Um futebol feito por estrangeiros

Portugal não é excepção no panorama europeu: os clubes contratam muitos estrangeiros e tiram pouco partido da formação, o que terá consequências a longo prazo. A oportunidade oferecida pelas equipas B pode estar a ser desperdiçada, avisa Luís Norton de Matos, lamentando que a formação seja relegada para segundo plano

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O francês Debuchy (centro) celebra golo ao serviço do Newcastle com o compatriota Cabaye e o marfinense Tiote Nigel Roddis/Reuters

O Newcastle é um dos clubes com mais tradição na Liga inglesa: os magpies foram quatro vezes campeões de Inglaterra e ao longo da década de 1990 projectaram jogadores como Alan Shearer ou Gary Speed. Mas, nas últimas temporadas, tem sido cada vez mais raro ver em St. James’ Park jogadores nascidos nas ilhas britânicas a vestir a camisola preta e branca do clube. A aposta tem sido declaradamente no mercado francês (ou africano francófono), com mais de duas mãos-cheias de futebolistas. Tanto assim é que há mais de um ano que o Newcastle não tem um golo marcado por um futebolista inglês. O último foi apontado por James Perch, em Dezembro de 2012.

Desde essa altura, nos jogos da Premier League, o Newcastle só conta com golos de jogadores estrangeiros. Neste grupo incluem-se Paul Dummett, que é internacional pelo País de Gales, ou Shola Ameobi, que cresceu no Reino Unido mas representa a Nigéria. Este fenómeno faz do Newcastle a terceira equipa da Premier League a passar um ano inteiro sem golos de futebolistas ingleses, depois de tal já ter acontecido com o Arsenal (em 2006 e 2007) e Fulham (em 2001). Para além disso, o Newcastle já tinha sido protagonista de um recorde: 13 golos consecutivos marcados por jogadores estrangeiros de um mesmo país (exacto, franceses).

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Estes dados reflectem a tendência evidenciada pelo “Estudo Demográfico” elaborado pelo observatório de futebol CIES, na Suíça. Os clubes europeus apostam cada vez mais em jogadores estrangeiros e cada vez menos na formação. O Newcastle é um caso paradigmático desta realidade, mas nem sempre foi assim. E o actual treinador do Newcastle, Alan Pardew, até já foi um grande crítico de Arsène Wenger e da política de recrutamento do Arsenal, que há vários anos aposta em futebolistas de fora do Reino Unido. “É importante que os clubes de topo não se esqueçam que estamos na Liga inglesa e deve haver jogadores ingleses envolvidos. Os jogadores estrangeiros têm sido fantásticos e aprendemos muito com eles e com os treinadores estrangeiros. Mas, até certo ponto, podemos perder a alma do futebol britânico”, lamentava Pardew em 2006, quando orientava o West Ham.

O futebol português não foge à regra: segundo o estudo em causa, FC Porto e Benfica estão entre os dez clubes europeus com maior percentagem de estrangeiros e a I Liga tem 52,1% de futebolistas vindos de outros países. Ao mesmo tempo, os clubes portugueses utilizam apenas 12% dos jogadores que formam.

Luís Norton de Matos, técnico que no ano passado orientou a equipa B do Benfica, identifica um problema de filosofia dos clubes. “Pretende-se rendimento imediato, o contrário do que é a formação”, sublinhou em conversa com o PÚBLICO. Por um lado continuam a contratar-se muitos jogadores estrangeiros e por outro a aposta na formação é relegada para segundo plano, sendo que vários clubes começam a ter jogadores estrangeiros também nos escalões de formação. “O mundo é global. Não sou radical neste aspecto e todos os clubes de topo têm muitos jogadores do estrangeiro nos escalões de formação. Mas há muito bons jogadores em Portugal, em todas as divisões. E há muitos jogadores tapados”, acrescentou.

Há no Benfica um bom exemplo desta realidade. No plantel orientado por Jorge Jesus há oito nacionalidades, mas só há uma semana se registou o primeiro golo apontado por um português em 2013-14. Foi no triunfo sobre o Leixões, a contar para a Taça da Liga, e o golo pertenceu a Ivan Cavaleiro, jovem que integrava a equipa B mas foi promovido com a lesão de Salvio e o mau momento de Ola John.

“A maioria dos jogadores não são portugueses, salvo os minutos esporádicos do Ivan Cavaleiro, André Gomes e Ruben Amorim. O Benfica joga normalmente com 11 estrangeiros, sobretudo do meio-campo para a frente, e é normal que os golos sejam marcados por estrangeiros. É uma consequência da política do clube”, admitiu Norton de Matos.

“Tem de haver continuidade” na aposta nos jovens da formação, prosseguiu o técnico, dando o exemplo de clubes como o Barcelona e o Ajax, que são competitivos ao nível europeu ao mesmo tempo que lançam jovens valores dos escalões de formação. Para além de faltarem competições que permitam aos jovens fazer a transição entre os juniores e os seniores, faltam oportunidades para jogar. “Seria uma óptima lógica ter menos jogadores na equipa A e em caso de lesões ou castigos ter uma segunda linha com jogadores da formação. Assim é difícil um miúdo poder entrar, há muitos que não jogam”, lamentou Norton de Matos.