Stuart Hall, um intelectual cosmopolita e não apenas por biografia

Em Stuart Hall, que morreu esta semana, cruzavam-se a dimensão cultural das práticas sociais e o activismo político.

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Stuart Hall numa fotografia do documentário intitulado The Stuart Hall Project

Uma evidência que muitas vezes é esquecida: há inúmeras formas de fazer ciência. Olhe-se para o caso de Stuart Hall, sociólogo e pioneiro do campo de investigação que ficou conhecido como Estudos Culturais, de origem jamaicana, que vivia em Inglaterra desde 1951, e que viria a morrer na segunda-feira aos 82 anos.

Em toda a sua actividade, ao mesmo tempo que expôs um pensamento sociológico, nunca deixou de lado o activismo, influenciando o debate político na esquerda britânica. Tornou-se figura de referência na academia, mas também se preocupou em comunicar complexidade com inteligibilidade, para melhor poder actuar na esfera pública.

Existiu em toda a sua actividade um contínuo engajamento com a fluida movimentação das sociedades contemporâneas, procurando intervir no debate de temas do momento, fossem eles o multiculturalismo, a globalização ou as identidades em geral.

Não há uma homogeneidade teórica ou metodológica estabelecida que o unifique. Tinha interesses distintos, segundo a conjuntura e os deslocamentos teóricos, embora seja possível destacar eixos temáticos, com a cultura como referência central.

Nasceu em 1932, na Jamaica, no ambiente de uma família de classe média, que reflectia uma grande mistura de origens. O pai era negro, da classe média baixa, e a mãe provinha de uma família de “brancos locais”, como eram designados, com vários parentes educados em Inglaterra. A sua estruturação familiar revelava o conflito entre o local e o imperial, num contexto colonizado.

Para o antropólogo, professor e investigador Miguel Vale de Almeida, isso é, desde logo, qualquer coisa que o distingue. “Ele personifica o tipo de intelectual cosmopolita que surgiu nas últimas décadas, um pouco por todo o mundo, mas que é muito bem representado por pessoas de contextos ex-coloniais, com uma história pessoal e familiar interessante, com descendência de escoceses, escravos africanos ou de judeus portugueses.”

Quando vai para Inglaterra, em 1951, para prosseguir os estudos, em Oxford, e mais tarde, em 1957, quando inicia a carreira de docente em Londres, nunca se entrincheira numa essência identitária. Ou, como refere Vale de Almeida, “o multiculturalismo dele é aquele que interessa, não é o da separação coexistente, mas o da possibilidade de criar uma identidade cultural nova". "Foi sempre atento às hibridizações, mais do que às separações.”

É a partir da sua história que reivindica um entendimento de cultura como algo pessoal e também como estrutura vivida. Através da sua biografia mostrou que, se as identidades pessoais têm história e passado, as identidades sociais também. Ao longo dos anos a noção de diáspora, a experiência da deslocalização e do hibridismo, a encruzilhada de pertenças foram centrais na sua reflexão, que utilizou para mostrar como as identidades se articulam, sendo cruciais para a tradução das sociedades actuais e para a prova da inevitabilidade da diferença e da cidadania plural.

Em 1964 foi o primeiro investigador convidado para o recém-criado Centro para Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade de Birmingham, tendo ajudado a moldar um campo de estudos emergente, que procurava construir uma abordagem interdisciplinar de cultura, misturando a sociologia, antropologia, filosofia, linguística ou a teoria política. Para ele, cultura era um ponto crítico de acção e intervenção social, no qual as relações de poder eram estabelecidas e potencialmente desestabilizadas.

Com esse olhar analisou temas diversos a que a academia nem sempre prestava atenção – cultura popular, meios de comunicação, novos movimentos sociais, subculturas juvenis ou comunidades de imigrantes em contextos pós-coloniais – e fazia-o analisando as relações de poder e os cruzamentos dinâmicos entre classe, raça e género, fugindo de interpretações deterministas.

Em 1968 assumiu a direcção do Centro para Estudos Culturais, aí permanecendo até 1979, quando se tornou professor de Sociologia na Open University, lugar que manteve até se reformar.

Para a socióloga, professora e investigadora da Universidade do Porto Paula Guerra, a actividade de Hall acabou por ser importante para a abertura da sua abordagem científica. “Os Estudos Culturais enfatizam os conceitos de representação, de identidade, de produção e consumo, o que se torna facilmente visível ao revisitarmos uma obra como Doing Cultural Studies: The Story of the Sony Walkman, onde prevalecem os conceitos de articulação, significação, transculturalização, de globalização, de esfera pública, ideologia ou subculturas”, afirma Paula Guerra. 

Os seus trabalhos com maior impacto académico situam-se num período demarcado entre 1975 e 1983, constituindo análises da sociedade britânica, pensadas para terem efeito na política social da época, como Resistance Through Rituals (1975), Policing the Crisis (1978) ou The Politics of Thatcherism (1983).

Neles relaciona categorias como classe social e geração na produção de distintos estilos de vida, ou examina os temas da raça, crime e juventude, ou apresenta a ascensão de Thatcher como algo não fundado apenas num programa económico de reacção à crise, mas algo com profundas raízes culturais.

No mesmo período produz textos em que as suas preocupações são a ideologia e os meios de comunicação de massas, como em Encoding and Decoding in Television Discourse (1973), em que identifica a ideologia como uma categoria fundamental de análise, aliada ao reconhecimento da importância da linguagem.

Mas o impacto da sua obra ultrapassou largamente os círculos académicos, ao mesmo tempo que emergiu como pensador crítico da esquerda na efervescência dos anos 1960 e 1970. Ao longo dos tempos esteve envolvido no lançamento de publicações de esquerda e a sua voz fez-se sempre ouvir. Nos últimos anos era pessimista em relação à esquerda, afirmando que não tinha ideias, ao mesmo tempo que lhe apontava ausência de perspectiva própria.

“O seu legado remete para a importância da cultura, dos seus significados e apropriações quotidianas”, refere Paula Guerra, que cita um artigo de Hall em que este escreve: “Se vos acontecer que a cultura vos arrebate a alma, terão de reconhecer que irão sempre trabalhar numa área movediça. Há sempre algo descentrado no meio da cultura, na linguagem, na textualidade, na significação, algo que constantemente escapa e elide a tentativa de ligação, directa e imediata, com outras estruturas.”

A história de vida de Hall, incluindo os posicionamentos teóricos e políticos, em que mostrava que toda a prática social tem dimensão cultural, revela que esteve sempre muito atento às dinâmicas das sociedades, por insignificantes que pudessem parecer. Talvez porque é nessa conexão que se constrói a sensibilidade do intelectual para capturar o essencial de cada época.