Entrevista

Governo de gente extremista, impreparada, com pouca formação e densidade política

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Ricardo Castelo/NFactos

Que avaliação faz do Governo?
Acho que é um Governo calamitoso. É um Governo extremista do ponto de vista ideológico. É um dos governos mais extremistas da Europa, assente numa linha de orientação que desvaloriza completamente o Estado, em particular, nas áreas sociais. É um Governo de uma direita muito radical que julguei que já não existia. E é um Governo muito incompetente que gera angústia e ansiedade no país. Gente extremista, impreparada e com pouca formação e densidade política.

O PS sempre disse que o exigível ao Governo era uma saída limpa do programa de assistência. Se isso se confirmar é uma vitória do Governo?
Não, porque não se pode enfatizar a forma da saída, mas antes as circunstâncias da saída e a forma como vamos enfrentar o futuro. Até porque a saída limpa não depende praticamente nada de nós próprios. Depende dos nossos parceiros europeus.  E a saída limpa pode significar uma coisa muito negativa: que a Europa esteja num estado tal que os nossos parceiros não estejam em condições de explicar aos seus eleitores que é preciso continuar a apoiar alguns países do espaço europeu. Isto é, o egoísmo terá atingido um tal ponto que já ninguém tem coragem para fazer o apelo da solidariedade. É um pouco obsceno falar de saída limpa com a taxa de desemprego que temos, com jovens a partir para o estrangeiro, com os mais velhos confrontados com um cenário de imprevisibilidade constante e com a pobreza a aumentar. Uma saída limpa seria se Portugal estivesse melhor.

Preferia um cautelar?
Esse assunto deve ser discutido, mas não quero avançar com nenhuma posição definitiva. Primeiro porque depende pouco de nós. E depois, em função do momento em que se vai tomar a decisão, deveria haver uma ponderação muito rigorosa. Aí sim, o Governo devia tomar a iniciativa de chamar os partidos da oposição e auscultar a sua posição. Neste momento, estar dizer algo apenas concorria para alimentar uma barganha política que se deve evitar. Até porque agora já se admite que o fim do programa se dará apenas em Junho. Esta data do 17 de Maio faz parte de uma grande encenação Governo. O que interessa agora é pensar em que estado estamos, que país queremos ser e o que estamos dispostos a fazer para ser esse país. E nessa base, com os nossos aliados, procurar as melhores soluções. Agora, isso pressupõe uma atitude do Governo que este nunca teve. Sempre defendi que, no primeiro ano, Portugal devia ter feito um grande esforço para aplicar o programa. Tínhamos assumido o compromisso, tínhamos de dar essa prova. Mas ao fim de ano, ano e meio, devíamos ter feito um balanço, uma leitura crítica junto com os nossos parceiros…

O Governo não fez essa avaliação?
Não só não o fez como aderiu a ele e foi mais longe. Neste momento ou nós parávamos… A haver um compromisso em Portugal teria que ser nestes termos. Acredito nesse compromisso, mas já só depois de eleições legislativas. Primeiro parando para ver o efeito destas políticas e depois dialogando com os nossos parceiros. Porque, evidentemente, há compromissos que assumimos com os nossos parceiros, há esforços que temos de fazer. Mas também temos de discutir o que é que os nossos parceiros estão dispostos a fazer para que o nosso processo de modernização possa prosseguir. Para que haja um horizonte que não seja o do empobrecimento.

Como é que olha para o período pós-troika, em que tem de se conciliar a contenção orçamental com o crescimento da economia?
Vai ter de se fazer uma leitura inteligente do Tratado Orçamental…  Compreendo a necessidade de se ter feito um Tratado daquela natureza, agora, não podemos aceitar uma leitura tão extremista que conduza a uma neutralização de qualquer possibilidade de crescimento. É preciso capacidade política para negociar e impor uma leitura adequada do Tratado. Depois, tem de se lutar para que haja políticas europeias – tanto ao nível monetário como orçamental  – que favoreçam o crescimento das economias. E é preciso que Portugal participe nos grandes desígnios. O da Europa apostada na inovação, por exemplo. Essa é uma área em que a Europa se tem atrasado.

Já defendeu uma maioria para o próximo Governo. Isso pode não acontecer. Nesse cenário, acha possível uma coligação com o PSD?
Não acho impossível. Acho que se ninguém tiver maioria absoluta, vai ter de haver um esforço de compromisso. A democracia faz-se também assim. E o compromisso será tanto mais forte se os partidos assumirem antes, mais claramente, as suas divergências. Estamos no momento de afirmação de diferenças, até às legislativas. Depois das legislativas, terá de haver um sentido de compromisso. Acho desejável e, neste momento, não acho que seja desejável fechar portas a nenhum tipo de compromisso. Vejo que há mudanças, à direita… Não acho possível um compromisso com este PSD. Mas admito que na sequência de umas legislativas em que esta linha perca, há condições para gente diferente no PSD, com outra perspectiva. O mesmo poderá acontecer no CDS. Mas, já agora, não fecho, como teria feito há alguns anos atrás, as portas a um diálogo à nossa esquerda. Há partidos à nossa esquerda que também têm de assumir as suas responsabilidades.

O que é o fez mudar de opinião?
O mundo mudou, os comportamentos de muitos partidos por essa Europa fora mudaram. Eu não esperava ver a assinatura de Francisco Louçã no Manifesto do 70. Fiquei surpreendido. Porque é um texto de compromisso, muito moderado. Ver Francisco Louçã e Fernando Rosas a assinar o texto para mim teve um significado. O facto de vermos hoje pessoas, de direita e de esquerda que são capazes de assinar um documento como aquele, significa que pode haver espaço para a construção de uma grande maioria política inspirada numa certa democracia social-democrata. As coisas mudaram muito. Hoje a extrema-esquerda já não olha para a social-democracia como olhava há 30 anos atrás.

Considera possível o próximo Governo fazer a reposição integral dos rendimentos?
Acho que terá de assumir um compromisso, no programa de Governo. Antes de mais romper com esta linha e depois assumir um compromisso com um prazo de tempo. Em função de uma estimativa do que pode ser o comportamento da economia. E isso deve constar explicitamente num programa de governo.

Indexar a indicadores?
Não tem que haver… Estou a falar da assunção de uma responsabilidade em função da economia no momento. Indexar ao crescimento do PIB, por exemplo, poderemos não vir a ter condições depois de o cumprir. Pode haver uma reposição dos salários acima do crescimento do PIB.

Têm surgido indicações de que o Governo estuda a possibilidade da subida das pensões à Economia. Isso converte cortes provisórios em definitivos?
Vai, evidentemente, converter. Essa solução é uma forma de justificar a conversão, deixando no ar uma expectativa. E cria o problema da instabilidade nos mais idosos, que se veriam confrontados com a incerteza ano após ano. Isso impede as pessoas de fazer planos para os últimos anos das suas vidas.

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