atenção não apenas a questão do controlo da inflação, mas tem que ter preocupações em matéria de crescimento da economia. Isto coloca-se hoje de uma maneira muito evidente quando na Europa há um risco deflacionista, ou pelo menos, um risco de manutenção de uma taxa de inflação muito baixa, que prejudica globalmente o espaço europeu e prejudica particularmente os países mais devedores. Precisamos de ter uma política monetária diferente menos rígida, menos ortodoxa em matéria de controlo da inflação, mas mais atenção à necessidade de articular esse controlo da inflação, que é necessário, com a perspectiva de crescimento da economia. Em relação à dívida dos vários países, temos uma posição muito clara: nós continuamos a ter um problema sério de endividamento de vários países, de sustentabilidade da dívida pública. Não somos a favor de nenhum pedido uniliteral de perdão da dívida, mas entendemos que haja um esforço conjunto europeu no âmbito de um problema comum para estabilizar a situação da dívida.

De que forma?
Há várias formas de o fazer isso. Seja através de uma mutualização parcial da dívida europeia, seja pelo sistema dos eurobonds, seja pelo sistema de mutualização das dívidas a mais no curto prazo.

Como é que consegue convencer a outra Europa do mérito dessas propostas?
Isso é uma disputa política. Há dois anos, havia muita gente no PSE que estava desarticulada e isso é um mérito de muita gente, em particular do secretário-geral do PS que desde o primeiro momento adiantou a necessidade de uma resposta de apoio à crise e que se bateu por ela quer interna quer no espaço europeu e hoje vemos que muitas dessas soluções estão consagradas no documento oficial que sustenta a candidatura de todos os socialistas e sociais-democratas ao PE. Perguntar-me-ão é um caminho fácil? É evidente que não é, mas é um caminho que tem de ser prosseguido. Temos que lutar por aquilo em que acreditamos.

Lutar como?
Se ganharmos estas eleições, se tivermos um presidente da Comissão Europeia a produzir um discurso desta natureza, isso muda desde logo os equilíbrios de força no interior do espaço europeu.

Schulz pode ter assim tanta força?
Pode. O presidente da CE pode ter muita mais força do que aquela que, aparentemente, não teve do doutor Durão Barroso. Depende do seu discurso, depende da sua capacidade de se impor depende de ir muitas vezes contra a corrente.

Que avaliação faz do mandato de Durão Barroso?
O doutor Barroso é um homem de equilíbrios, não é um homem de visões. É um homem que funciona bem quando tem de se equilibrar interesses distintos. E nesse sentido é um homem astuto e inteligente. No primeiro mandato ele conseguiu fazer isso. Depois foi claramente ultrapassado pelos acontecimentos. Não foi capaz de se opor a uma perda de importância crescente da Comissão Europeia. Que teve várias razões: o Tratado de Lisboa, a afirmação progressiva do poder alemão, que ele não foi capaz de enfrentar por não ser um visionário. Nem a força que os visionários têm. Neste segundo mandato, uma altura em que a Europa precisava de alguém que visse mais longe, Durão Barroso não foi o presidente que as circunstâncias exigiam. Espero francamente que o próximo, seja ele quem for, e até estou convencido que qualquer dos dois terá a capacidade e a força para verem mais longe e, em determinados momentos, para procurarem contrariar o curso aparentemente natural dos acontecimentos.

Em que perfil de presidente se revê, num Jaques Delors?
O mais recente, sim, é Delors. Foi um homem claramente capaz de perceber que era preciso dar um novo impulso ao projecto europeu. E fê-lo com os estadistas da sua época. Há aquela tendência para dizer que há 30 anos os estadistas tinham uma qualidade superior. Daqui a 30 anos vão dizer isso dos que lá estiverem. Não vou muito por essa lógica. Quando o Kohl ganhou as eleições era visto como um provinciano e foi o que foi. Mas acredito que mesmo que ganhe o Juncker – mesmo isso sendo um sinal de permanência da actual maioria – essa personalidade dá algumas garantias. De uma personalidade mais forte do que foi Durão Barroso.

Actualmente a União Europeia está presa pelo princípio da intervogernabilidade…
A União Europeia tem uma componente intergovernamental e tem uma componente fortemente comunitária.

Mas a componente intergovernamental pesa mais…
Até nem é intergovernabilidade, infelizmente o que pesa mais é a unipolaridade alemã e esse é que é o problema da Europa. Das duas umas, ou nós adoptamos o discurso que é em grande parte o discurso da direita portuguesa, que é o discurso da resignação, um discurso fatalista, nada se pode fazer, por que a correlação de força a nível europeu ser-nos-á sempre desfavorável, nós não temos nenhuma autonomia, nenhuma independência, nenhuma força, ou, pelo contrário, nós todos, quer do ponto de vista nacional, que do ponto de vista ideológico e doutrinário - a esquerda democrática europeia pensa desta maneira - estamos dispostos a travar um combate, dia-a-dia, a lutar pela prevalência da soluções que nós acreditamos. Estas eleições são muito importantes por isso mesmo. Se no dia 25 de Maio à noite, houver uma nova maioria politica no PE e houver um novo presidente da CE, passados alguns dias, isso não vai ser uma revolução absoluta, mas vai introduzir um novo discurso, uma nova linguagem. Isso vai mudar o horizonte da política europeia e o que nós precisamos é desse sobressalto democrático.

Isso faz lembrar o que alguns socialistas diziam em relação a François Hollande…
Na política nós temos que nos bater em absoluta em função das nossas convicções, umas vezes ganhamos, outras vezes perderemos…

Hollande perdeu a batalha…
O caso François Hollande é a demonstração de outra coisa. Não é ter perdido. é a demonstração de que muito dificilmente mesmo um grande país como a França consegue operar mudanças significativas na sua politica se essas mudanças não estiverem articuladas com mudanças mais gerais no espaço europeu. Depois há a idiossincrasias específicas da situação francesa e do presidente francês. Se a Europa mudar no dia 25 de Maio à noite isso será bom para o nosso modelo de projecto da Europa e será bom para o nosso país (…) Temos de fazer uma mudança no sentido de arrumar de uma vez por todas com esta política que tem como horizonte a aplicação de uma austeridade brutal. Vivemos em sociedades sem perspectivas de futuro, sem esperança e não vejo caminho melhor do que aquele que passe por uma mudança de liderança política na Europa.

Que propostas tem para a Europa em geral e para a relação de Portugal com a Europa no pós-troika?
Uma questão central é nós defendermos os nossos interesses, porque a Europa é um grande projecto comum e tem que ser pensado a assim, mas não deixa de ser um projecto constituído a partir de estados-nação e cada estado tem que saber defender os seus interesses. Os outros fazem isso. O que é estranho é que haja alguns portugueses que querem olhar para a Europa como uma espécie de conformação artificial por imitação do modelo alemão.

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