Rede de Cinema Digital ainda sem futuro

Oposição pede urgência na criação de uma rede pública de cinema. PSD e CDS votam contra a medida por consideraram já estar a trabalhar no projecto.

Maria da Luz Nolasco considera a actual direcção do cineclube responsável pelo abandono de sócios
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Maria da Luz Nolasco considera a actual direcção do cineclube responsável pelo abandono de sócios CARLA CARVALHO TOMÁS

A ideia de uma Rede de Cinema Digital não é nova mas não há entendimento que a faça avançar. Ontem, os partidos da oposição apresentaram no Parlamento uma proposta de lei (PCP) e duas propostas de resolução (PS e o BE) tendo em vista a criação de uma rede pública que leve o cinema a todo o país. O PÚBLICO sabe que amanhã o PSD e o CDS votarão contra estas propostas que querem colmatar a pouca exibição de filmes que se agravou com o recente encerramento de 66 salas da Socorama.

Apesar de três propostas distintas, o que os três partidos pedem tem por base o mesmo princípio, que passa não só pela criação de uma rede pública de cinemas que garanta a exibição regular de filmes em todo o país, como também a modernização e a adequação ao cinema digital dos cineteatros municipais, cineclubes e outros espaços de cinema.

“Assistimos em Portugal à diminuição galopante de salas e espaços de exibição e divulgação cinematográfica”, escreve o PS no projecto de resolução, destacando que “o Estado tem a obrigação legal de promover a igualdade de acesso dos cidadãos a todas as formas de expressão culturais”. Também o BE defende no seu projecto de resolução que “o panorama de oferta de cinema em Portugal é catastrófico”, sendo necessário contrariar “a desertificação cinematográfica do país, modernizando e dando utilidade à capacidade instalada da rede de cineteatros e garantindo meios aos cineclubes e associações cinematográficas para se modernizarem”. O PCP destaca que são estas associações e cineclubes “que levam o cinema a pontos do país e a camadas da população que de outra maneira não lhe teriam acesso”, contrariando um movimento “monopolista da distribuição e exibição em grandes centros”.

Ao PÚBLICO, o gabinete do Secretário de Estado da Cultura falou de uma medida “benéfica”, na qual está a trabalhar, mas não deixou de referenciar que, depois de em 2004 o governo PSD/CDS ter levado a cabo o projecto-piloto de criação da Rede de Cinema Digital, “em 2005, o governo socialista tomou posse e, apesar de anúncios e intenções de o fazer, nunca criou a rede”.

É por isso que o PSD vai votar contra, considerando tratar-se de um “oportunismo político”. “Este é um processo que está a decorrer e no qual estamos a trabalhar”, reagiu ao PÚBLICO a deputada Ana Sofia Bettencourt, sublinhando que “de 2005 a 2011, numa altura em que foram criadas linhas de financiamento, nada foi feito [pelo PS]”.

Gabriela Canavilhas, então ministra da Cultura e agora deputada do PS, nega as acusações e garante que foram deixadas várias medidas encaminhadas. “O que está a acontecer é que este Governo tem vindo a destruí-las”, diz a deputada socialista, que acusa a tutela de não ter “qualquer peso político”. Com isto, defende, o que está a acontecer é uma falta de “visão estratégica que prejudica os portugueses”. “É uma incompetência política.”

No entanto, a deputada do PSD garante que o voto contra não significa que o Governo esteja a ignorar os problemas do cinema em Portugal. Sendo disso exemplo a Lei do Cinema ou o programa, recentemente anunciado, Cinema Português em Movimento, que vai exibir filmes em 95 concelhos do país com carência de oferta cinematográfica. “Mesmo sem Rede de Cinema Digital, o Governo continua a assegurar que as populações que vivem fora dos grandes centros urbanos ou que habitam em regiões desfavorecidas de oferta cinematográfica têm acesso ao cinema, e ao cinema português em particular”, conclui a SEC.