Quando os livros se tornam filmes

O filme começa e os livros ganham uma nova vida. Para trás fica um caminho que implica desafios para autores, argumentistas e realizadores. Perdem-se palavras e descrições, ganham-se imagens, bandas sonoras e outras abordagens.

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Anne Hathaway em Os Miseráveis, que adapta um romance de Victor Hugo

Com mais de 50 aventuras escritas de norte a sul do país – e algumas além-fronteiras, foi com entusiasmo que Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada viram um dos seus livros – Uma Aventura na Casa Assombrada – ser adaptado ao cinema.

Dado o sucesso das séries televisivas, o realizador Carlos Coelho da Silva tentou repeti-lo no grande ecrã, uma vez que “podia trabalhar a um nível diferente com efeitos especiais e aventura”. As autoras, que levaram gerações de adolescentes a invejarem a vida das personagens que devoravam a cada livro, aceitaram o desafio, mas tinham algumas exigências: “Queríamos ter um espírito de solidariedade e entreajuda, sem linguagem ordinária, e queríamos ter direito de aprovar os guiões quando estivessem prontos”, concretiza Ana Maria Magalhães, que já havia trabalhado com o realizador.

Foi com estas ideias em mente que Carlos Coelho da Silva e a sua equipa partiram para a adaptação, embora, nalgumas reuniões, nem sempre tenham concordado com as escritoras: “Tínhamos algumas ideias que elas achavam que podiam chocar e provocar descontentamento e confusão nos leitores”, recorda o realizador. Uma dessas ideias era um grupo de bandidos alemães com ligações a Portugal que figurava na história e que as autoras não queriam que fosse atraente. “Porque, às vezes, nos filmes, quem é o herói é o bandido e isto não é lá muito educativo”, justifica Ana Maria Magalhães, divertida. Recupera o tom sério: “Queremos divertir, cultivar o gosto pela leitura e pela aventura, mas sem nos desviarmos de princípios”. Carlos Coelho da Silva deixou, então, de lado qualquer charme alemão que os maus da fita pudessem ter, mas acentuou o clima de crime e suspense e tornou a história – publicada em 1997 – mais actual. 

O realizador levou, assim, forçosamente, uma história diferente para o ecrã, o que, segundo o professor da Faculdade de Letras de Lisboa Mário Jorge Torres, acontece em qualquer adaptação. “Adaptar significa perder e ganhar uma série de coisas. Uma boa adaptação não é aquela que mostra tudo, nem a que esquece por completo o livro em que se baseia”, diz. O professor de guionismo da Universidade da Beira Interior (UBI), João de Mancelos, acrescenta que não se podem comparar meios distintos. “Um livro resulta de um trabalho individual e um filme de um trabalho de equipa e a própria linguagem literária é diferente da linguagem cinematográfica”. Existem ainda diferenças no ritmo de leitura de cada leitor que o cinema tende a uniformizar de uma forma acelerada e nos filmes são vários os elementos, como as imagens, os diálogos e a banda sonora, cuja harmonia – ou falta dela – podem ditar o sucesso ou fracasso da adaptação. “Há coisas que funcionam em filmes e em livros não”, resume.

Ainda assim, para João de Mancelos, na história do cinema são mais as adaptações bem-sucedidas do que os exemplos de fracasso.

Uma Aventura na Casa Assombrada chegou aos ecrãs em 2009, mas antes já Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luís se entendiam bem. Entre 1981 e 2001, o realizador encontrou nas palavras da autora portuguesa mais adaptada oito histórias ideais para levar para o ecrã. Mário Jorge Torres conta que Oliveira  chegou a pedir à escritora que escrevesse algumas obras para depois as adaptar. Em 2004, Margarida Cardoso adaptou o romance que Lídia Jorge escreveu em 1988, Costa dos Murmúrios. José Fonseca e Costa também se debruçou sobre a obra de escritores portugueses. Em 1982, realizou Sem Sombra de Pecado com base no conto de David Mourão Ferreira, E aos Costumes Disse Nada, integrado na obra Gaivotas em Terra. Em 1985, foi a vez de Balada da Praia dos Cães, com base na obra homónima de José Cardoso Pires, adaptações que João de Mancelos considerou bem-conseguidas.

Fora de Portugal, o professor de guionismo da UBI elege a história de um amor adiado em plena Segunda Guerra Mundial, Expiação, escrito por Ian McEwan em 2001 e realizado em 2007 pelo britânico Joe Wright. Na opinião deste professor, o espírito de reencarnação e predestinação imaginado por Stephen King, em 1977, foi igualmente bem captado por Stanley Kubrick em Shining (1980), que também realizou 2001: Odisseia no Espaço (1968) e Laranja Mecânica (1971). Entre outros, João de Mancelos refere ainda O Último dos Moicanos, o romance histórico escrito por James Fenimore Cooper, em 1757 (o segundo volume da série Leatherstocking Tales, publicado em 1826), e realizado por Michael Mann, em 1992.

