Cantar ou não cantar o hino nacional, eis a questão

Benzema recusa-se a cantar A Marselhesa e a decisão do avançado está a gerar um debate em França. É apenas um entre muitos no futebol.

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Benzema não canta A Marselhesa Franck Fife/AFP

Karim Benzema disse que não iria cantar o hino de França antes do jogo de qualificação para o Mundial de 2014, frente à Geórgia, e a polémica estalou no futebol francês, com as afirmações do avançado a merecerem críticas nas redes sociais e de alguns representantes políticos. Mas será que cantar o hino do país a plenos pulmões é um sinal de patriotismo e não o fazer um sintoma de falta de identidade nacional?

O avançado do Real Madrid não vê razão para ter de cantar A Marselhesa. "Não sou obrigado a cantar o hino e não é por isso que gosto mais ou menos da selecção. Nunca o cantei em toda a minha vida e não o vou fazer agora. Não é por não o fazer que vou deixar de marcar um hat-trick", afirmou o goleador, que nasceu em Lyon e é filho de pais argelinos.

A Frente Nacional, partido com ligações à extrema-direita, pediu que o avançado abandonasse a selecção. "Nós condenamos a atitude insultuosa que suja a imagem da selecção de França. Se Karim Benzema não vê problemas em não cantar o hino, o povo francês não vê problemas em excluí-lo definitivamente da selecção", disse Eric Domard, assessor de assuntos desportivos do partido.

Benzema dá como exemplo o seu compatriota Zinedine Zidane. "O Zidane não cantava obrigatoriamente o hino", relembra. E outros jogadores como Platini ou Trezeguet também não o entoavam quando eram titulares. A antiga glória do futebol francês, actual presidente da UEFA, Michel Platini justificou recentemente essa opção: "A Marselhesa é um hino guerreiro que não tem nada que ver com o jogo e com a alegria do futebol. As palavras são demasiado violentas para um jogo de futebol", disse ao programa Téléfoot, da cadeia de televisão TF1.

No limite, trata-se sempre de uma opção pessoal. Na selecção portuguesa, por exemplo, Pepe, que nasceu no Brasil, entoa a canção de cor, enquanto outros preferem o silêncio. E não são casos únicos. Uma das maiores críticas a Lionel Messi tem sido a falha de não cantar o hino quando participa nos jogos da Argentina. Já Ryan Giggs, que foi capitão da selecção olímpica britânica de futebol, recusou-se a cantar o God Save the Queen durante os Jogos de Londres. A justificação do galês prende-se com o facto de o considerar um cântico mais inglês do que britânico. E no último jogo particular de Itália frente à Holanda, em Fevereiro, Mario Balotelli, italiano de origem ganesa, chegou a rir-se durante o hino.

Estudo durante o Euro 2012

Antes da polémica que envolveu Benzema, o The Wall Street Journal fez um estudo que mostra que o avançado não está sozinho nesta batalha. O jornal norte-americano apurou percentagens de jogadores titulares que cantaram o hino no Euro 2012 com base na visualização dos dois primeiros jogos das selecções na Polónia e Ucrânia. E a França, mesmo sendo uma das selecções com maior diversidade étnica, não apresentou das menores taxas – 77,3% dos jogadores participaram no momento.

Os únicos dois países que tiveram menos de 70% dos jogadores a trautear o hino foram a Rússia e a Alemanha. Mas há factores que podem ajudar a perceber estes dois casos – a selecção russa tem vários jogadores nascidos em regiões com desejos independentistas, tal como Dzagoev, da Ossétia do Norte. Já a alemã apresenta futebolistas com ascendência muito diversa: Boateng (Gana), Özil (Turquia) ou Podolski (Polónia).

Por outro lado, os jogadores mais "patrióticos" do torneio foram os das selecções de Itália, Polónia, Inglaterra e Grécia, enquanto Portugal se ficou pelos 86% de titulares que trautearam o hino.

(Notícia corrigida às 14h40 que rectifica selecção inglesa por selecção britânica, no caso do Ryan Giggs)
 

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