Impressoras a três dimensões podem revolucionar a forma de consumo Creative Tools/Flickr
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Impressoras a três dimensões podem revolucionar a forma de consumo Creative Tools/Flickr

Impressoras 3D: qual é o objecto que vamos imprimir hoje?

A impressão 3D está mais próxima dos utilizadores domésticos e dá-lhes a oportunidade de criarem os próprios produtos. Mas há problemas com os direitos de autor ou o fabrico de armas

Com um computador, cria-se o objecto. Através desta máquina, limam-se os defeitos e aperfeiçoam-se os modelos. E o que acontece depois? A produção poderia decorrer em locais especializados para tal, mas, e se houvesse a opção de ser o próprio criador a produzir a sua obra? Com a evolução da impressão 3D (três dimensões), isso tornou-se possível.

O site de tecnologia "Tecmundo" escreve que a impressão 3D é o novo Napster. Para quem não sabe, o Napster, criado por Shawn Fanning e Sean Parker, veio revolucionar o mundo da música, ao permitir que utilizadores fizessem downloads de arquivos mp3 de forma descentralizada, tendo, cada um, funções simultâneas de cliente e servidor (partilha "peer-to-peer", ou P2P).

O site brasileiro acredita que, quando chegarem ao público em geral, as impressoras a três dimensões "revolucionarão a nossa forma de consumo", pelo que as pessoas deixam de ser "consumidores passivos" para se tornarem produtoras.

PÚBLICO -
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Francisco Mendes e Jorge Pinto criaram a primeira impressora a três dimensões portuguesa

Apesar de a impressão 3D não ser novidade, o facto desta estar cada vez mais facilitada ao público em geral é a grande evolução. Com a redução dos preços nestes equipamentos, a produção doméstica de objectos parece estar cada vez mais perto.

Em 2012, Francisco Mendes e Jorge Pinto, dois estudantes da Universidade de Aveiro, criaram a primeira impressora a três dimensões portuguesa. O seu principal "ingrediente" para criar peças sólidas era um plástico à base de milho.

Ideia.m e CUT Furniture

Júlio Martins, da ideia.m, pensa que é uma falácia tentar associar impressão 3D a armas

Mas nem tudo o que é criado a três dimensões diretamente a partir de um computador é impressão 3D.

Mariana Silva, da CUT Furniture, explica como procura proteger os seus direitos de autor

Segundo Júlio Martins, responsável pela ideia.m — um gabinete de design e desenvolvimento de produto, que usa uma impressora deste tipo em alguns dos seus trabalhos —, há que distinguir dois tipos de produção: a impressão 3D e a maquinação Computer Numerical Control (ou CNC). A primeira representa adição de material, enquanto a segunda é remoção de material.

A CUT Furniture é uma empresa que utiliza a maquinação CNC para produzir mobiliário a partir das ordens diretas do criador. A CUT foi fundada por Mariana Silva, depois desta vencer o Prémio Nacional de Indústrias Criativas, em 2009.

Para Mariana, a maquinação CNC foi a forma de conseguir que os resultados fossem exatamente o que pretendia. "Na construção tradicional de mobiliário, nós fazemos o desenho e este chega ao carpinteiro. Por sua vez, o carpinteiro lê o desenho e constrói várias peças, que depois junta, mas afecta a peça com a sua interpretação", explica ao JPN.

No caso da ideia.m — que usa ambas as tecnologias —, a sua impressão 3D utiliza, como composto, o abs (acrilonitrila butadieno estireno) — o material dos Legos. Este tipo de impressão surge em duas fases: primeiro, no processo de desenvolvimento do produto e, depois, num primeiro produto final, ou seja, a meio e no fim do processo. No entanto, as peças a três dimensões são usadas como um meio para um fim que não é a impressão 3D em si, mas, antes, um aperfeiçoamento do produto.

Pirataria e armas: um entrave?

Direitos de autor e Internet parecem ser incompatíveis. A luta contra os downloads ilegais dura há já vários anos, mas, no entanto, em pouco ou nada conseguiu travar a pirataria de uma maneira efectiva.

Como acontece no mundo do entretenimento, a pirataria pode ser um risco para o design de produtos para impressão 3D. Com a domesticação deste tipo de tecnologias, cada vez mais baratas, a propriedade intelectual dos criadores de certo produto pode ser copiada, caso o ficheiro caia no meio online. O próprio Pirate Bay tem disponibilizado "objectos físicos" para transferência. Para Júlio Martins, a questão da pirataria é "fatal". No caso da impressão 3D, o mundo ainda não sabe como vai gerir a questão da propriedade intelectual. "Um amigo meu diz que é frustrante, mas o desafio está na empresa tentar estar sempre à frente das outras."

A frase "todo o cuidado é pouco" aplica-se à CUT Furniture, que procura proteger os seus direitos de autor. Mariana Silva tem os seus desenhos protegidos e, sempre que contacta um fornecedor, ele assina um contrato de confidencialidade.

A evolução da impressão 3D, em conjunto com a Internet, veio dar azo a grupos que disponibilizam ficheiros online que, segundo eles, podem ser impressos e montados de forma a criar uma arma.

O DefCad (Defense Distributed), considerado pela Exame Informática como o "Pirate Bay da impressão 3D", é um grupo norte-americano que lançou a polémica por dizer conseguir fabricar armas através destas impressoras, bem como promover a livre partilha de ficheiros que permitem produzir qualquer objecto, desde que se tenha o equipamento necessário.

A primeira arma de fogo testada com sucesso, a "Liberator" ("Libertadora"), é um revólver composto por 15 peças de plástico altamente resistente e um gatilho de metal. As peças encaixam umas nas outras e o seu aspecto final assemelha-se a uma arma tradicional, com um carregador para balas de diferentes calibres incluído. As instruções de fabrico até se encontram disponíveis online.

Para Júlio Martins, no caso das armas, o material tem sempre razão. "Acho que é uma falácia tentar associar impressão 3D a armas", explica o responsável da ideia.m, que diz ainda não haver razão para preocupação. Por outro lado, reflecte que deve ser tida atenção quanto ao facto de a impressão 3D já conseguir esse nível de precisão e em diferentes materiais, incluindo metal.