Uma geração (des)interessada pela política nacional

A geração que nasceu nos anos 1980 e 1990 não deixa de ser a mais qualificada de sempre, mas parece não se sentir representada no sistema político actual. Os politólogos alertam para problemas de representação e identificação e falam na urgência de uma reforma do sistema. O PÚBLICO procurou respostas na voz de oito jovens.

Que geração é esta que mais tarde ou mais cedo vai tomar o país nas mãos? “A geração mais formada e informada de sempre” está alienada da política? Participa? O PÚBLICO falou com oito jovens. As respostas acabaram num empate técnico: quatro dizem que os jovens não estão afastados da política nacional, os outros não pensam o mesmo.

João, Simão, Sara, Inês, e Miguel nasceram na década de 1980. Sílvia, Duarte e Francisca no início dos anos 1990. Personificam a geração em que a emancipação tarda e que surge em destaque nos discursos de todos os intervenientes políticos, incluindo aqui a tradicional mensagem de Ano Novo do Presidente da República, que lembra que 2014 vai “condicionar o futuro do país e das gerações mais jovens durante muitos anos”

Manuel Braga da Cruz, o professor doutor em Sociologia Política que entre 2000 e 2012 foi reitor da Universidade Católica de Lisboa, deixa escapar um sorriso quando afirma que o conceito de juventude tem uma história recente, “é produto das sociedades modernas, nas sociedades arcaicas esses problemas não existiam”.

Os jovens interessam-se ou não pela política? João Torres, Simão Ribeiro, Duarte Alves e Francisca Soromenho partilham, com diferenças ténues, a mesma opinião: “Os jovens não estão desinteressados, não se revêem é nas formas e nos mecanismos convencionais de fazer política em Portugal, com os partidos e com os políticos.” Sara Nobre, Inês Subtil, Sílvia Alexandre e Miguel Braga não arriscam fazer generalizações, mas dizem que os jovens portugueses estão “alheados”, “desligados”, “apáticos” e “desencantados” com a política. Duarte vai mais longe e toca numa ferida aberta onde parece não haver empates, “as políticas impostas pelos sucessivos governos é que têm posto os jovens de lado”.

O politólogo André Freire esclarece que, “em termos globais, os jovens participam menos na política”, não por desinteresse, mas porque o seu “grau de implicação nas polis” é menor do que o de alguém que esteja totalmente integrado na sociedade, quer no mercado de trabalho, na vida familiar ou no pagamento de impostos. O professor acrescenta que, no actual contexto social e económico, os jovens são os que têm maiores razões de queixa em relação aos partidos e aos políticos. Isto do ponto de vista “do bem-estar que os partidos são capazes e devem por missão proporcionar à sociedade”.

Para falar em participação ou alienação política, palavras como mobilização e abstenção são indispensáveis. No último acto eleitoral nacional, as autárquicas, registou-se a maior taxa de abstenção em eleições locais. 47,4% dos cidadãos portugueses não votaram. Sílvia Alexandre, a jovem que não vota por convicção, é um dos rostos que engrossam estes números e explica a sua opção: “De que me adianta votar se eles são todos iguais?"

Neste sentido, Duarte Alves, da JCP, acredita numa campanha ideológica que leva a crer que os partidos “são todos feitos da mesma massa”. Porém, diz que esta “é uma questão demasiado empolada”, porque aquilo que vê é uma juventude que vota e participa. Sara Nobre compreende quem abdica do seu direito de voto, mas defende que “a participação, seja em manifestações seja nas urnas, pode mudar as nossas vidas”. Esta activista dos Precários Inflexíveis acredita que “está nas nossas mãos perceber, tomar esse caminho e empenharmo-nos na construção de um país à nossa medida: mais justo e mais igual”.

As imagens comprovam. Na história mais recente da democracia portuguesa, poucas foram as acções de rua que juntaram tantas vozes pela mesma causa. 15 de Setembro de 2012 e 2 de Março de 2013 são marcos da contestação. O movimento Que Se Lixe a Troika esteve por trás destas manifestações e promoveu outras, a de 1 de Junho e a de 26 de Outubro, onde, apesar do crescente descontentamento, a mobilização não foi tão eficaz.

Inês Subtil apresenta duas ordens de razão. A primeira ligada ao argumento crise: “As pessoas têm tendência a fechar-se mais dentro de si próprias.” A segunda com o “silêncio” dos meios de comunicação social: “Se as pessoas não sabem quando e onde se podem manifestar, não saem à rua, não é?” E é no mesmo sentido que Francisca Soromenho lamenta que as “Quintas-Feiras Negras”, protestos que unem as associações académicas do país, não sejam divulgadas.

Conta a presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa (AAFDL) que em 2013, além de se ter feito um enterro simbólico a todos os alunos que foram obrigados a abandonar o ensino superior, foram despejadas 1071 toneladas de gelo à porta da reitoria da Universidade de Lisboa. Cada quilo de gelo correspondia a cada euro pago em propinas e “representava aqueles que pura e simplesmente deixámos de ver, porque parecem invisíveis os que não têm dinheiro para continuar a estudar”.

