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O affaire de Hollande ameaça tornar-se assunto de Estado

O Presidente francês revela os seus planos económicos numa conferência de imprensa, mas deverá ser obrigado a responder sobre a sua vida privada depois da revelação da sua relação com uma actriz.

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Hollande explica as suas reformas no Eliseu ALAIN JOCARD/AFP
O caso de Hollande foi notícia em jornais de todo o mundo
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O caso de Hollande foi notícia em jornais de todo o mundo ALAIN JOCARD/AFP

O Presidente francês está esta terça-feira a dar uma conferência de imprensa para falar sobre os seus planos para a reforma do Estado, o “pacto de responsabilidade” entre os parceiros sociais que tinha anunciado. Mas depois de a revista Closer ter revelado o seu caso amoroso com actriz Julie Gayet, todos os microfones postos à frente de François Hollande exigirão respostas sobre o affaire. Sobretudo, sobre em que posição fica a primeira-dama, Valérie Trierweiler, com a qual Hollande não é casado.

Uma sondagem do Instituto IFOP para o Journal du Dimanche revela que 77% dos franceses considera que o caso amoroso do Presidente é “um assunto da vida privada, que apenas diz respeito a François Hollande”. Mas num país que puxa dos galões como respeitador da vida privada dos políticos – sem os exageros moralizantes dos americanos, em que um deslize pode deitar a perder uma carreira – as vendas da revista cor-de-rosa que revelou os amores de Hollande dispararam.

As vendas em banca da revista Closer subiram 50% - podem alcançar 600 mil exemplares, em vez de 330 mil. Além disso, o seu site teve 1,4 milhões de visitantes na sexta-feira – um aumento de 800% – quando revelou as visitas nocturnas que Hollande tem feito a um apartamento perto do palácio do Eliseu, numa mota conduzida por elementos da segurança presidencial.

Virtude pública, curiosidade em privado? É verdade que o caso desestabiliza François Hollande, um Presidente que tem batido recordes de impopularidade, num momento em que tentava relançar, mais uma vez, a sua governação. Por isso o jornal Le Monde fala num “cenário catástrofe” antes da sua conferência de imprensa.

A primeira-dama, Valérie Trierweiler, internou-se, no fim-de-semana, sentindo-se à beira de um esgotamento, depois de ter sido publicado o artigo e as fotografias do affaire de Hollande – que não foi desmentido pelo Eliseu.

Houve quem notasse, com uma certa malvadez, que Hollande não é casado com Trierweiller – nem se casou com a sua anterior companheira, a ex-candidata à presidência, Ségolène Royal, mãe dos seus quatro filhos. Tecnicamente, é solteiro, por isso o melhor seria esclarecer de uma vez por todas o estatuto da primeira-dama, defenderam políticos de direita. “É normal que ela permaneça no Eliseu, sustentada pela contribuinte, enquanto o Presidente tem outras relações?”, interrogou o deputado da UMP (centro-direita) Daniel Fasquelle, citado por Le Monde. “Este vaudeville do Eliseu necessita, urgentemente, de uma clarificação do estatuto conjugal do chefe de Estado”, afirmou o seu companheiro de partido Georges Fenech.

Trierweiller, contudo, assumiu as funções de primeira-dama, acompanhando Hollande em muitas ocasiões oficiais em França e nas visitas de Estado ao estrangeiro.

O jornal Le Parisien, citando fontes próximas de Trierweiller, diz que ela estaria próxima a perdoar a escapadela de Hollande – mas antes quer saber “quais as intenções” do seu companheiro.

Há outros aspectos para além do romanesco. Como a amizade que liga Julie Gayet a outra actriz, Emmanuelle Hauck, que teve relacionamentos amorosos com dois homens ligados à máfia da Córsega – um foi condenado por abuso de confiança e outro morto a tiro. O apartamento da Rue du Cirque onde Gayet e Hollande se encontravam foi emprestado por Hauck a Julie Gayet, porque a casa desta estava em obras.

A relação da casa dos encontros amorosos de Hollande com a máfia corsa não é directa – até porque é alugada, e o seu proprietário ameaça processar todos os media que fazem essa ligação. Mas é mais uma acha para a fogueira em que o Presidente socialista está a arder, em lume já não tão brando.

O presidente da UMP, Jean-François Copé, quebrou o pacto de silêncio que leva os políticos a não comentar os desaires amorosos uns dos outros, denunciando a descredibilização das funções do chefe de Estado: “Basta ler os títulos da imprensa internacional. Só se fala deste assunto quando se fala de França.”

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