Com os filmes caseiros das peças de teatro natalícias que, em criança, apresentava à família ainda na memória e a experiência de figuração em filmes portugueses, Ana Maria Magalhães conhece as exigências de uma equipa audiovisual e, por isso, mostrou-se flexível e pronta a colaborar. Com a companheira de escrita, Isabel Alçada, assistiu a algumas rodagens e conversou com os actores, que, por vezes, lhe pediam conselhos – “‘Acha que faça assim? Acha que mostre mais medo ou menos medo?’”, recorda – esforçando-se por manter um clima de entendimento e empatia entre todos. “A pessoa ou gosta da ideia [da adaptação] ou não gosta. Se gosta, tem de se dispor a colaborar e não aborrecer a equipa que vai filmar, mas temos de ser claros à partida para que não surjam conflitos”, explica. “Se eles pusessem os miúdos a dizer palavrões, eu saltava que nem uma fera, mas se pusessem uma coisa que não estava no livro e que ficava bem, eu compreendia”.

A responsabilidade dos clássicos

Por muito bem-sucedida que uma adaptação possa ser, existe sempre um risco inerente a este tipo de trabalho, sobretudo em relação a obras clássicas em que as expectativas dos leitores são, geralmente, elevadas e em que falhar costuma ser – na opinião de João de Mancelos – significado de “um esplêndido falhanço”.

Actualmente, estão dois destes exemplos em cartaz: Anna Karenina e Os Miseráveis. O primeiro, um romance de Tolstoi, retrata um amor proibido na Rússia do século XIX e, após variadas adaptações, chega aos cinemas pela visão do britânico Joe Wright. O segundo, de Victor Hugo – adaptado a primeira vez em 1980 – absorve o ambiente dos teatros e surge reinventado por Tom Hooper sob a forma de um musical nos ecrãs. Para João de Mancelos, trata-se de duas adaptações bem-conseguidas, em que “os autores haveriam de ficar contentes por ver os seus clássicos oferecidos a novas gerações”. Em Os Miseráveis, destaca a interpretação de Anne Hathaway, que contracena com Hugh Jackman e Russell Crowe. Diz que “mais do que uma criação, [o musical] é uma recriação e [representa] uma maneira criativa de olhar para uma obra literária”, sendo que à dificuldade inerente a qualquer adaptação acrescem as exigências relacionadas com as músicas e as coreografias. Em relação a Anna Karenina, o professor de guionismo lamenta apenas o excesso de encenação que Joe Wright levou para o ecrã, e que, na sua opinião, “podia ter criado algo menos espectacular e mais centrado na história”.

O facto de as obras já terem sido adaptadas anteriormente pode, por um lado, trazer alguma segurança comercial numa altura em que, diz Mário Jorge Torres, “o cinema está em crise [económica] e em crise de imaginação” mas, por outro, constituir um entrave a uma nova abordagem intelectual, que não resiste a comparações. “Muitas vezes, o público já fez o filme do livro na sua cabeça quando estava a ler e diz: ‘Ah, não imaginava a personagem desta forma, ou falta aqui este diálogo.’ E são aspectos que têm de faltar, porque não se consegue pegar num livro e pô-lo tal e qual como está em filme”, afirma João de Mancelos. “A questão da fidelidade é sempre muito problemática. Será que o importante é ser fiel ao livro? Será que se pode ser fiel ao livro?”, questiona. Mário Jorge Torres, que rejeita a ideia de matrimónio no cinema, é peremptório: “Não há adaptações fiéis. Há adaptações mais próximas ou mais distantes do filme.”

Em 2005, Carlos Coelho da Silva não teve essa ambição, mas sentiu “a responsabilidade de estar a trabalhar numa obra que já tinha sido conseguida do ponto de vista literário”. Pegou nas 674 páginas do romance de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro e transformou-as num filme de menos de duas horas, mas fê-lo de uma forma assumidamente livre. Esqueceu a linguagem do século XIX e as descrições exaustivas e, mantendo a essência da obra – a ideia de celibato na sociedade actual – criou um produto eficaz de outro modo. A liberdade de adaptação e o facto de o autor já não estar vivo exerceram uma pressão diferente.

“Não me sinto tão responsável como se estivesse a fazer uma adaptação de época, mas penso que estou a respeitar o escritor e que qualquer autor se deve sentir orgulhoso quando há outra pessoa que trabalha sobre a obra que escreveu”, reflecte sobre o romance que, em 2002, já havia sido adaptado pelo realizador mexicano Carlos Carrera, contando com argumento de Vicente Leñero. “Às vezes, preocupava-me o facto de sentir que ia ser alvo de comentários e de críticas de pessoas que se identificavam com Eça de Queirós, mas também aconteceu com o filme Amália [2008], que trata a vida de uma pessoa que toda a gente acha que conhece em Portugal. Quando se lida com assuntos que são do conhecimento geral, há sempre a possibilidade de se ser criticado”, conclui.

