Opinião

Rosa Mota e o Palácio de Cristal

Rosa Mota honra o Porto. O país.

Da foz do Douro, subia a margem direita, sabe-se lá até onde. Galgava quilómetros. Inquiria eu para onde corre esta mulher?

Tanto correu, tanto correu! Venceu. Heroína mundial do atletismo. Em 1988, em Seul, as Olimpíadas. A lista não tem fim.

O Porto a reconheceu. Deu seu nome ao Pavilhão dos Desportos.

Ficará na memória. Como atleta. Maratona é sofrimento. Luta. Também inteligência.

É justo o reconhecimento.

A história do Pavilhão Rosa Mota não é tão digna e honrosa. Em grande parte, é um modelo de boçalidade autárquica.

Na História, manda a lei da memória. Ao fundo da Rua de Júlio Diniz, em Massarelos, o arquitecto inglês, Thomas Dillen Jones, construiu o Palácio de Cristal. À imagem do Chystal Palace, de Londres, construído em 1851. Lindíssimo, em ferro e vidro. Mais de centena e meia de metros de comprimento, cerca de 100 de largura. Com três naves. Um órgão colossal de tubos. Música, arte. Dos maiores do mundo. Árvores frondosas e centenárias, flores, avenidas. A Casa do Roseiral sobre o Douro, habitação do conservador do Palácio. Hoje casa de eventos de gente fina.

A chegar o século XX, nos jardins do palácio, foi construída a Capela de Carlos Alberto, em sua memória e honra. Rei da Sardenha refugiado da guerra com os austríacos, pela unificação da Itália. Viria a falecer ali perto, na Casa da Macieirinha, hoje Museu Romântico, com o quarto conservado como o rei o deixou. A capela é de culto de uma igreja luterana.

D. Luís presidiu à inauguração do Palácio de Cristal em 1865. Palácio de concertos, cultura e arte, exposições. De lazer. Tranquilidade. Jardins.

À entrada, circundando um grande jardim, as estátuas da Primavera ao Inverno.        

Quase encostado ao pavilhão (também ele a exigir obras urgentes), a poente, entre ciprestes, o busto de um  político. Com uma mensagem universal. A felicidade está na liberdade. Esta nasce da coragem. É Adelino Amaro da Costa.

O Jardim dos Sentimentos sobre o Douro.

Em 1933, a Câmara Municipal do Porto adquiriu o palácio. Infortúnio e desgraça.

O coronel Licínio Gonçalves Presa foi o seu presidente 1949 e 1953. Escolha do Governo! Dizem os papéis.

Com quase um século, o Palácio de Cristal exigia obras de manutenção e conservação.

Desamando a cultura e arte que o palácio representava, em 1951, os poderes públicos ordenaram a sua demolição. Destruíram tudo. O órgão arrasado à força bruta do martelo! Venderam os “restos mortais” a um sucateiro de Vila Nova de Famalicão. Em benefício dos cofres municipais. Também dizem os papéis.

Viveu oitenta e seis anos.

Não fica bem falar nisso…

Autarca que se preze vive com uma íntima paixão: construção civil e obras públicas. Fomentam-nas e apoiam-nas. Em contratos claros e transparentes com empresas construtoras.

O passado e presente que o digam.

O que bem valeu ao Palácio de Cristal! Sobre os seus escombros, construiu-se o Pavilhão dos Desportos. Em betão armado. Este, como os negócios, foram e são da afeição e carinho especiais do poder. Do central. Do local.

O hóquei em patins substituiu os concertos dos Viana da Mota e Guilhermina Suggia. A cultura e a arte. Exposições internacionais. Assim é que está bem.

Mas o Povo é teimoso. Palácio de Cristal é Palácio de Cristal.

Rosa Mota bem merece o seu Palácio. 

Alberto Pinto Nogueira é Procurador-Geral-Adjunto