 

Menos militância e mobilização

André Freire liga a fraca mobilização à cultura política de cada país. Em Portugal, explica, “temos uma tradição que não é muito propensa à participação, de uma certa alienação, a dificuldade em assumir nas suas próprias mãos os destinos, exigir resultados e contestar o que parece inaceitável”. O politólogo diz que “falta um sentido político geral e mobilizações transversais”, isto porque também há um problema de resultados. Para o professor, os resultados que se obtêm com a mobilização são um incentivo, e a falta deles afasta as pessoas das acções de protesto. “Há uma sucessão praticamente semanal de protestos e isso também cria uma certa fadiga”, acrescenta.

Simão Ribeiro, o secretário-geral da JSD, não tem por hábito participar em protestos, mas diz respeitá-los, entendê-los e até aplaudi-los desde que estes se passem “em local próprio e de forma própria”. O mais jovem deputado da Assembleia da República refere-se aos protestos e "grandoladas" de que o Governo foi alvo em 2013. Simão apela a uma “participação positiva” e não a um “ataque à autoridade, credibilidade e confiança que a sociedade deve ter nos órgãos democráticos”, acreditando que “esses tristes espectáculos” também contribuem para o afastamento dos jovens.

André Freire identifica outro problema, o de uma “concorrência da contestação”, e alerta que “quando mais divididas forem, menos resultados práticos produzem”. Por outro lado, Braga da Cruz afirma categoricamente que “o tempo da militância tem vindo a passar”. “Não é que a política interesse menos”, clarifica, “a força mobilizadora das ideologias é que decresceu”, dado que hoje “as pessoas se movem por interesses, não por ideias ou ideais”.

O catedrático atribui este fenómeno às sociedades modernas em que os partidos de governo “são cada vez mais heterogéneos do ponto de vista social, lógico e até programático”. Vai mais longe ao argumentar que é o sistema eleitoral representativo e proporcional que vigora em Portugal o responsável por este fenómeno e avisa que “está na hora de repensar todo o sistema”.

 

Repensar o sistema

Miguel Braga, o jovem que resolveu contornar a crise com o jogo Tuga vs. Troika, disponível para Android, olha para a classe política com inquietação. “Não os vejo agir, vejo-os num edifício bem alto a contemplar-nos através de uma janela, em vez de virem cá abaixo e perceber o que é viver na nossa pele.”

Afirmando que os partidos, à excepção do PCP e do BE, “não estão no terreno”, Freire fala num problema de representação que acaba por desembocar num outro, o da falta de identificação. O politólogo chama aos partidos máquinas eleitorais e admite que, enquanto os jovens e a sociedade em geral continuarem a vê-los como “alguém que lá do alto toma decisões sem ouvir”, nunca serão entendidos como “parte dos seus”, o que adensa a distância e os afasta do universo da pertença.

Nas vozes dos oito jovens, o problema de representação e distância entre as instituições e os cidadãos é dito, redito e sentido e até há quem arrisque alternativas. Simão, o dirigente da JSD, fala numa “Nova República” e na urgência de repensar tudo, “desde a forma de governo à forma como são designados os titulares de cargos políticos”. Duarte, o militante da JCP, acredita que só uma política patriótica de esquerda pode “salvar o país e os jovens” e reforça a ideia de que não há democracia política “sem que seja alcançada uma democracia económica, social e cultural”. Concepção que não se afasta muito da de Inês Subtil, que defende um paradigma em que a política não seja apenas “refém da economia”. Sara Nobre fala numa “democracia mais participada e na constante defesa do Estado de direito através da separação de poderes”. Perspectiva mais ambiciosa do que a de Miguel Braga, que confessa que “só gostaria de entender a direcção do país”.

Sílvia Alexandre quer menos partidos. Para a jovem abstencionista, não se justifica a existência de mais do que dois, “um para defender o povo, outro para defender outros interesses”. A presidente da AAFDL pensa que “o voto em branco deveria ter uma expressão” em cadeiras vazias no Parlamento, o que “traria maior consciência aos partidos políticos de que uma eleição não é apenas uma competição, é a escolha daqueles que saibam defender e representar os interesses dos portugueses”.

Mas é o secretário-geral da JS o que mais insiste na reforma do sistema eleitoral a fim de reverter a distância “abismal” entre os eleitos e eleitores, que diz não ser apenas da responsabilidade dos deputados. João defende que o sistema eleitoral vigente em Portugal, o da proporcionalidade calculada através do método de Hondt, está ultrapassado e aponta a eleição através de círculos uninominais como solução.

Visão partilhada por Braga da Cruz, que aqui acrescenta um ponto ao afirmar que estamos a aproximar-nos de um período “em que se impõe lucidez para perceber que temos de adaptar o nosso quadro constitucional à situação histórica e à evolução da sociedade”. De acordo com o professor, houve nas últimas eleições autárquicas “uma claríssima manifestação” de que os cidadãos querem votar em pessoas e não em nomes escolhidos pelos partidos, pelo que se assiste a “uma clara demanda pela uninominalidade”, o sistema eleitoral que favorece a proximidade e é usado pelos britânicos e pelos alemães.

O professor teoriza uma reforma global capaz de abranger o sistema eleitoral, político e constitucional. Isto no sentido de adaptar a democracia portuguesa à evolução da sociedade. Porém, avisa que não é possível conceber nenhuma democracia sem partidos e que “não pode dar bom resultado” seguir o exemplo de Itália, “que um dia deitou tudo fora sem se lembrar de que em política não se improvisa”.