Crónica Urbana

Os homens dos monumentos

O que fazem múmias peruanas ao lado de túmulos de reis numa igreja em ruínas? Contam a história de homens que quiseram salvar aquilo a que ninguém dava valor.

Lembro-me de visitar o Museu Arqueológico do Carmo, nas ruínas da antiga Igreja do Carmo, durante uma Festa da Arqueologia, e mal conseguir entrar numa das salas, completamente cheia de pessoas que ouviam o egiptólogo Luís Araújo, de chapéu à Indiana Jones, falar sobre a múmia egípcia que faz parte da colecção do museu.

A pequena multidão acomodava-se o melhor que podia na sala que é, na realidade, parte da antiga igreja destruída pelo terramoto de 1755 — a parte que melhor resistiu e que manteve ainda o tecto, e por isso serve hoje de espaço interior do museu. O sarcófago egípcio com múmia (oferecido por uma leiloeira que não o conseguira vender) era, naquele momento, graças à descrição entusiástica do professor, o centro das atenções, mas na mesma sala estão duas figuras que são as que maior fascínio despertam habitualmente a quem visita o museu: duas múmias pré-colombianas vindas do Peru, datadas provavelmente do século XV, e que pertencem à colecção do segundo director do museu, o Conde de S. Januário, diplomata que comprava o que lhe interessava nas suas viagens pelo mundo.

São dois jovens da tribo Chancay, sentados, totalmente encarquilhados, com os joelhos levantados e os braços encostados ao peito, numa pose algo tímida (na verdade foram encontrados na posição fetal num cemitério Chancay), como quem não quer incomodar e se aperta para dar espaço aos outros. 

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O que impressiona nos dois corpos é a pele, sequíssima, totalmente preservada, os dentes que ainda se mantêm nas bocas, abertas num sorriso um pouco doloroso, e o cabelo, especialmente o da rapariga, longo e espesso, caído sobre as costas. Ah, e os fusos de roca e o pedaço de tecido que seguram para todo o sempre entre os braços e o peito, como a coisa mais preciosa que levaram das suas curtas vidas. 

Saí dalí com a intenção de voltar ao museu com mais tempo. Demorei, mas acabei por voltar, para descobrir que a história do museu da Associação dos Arqueólogos Portugueses, instalado no cenário romântico de uma igreja em ruínas, começou, afinal, como uma aventura dos Homens dos Monumentos como os que, no filme de George Clooney (The Monuments Men/Caçadores de Tesouros), salvam a arte europeia das mãos dos nazis.

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Museu Arqueológico do Carmo, Largo do Carmo, Lisboa. Horário: de segunda a sábado das 10h às 18h

Em Portugal — numa versão talvez um pouco menos épica — tudo começa com um homem, Possidónio da Silva, primeiro director do Museu Arqueológico do Carmo. Na segunda metade do século XIX, num país já devastado primeiro pela Guerra Peninsular (1807-1814) e depois pelas Guerras Liberais (1828-1834), surge o decreto de extinção das ordens religiosas. O resultado é muito património abandonado e pilhado por todo o país, sobretudo conventos e mosteiros, muitas vezes usados para outros fins, geralmente militares.

Possidónio da Silva percorre o país procurando bens que possa salvar, capitéis, brasões, estátuas, túmulos — é assim que se forma o núcleo inicial do museu, a partir de peças dispersas, recolhidas aqui e ali, sem relação umas com as outras. O túmulo de D. Fernando I (século XV), por exemplo, foi encontrado no Convento de S. Francisco de Santarém. Quando Possidónio da Silva chegou, a tampa do túmulo era usada pelos militares que ocupavam o convento como bebedouro para os cavalos, enquanto a parte de baixo servia para arrumar as selas dos animais. Recuperado e restaurado, apesar de várias vicissitudes (é feito em calcário e algumas partes estão muito degradadas), é uma autêntica banda desenhada em pedra. 

Ao lado deste, o túmulo de D. Fernão Sanches, filho bastardo de D. Dinis, que Possidónio da Silva recolheu no Convento de São Domingos de Santarém, em 1866, e que mostra ainda sinais das mutilações, com uma das paredes laterais destruída e a outra semi-destruída, por ter sido, a determinada altura, emparedado para desaparecer do mundo.

Quando entramos no pátio do museu, a zona aberta dominada pelos arcos da velha igreja mandada construir por D. Nuno Álvares Pereira, e destruída pelo terramoto (os arcos caíram também durante a tragédia, mas foram depois reconstruídos, numa altura em que se planeou a reconstrução de toda a igreja do Carmo, que nunca chegou a acontecer), vemos ao fundo uma parede com uma janela. Como aqui nada do que parece é, também aquela parede de pedra ao fundo é uma obra dos anos 40/50, e a janela que ali vemos é… dos Jerónimos. Terá sido retirada do mosteiro durante umas obras e, sem outro local para ficar, foi doada ao museu. 

Esta é (uma pequena) parte da história dos Homens dos Monumentos de Portugal, que, numa altura em que ninguém se preocupava com o destino destas pedras, as salvaram e trouxeram para um abrigo numa igreja em ruínas, ao lado de múmias de pose tímida e sorriso eterno.