Centrista Nobre Guedes diz que o sistema foi concebido "para albergar poderosos e garantir interesses"

Num debate em Gaia, Luís Nobre Guedes criticou a acção do seu partido no seio da actual coligação.

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Nobre Guedes Carlos Lopes/ARquivo

Luís Nobre Guedes participou segunda-feira à noite no Clube dos Pensadores, em Vila Nova de Gaia, onde disse que, estando "afastado da política", vai ao congresso do CDS-PP porque não tem "medo" nem nunca teve, antecipando "um ambiente hostil" já que vai "afrontar o poder instituído".

"E vou-lhes dizer mais ou menos o que vos vou dizer agora", anunciou: "Portugal tem tudo para ser um país excepcional. Tenho muitas dúvidas que o actual situacionismo saiba e seja capaz de fazer aquilo que é preciso fazer", sintetizou.

Na opinião do ex-ministro com a pasta do Ambiente e do Ordenamento do Território no Governo de Durão Barroso, "este sistema foi pensado e concebido para albergar os poderosos e garantir os interesses instalados", considerando ser "preciso ter a coragem de mudar o estado das coisas" para que não seja "um poder que é forte com os fracos e é muito fraco com os fortes".

O centrista deu cinco exemplos onde considera que "os fortes ganharam": as Parcerias Público-Privadas (PPP), os swaps, o BPN, o défice tarifário e os mercados regulados. "Não é concebível que o poder político seja hoje controlado pelo poder económico. Isto é a subversão de tudo", condenou.

Interrogado sobre a sua relação com Paulo Portas, Nobre Guedes garante continuar a ser do CDS-PP e que não renegou o seu partido, manifestando "uma sensibilidade diferente em relação ao modo como as coisas têm sido conduzidas".

"Eu sou do CDS e vou ao CDS dizer o que penso. Provavelmente o CDS vai dizer: obrigadíssimo, não queremos isto para nada porque nós estamos muito bem. O nosso banquete está muito bom. Como eu costumo dizer, é muito difícil sair de um banquete com salmão e caviar para o frango assado. É estar a pedir muito", ironizou.

O ex-ministro disse ainda estranhar que, "em dois anos e meio, haja tanta apatia por parte dos dois partidos que apoiam a maioria governativa". "Eu acho que a oposição faz o que tem a fazer, que é criticar o Governo. Eu tenho dúvidas de que os partidos que apoiam o Governo façam tudo quanto devem fazer para apoiar o Governo que é deles", explicou.

O advogado defendeu uma revisão da Constituição, que diz não passar "nem por mexer nos princípios da Constituição nem por mexer nos direitos sociais". "Rever a Constituição passa por ter a coragem de fazer duas coisas no mínimo: reforçar os poderes do Presidente da República e de uma vez por todas fazer a revisão da lei eleitoral que não se quer fazer e sem a qual é impossível voltar a dar credibilidade a este regime", elencou.

Para Nobre Guedes, nem a direita ou o Governo "se devem afirmar por provas de autoridade ou de autoritarismo". "A direita gosta muito de autoridade e de algum autoritarismo. Eu não gosto. E daí uma das minhas divergências com o meu presidente de partido e amigo, Paulo Portas. É que eu não gosto desse tipo de reacção", diferenciou.

O centrista disse ainda não entender cortes de salários e de pensões sem que "duas coisas emblemáticas" sejam feitas: "Na próxima legislatura não termos mais de 180 deputados; e não era já tempo, passados três anos, de terem extinto pelo menos um concelho?".

 

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