Audiovisual: espicaçar o Norte

A atividade do audiovisual em Portugal está tão extraordinária e excessivamente concentrada em Lisboa que é um verdadeiro exagero.

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la_salebete/Flickr

Como desafiar a criatividade audiovisual no Norte de Portugal? Dizer que este desafio seria como querer plantar em terrenos desérticos, pode soar a um autêntico exagero, mas na realidade a atividade do audiovisual em Portugal está tão extraordinária e excessivamente concentrada em Lisboa que é um verdadeiro exagero.

Estudos já realizados referenciam aí um valor bem acima dos noventa por cento, e ao resto do país um mero valor residual em termos do total de faturação deste setor (cinema, vídeo, televisão, publicidade, etc). Mas em vez de números, ou de explicações sobre toda a realidade, importa sobretudo saber como solucionar: Quais as formas para contrariar tamanha discrepância ? Como é que se cultiva em terreno tão árido?

Bem, vamos por partes e tomando o cinema como o género por excelência da criação audiovisual: as possibilidades de o fazer em Portugal ainda residem quase exclusivamente nos apoios geridos por uma entidade estatal. Isto porque, simplesmente, o mercado português não tem dimensão para rentabilizar um custo de um filme. Ponto. E não há apoios regionais; não há lei de mecenato para esta arte como há em outros países.

Perante este panorama, para um jovem, em princípio de carreira, concorrer a esses apoios para uma curta metragem, e geralmente são apoiadas 10 por concurso, precisa de ter alguma distinção para contrariar uma concorrência que tem sido na ordem de 100 para 10. Para obter currículo, precisa de produzir; para produzir, precisa de apoios. Resolver esta equação tem sido quase como garimpar ouro. No fundo, para um jovem que resida numa cidade no Norte de Portugal, trata-se quase de um sonho quimérico, a mera pretensão de, estabelecido na sua área de residência, vir a desenvolver atividade autoral e criativa no audiovisual.

No entanto, ao contrário da televisão, na internet cresce a necessidade de conteúdos vídeos criativos. Além de fundamentais como instrumentos de "marketing", a criatividade é um dos seus principais catalisadores de diferenciação (até para se obter sucesso em financiamento de "crowdfunding" é necessário um bom vídeo). E embora alguns de objetivo mais funcional, podem ser uma alternativa rentável para sustentar outras apostas mais artísticas e autorais.

Apesar de tudo, atualmente, para um jovem médio português, é perfeitamente viável a aquisição de equipamentos capazes de produzir e editar uma imagem digital de aceitável qualidade cinematográfica. É essa uma das razões porque desde há meia dúzia de anos se torna possível produzir curtas metragens quase a custo zero. Seja em contexto académico ou fora dele. O problema é isso ser apenas viável nas primeiras. É muito difícil continuar a convencer os amigos, ou interessados, a entrar continuadamente em projetos pessoais e de graça.

Por isso, convém evidenciar um outro facto fundamental para incrementar uma ação de fomento criativo no audiovisual: esta atividade é essencialmente um trabalho de equipe. É um processo coletivo. Ou seja, uma só pessoa pode registar a realidade e montar uma peça de vídeo. Pode até conceber toda uma ficção: escrever e planificar. Mas depois, para se poder “construir” uma imagem, produzir algo pensado e elaborado (e não necessariamente narrativo), são necessárias valências técnicas. Ou melhor, é necessária uma equipa, um grupo. E no mínimo, 4 a 6 pessoas (embora este número seja sempre relativo).

Resumindo: a criatividade pode ser individual, mas a prática será quase sempre coletiva. É neste princípio que sustento que será mais adequado e profícuo proporcionar ações de estímulo à constituição de grupos locais, ou de pequenos coletivos artísticos, do que incentivos à autoria singular. Além de que esta é menos dada à fixação do que os coletivos.

Cultivar uma assinatura coletiva, mas sobretudo, um espírito guerreiro. Em terrenos agrestes à implantação desta atividade criativa importa um espírito gregário e instigador. Espicaçando a união, e também, espicaçando a irreverência, para incutir um espírito de pró-atividade de forma desafiadora. Desenvolvendo formatos curtos com vocação online. Os mais simplificados de produção, e sob os princípios das “filmagens de guerrilha”.

Eventualmente uma mensagem difícil para as entidades locais ou regionais apoiarem qualquer iniciativa alargada no sentido de germinar pequenas estruturas locais de produção e criação audiovisual, porém, tratar-se-ia apenas de, por outras palavras, favorecer um sentido empírico de gestação de estruturas de indústria criativa. 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico