No fim do mundo também se joga futebol

No futebol de Ushuaia, a cidade mais austral do planeta, reinam os Cuervos del Fin del Mundo.

A equipa da Câmara Municipal de Ushuaia em acção
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A equipa da Câmara Municipal de Ushuaia em acção DR

Lá, onde acaba a terra e começa o mar, também há futebol. Estamos já abaixo do estreito de Magalhães, na Terra do Fogo, na cidade argentina de Ushuaia. É a capital da província de Terra do Fogo, Antárctida e Ilhas do Atlântico Sul, e reclama para si o título de localidade mais austral do mundo.

Fundada no final do século XIX como colónia penal – a única forma de levar habitantes para paragens tão remotas – a condenação a uma pena em Ushuaia era descrita como estando “a um passo da pena de morte”. Mas os tempos mudaram, e Ushuaia é agora o palco inesperado de uma intensa cena futebolística. O que, de resto, já se deixava adivinhar no lema adoptado pelo município: “Fim do mundo, princípio de tudo”.

De acordo com o jornalista argentino Pablo Aro Geraldes, os campos ou pavilhões disponíveis na cidade estão quase permanentemente ocupados. “Já fizemos um registo e há mais de 350 equipas. Se multiplicarmos esse número por 11 e acrescentarmos as equipas de veteranos, de futebol feminino e do desporto escolar, chegamos à conclusão que 10% da população de Ushuaia (cerca de 60 mil habitantes) joga futebol”, enumerava o ex-presidente da câmara, Jorge Garramuño, numa entrevista com Geraldes.

A Liga Ushuaiense só passou a fazer parte do mapa do futebol argentino em 2008, quando foi reconhecida oficialmente pela federação. Mas, no fundo, isso não passou de uma formalidade. Dois anos antes, na terra do fim do mundo, tinha sido oficialmente inaugurado o relvado artificial do complexo polidesportivo Comodoro Augusto Lasserre, com a presença da selecção sub-20 “albiceleste” – que conquistara o título mundial em 2005 (com Messi) e haveria de renová-lo em 2007 (com Agüero). Foi a primeira vez que uma equipa nacional esteve em Ushuaia. Os sub-20 argentinos enfrentaram uma selecção de Ushuaia e venceram por 3-0, perante quase cinco mil espectadores e tendo como pano de fundo a cordilheira dos Andes.

Ushuaia nunca teve um futebolista famoso e nenhuma das equipas locais alguma vez competiu no principal escalão do futebol argentino. Mas as competições futebolísticas em Ushuaia são disputadas e contam com várias dezenas de emblemas: o mais reputado é o Cuervos del Fin del Mundo, que é também a filial mais austral do San Lorenzo (esse mesmo, o clube do Papa). A câmara municipal tem uma equipa, que veste tal e qual a selecção argentina. E há outras equipas curiosas: o Arturo Prat, por exemplo, é um conjunto formado por chilenos que vivem na região. Os residentes bolivianos de Ushuaia competem sob o emblema Simón Bolívar. E depois há as equipas que reúnem profissionais: tanto o Propietarios de Taxis de Ushuaia como o Club Social y Deportivo Camioneros explicam-se por si.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos