Morreu o poeta Seamus Heaney, Prémio Nobel da Literatura 1995

O escritor irlandês esteve várias vezes em Portugal após ter recebido o Nobel da Literatura

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Seamus Heaney em 2000 quando ganhou o Whitbread Book of the Year

O poeta irlandês Seamus Heaney, Prémio Nobel da Literatura em 1995, morreu esta sexta-feira em Dublin, no hospital Blackrock Clinic, onde ia ser submetido a uma operação que já não se efectuou. Heaney tinha 74 anos e era considerado por muitos o maior poeta irlandês desde William Butler Yeats.

Professor de Literatura nas universidades de Oxford e Harvard, ensaísta de reconhecida importância e grande tradutor de poesia, Heaney foi também dramaturgo. Em Portugal, os seus poemas foram traduzidos por Vasco Graça Moura (Seamus Heaney - Antologia Poética, Campo das Letras, 1998) e Rui Carvalho Homem (Da Terra à Luz: Poemas 1966-1987, Relógio D’Água, 1997; Luz Eléctrica, Quasi, 2003).


Após ter recebido o Nobel, Seamus Heaney viajou bastante, e esteve também algumas vezes em Portugal, primeiro a convite da capital da cultura Porto 2001 – participou, ao lado de Nuno Júdice, numa sessão na Biblioteca Almeida Garrett –, e depois em Coimbra, cuja universidade o doutorou honoris causa, em 2004.  

Nascido a 13 de Abril de 1939 numa quinta agrícola – era o mais velho dos nove filhos de Patrick e Margaret Heaney, um casal de lavradores –, Seamus Heaney estudou Literatura na Universidade de Belfast e estreou-se como poeta em 1965, com o livro Eleven Poems.  

A propriedade dos pais chamava-se Mossbawn, palavra que se tornará recorrente na sua poesia, atravessada de memórias da sua infância na Irlanda rural. A quinta paterna ficava na Irlanda do Norte, pelo que o poeta nasceu em território do Reino Unido, mas Seamus Heaney deixou claro desde cedo que se considerava um poeta irlandês. Em 1982, protestou mesmo contra a sua inclusão numa importante antologia de poetas ingleses organizada por Blake Morrison e Andrew Motion – The Penguin Book of Contemporary British Poetry –, avisando, em verso: “Be advised my passport’s green./ No glass of ours was ever raised/ to toast the Queen”.

Numa entrevista ao PÚBLICO, em 2004, diz à jornalista Alexandra Lucas Coelho que o facto de ter estudado gaélico lhe deu a“noção de ter sido desapossado da língua irlandesa devido a séculos de língua inglesa”. E assumindo que cresceu sentindo uma “grande solidariedade política” com a minoria católica da Irlanda do Norte, “pelas discriminações que existiam”, Seaney afirma que a sua identidade se construiu “nessa resistência política e num cordão com o passado irlandês”. Mas também acrescenta que “as políticas de identidade são um pouco disparatadas” e obedecem a uma lógica que “reduz as possibilidades humanas”.

Já depois de ter recebido o Nobel, Heaney aventurou-se  a traduzir um dos textos mais célebres da tradição anglo-saxónica, o extenso poema heróico medieval Beowulf, transpondo-o para um inglês moderno deliberadamente marcado pela dicção e sintaxe da Irlanda do Norte. “Pensei que era pelo menos malicioso, irónico, ir às fundações da tradição anglo-saxónica e apropriá-la”, confessa na referida entrevista ao PÚBLICO.

Aos 12 anos, o jovem Seamus ganhou uma bolsa de estudo que lhe permitiu estudar numa escola católica, o St. Columbus College, em Derry. Foi lá que recebeu a notícia de que o seu irmão Christopher, de 4 anos, morrera num acidente de viação. Muito mais tarde, no comovente poema Mid-Term Break, Seamus Heaney recorda que uns vizinhos foram buscá-lo ao colégio e que, ao chegar a casa, encontrou o pai a chorar no alpendre.

Terminados os estudos liceais, mudou-se para Belfast, em cuja universidade estudou língua e literatura inglesas. Um livro do poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), que descobre casualmente, impressiona-o tanto que decide tornar-se ele próprio poeta. “De repente”, explicará mais tarde, “a questão da poesia contemporânea era o material da minha própria vida”. Heaney terá oportunidade de conviver com Ted Hughes ainda nos anos 60 e descreve-o, na entrevista a Alexandra Lucas Coelho, como “uma figura muito poderosa, fisicamente”, e com uma grande energia criativa: “Era como estar numa sala com um jovem cavalo”.

Formado em 1961, Heaney frequenta depois um curso de formação de professores e começa a publicar poemas em revistas e a conviver com outros poetas de Belfast, como Derek Mahon ou Michael Longley. E em 1965, no mesmo ano em que se casa com a professora e escritora Marie Devlin – destinatária de boa parte dos seus versos – , publica o seu primeiro livro, Eleven Poems. Mas a sua verdadeira estreia ocorre no ano seguinte, com a edição, na prestigiada Faber and Faber, de Death of a Naturalist, que ganhou vários prémios literários.

Ainda em 1966, Seamus Heaney é nomeado professor de Literatura Inglesa Moderna na Queen’s University de Belfast, onde se licenciara, e nasce o primeiro dos seus três filhos, Michael.

Em 1972, radica-se com a família na República da Irlanda, em Dublin, continuando a ensinar literatura, enquanto a sua obra poética e o seu trabalho ensaístico vão alcançando crescente reconhecimento crítico. Em 1980, a Faber publica uma escolha da sua poesia e um outro volume com a sua prosa seleccionada.

Também a sua carreira académica progride: é convidado, em 1981, para leccionar na prestigiada universidade americana de Harvard e, em 1989, torna-se professor de Poesia na Universidade de Oxford. As frequentes leituras públicas que faz da sua poesia enchem as salas e atraem um exército de jovens fãs, cujo entusiasmo levou a que alguém tivesse posto a correr a expressão  “Heaneyboppers”, um jogo de palavras com “teenyboppers”, termo que designa adolescentes obcecados com ícones da música ou da moda.

A sua popularidade irá tornar-se mundial em 1995, quando recebe o Prémio Nobel da Literatura. O júri sublinhou a “beleza lírica” e a “profundidade ética” de uma poesia que “exalta os milagres quotidianos e o passado vivo”. Heaney tornava-se assim o quarto irlandês consagrado pela Academia Sueca, depois de Yeats, G. B. Shaw e Samuel Beckett.

Desde que foi divulgada a notícia da sua morte, sucedem-se as reacções de pesar na imprensa irlandesa e inglesa. O presidente da República da Irlanda, Michael Higgins, salientou a sua "contribuição imensa", não apenas para as Letras, mas para a humanidade,  e Carál Ní Chuilín, actual ministra da Cultura no governo da Irlanda do Norte, destacou o facto de a reputação mundial de que o escritor gozava nunca o ter levado a "perder de vista as suas raízes".  

O poeta Michael Longlay, um dos seus amigos de mais longa data, afirmou sentir-se "como se tivesse perdido um irmão" e exprimiu a sua convicção de que a morte de Seamus Heaney estaria a ser pessoalmente lamentada por muita gente, porque o escritor "tinha sempre tempo para falar com qualquer pessoa" e era incrivelmente "sedutor" e "divertido". Também o poeta e dramaturgo Simon Armitage referiu essa capacidade de Heaney para não deixar que o seu estatuto de "super-estrela da literatura" afectasse o modo natural e confortável como lidava com gente sem quaisquer ligações ao meio literário. Entre as dezenas de testemunhos de escritores e políticos que estão a ser divulgados pela imprensa, são muito raros, de resto, os que não acentuam a modéstia do escritor. "Seamus Heaney", resumiu o poeta Andrew Motion, "foi um grande poeta, escreveu coisas maravilhosas sobre poesia, e era uma pessoa de uma elegância e de uma inteligência verdadeiramente excepcionais.