O Triângulo que não resultou no ecrã

Se com as autoras de “Uma Aventura” a passagem dos livros para a televisão e para o cinema foi bem-sucedida, o mesmo não aconteceu a Álvaro Magalhães. Desde 1989 que o autor portuense tem imaginado aventuras de três adolescentes – Joana, Joel e Jorge – por cenários fantásticos na cidade do Porto. Da imaginação passou à escrita e a colecção Triângulo Jota conta, actualmente, com 20 livros. Em 2006, viu alguns deles serem adaptados à televisão pela HOP! – Henrique Oliveira Produções, mas, na sua opinião, o resultado foi “miserável” e a adaptação “perfeitamente desastrosa”. “Era um produto esteticamente evoluído  foi a primeira série a ser feita em 3D e, tecnicamente, estava bem feita  mas do ponto de vista do argumento, do entendimento do que eram as histórias e da dimensão psicológica das personagens, era um horror e eu não podia fazer nada”, recorda, ressalvando que se trata de uma questão de sorte e que muitas pessoas passaram a conhecer os livros justamente por causa da série televisiva.

O sentimento de impotência que Álvaro Magalhães descreve é, na sua opinião, consequência de ter cedido à produtora os direitos de adaptação da série e não ter podido participar na escrita dos guiões. “E isso fazemos logo naquele clima de euforia inicial, porque depois a editora [neste caso, a ASA] também aparece pelo meio a pressionar e ai de um autor que diga que não a uma coisa dessas”, explica o escritor, que também tem experiência de escrita para televisão, tendo assinado os argumentos de séries como Os Andrades, O Meu, o Teu e o Nosso e O Segredo de Justiça.

Já Henrique Oliveira, fundador da HOP! e argumentista e realizador da série, diz lembrar-se de existir alguma interacção com o autor. “Foi a nossa equipa de argumentistas que escreveu, mas tenho ideia de, de vez quando, estarmos reunidos com o Álvaro e lhe mandarmos os argumentos”, afirma. “Inicialmente, havia ideia de o Álvaro participar mais na escrita, mas penso que depois ele também não tinha tempo e pegámos em cada história que ele tinha e adaptámos de acordo com as necessidades da própria série”, explica.

Com o sucesso da série na televisão – que vai recomeçar na RTP2  – a produtora, em conjunto com a editora, apostou inclusivamente numa nova imagem para a colecção, porém, para Álvaro Magalhães, era “um sofrimento” ver os actores nas capas dos livros. “O resultado foi catastrófico, a colecção começou a definhar e tivemos de a parar”, conta, acrescentando que vai ser retomada no próximo ano com um livro novo e um outro grafismo. “Foi quase como se tivesse de fazer um luto, deixar passar o mal que a série fez aos livros”, diz o autor.

Se Henrique Oliveira considera que, embora com alguns desafios, a produtora fez “uma belíssima adaptação e a essência dos livros foi totalmente preservada”, Álvaro Magalhães diz não encontrar no ecrã a complexidade da narrativa e das personagens que criou. “Nas minhas histórias os personagens secundários são muito importantes e na série televisiva eram completamente esquecidos, o enredo ficava muito linear e depois a história não tinha interesse nenhum”, afirma. Uma das personagens de que o escritor não gosta é um inspector da policia, que só entra em certos livros, e que, na televisão,  deu origem a novas personagens. “Exageraram e criaram ali dois actores num registo apalhaçado, supostamente de humor, era uma coisa patética. Havia personagens cheias de tiques, coisas deploráveis que não correspondiam à realidade da série”, comenta.

O realizador defende que o intuito das novas personagens foi “criar alguma componente de humor na série para não ficar demasiado densa e pesada” e diz que, em qualquer adaptação, é normal acrescentar algo, uma vez que, assim como cada leitor, também cada realizador ou guionista fará interpretações diferentes do mesmo livro. “Dar um novo fôlego às histórias faz parte do trabalho de um realizador e de uma adaptação para televisão ou cinema”, remata.

Adaptações dos próprios livros

Existem ainda casos de escritores que optam eles mesmos por assumir o papel de argumentistas na adaptação dos próprios livros, o que pode, por um lado, diminuir a sensação de desilusão, ou intensificá-la. Nick Hornby foi um deles.

O escritor britânico escreveu seis romances, todos eles comprados por produtores – um deles, Long Way Down, ainda antes de ter sido publicado – embora nem todos adaptados. Em 1997, com Fever Pitch – o livro autobiográfico em que compara os bons e os maus momentos do percurso do clube inglês Arsenal com a sua própria vida – assumiu igualmente o papel de argumentista e a missão que se propôs foi bem-sucedida. “Gostei do filme, mas não voltaria a fazê-lo, por vários motivos”, diz o escritor numa entrevista por email. “Quando uma adaptação destas corre mal, é muito confuso e os sentimentos pelo nosso próprio livro tornam-se complicados”, acrescenta. Anos mais tarde, em 2005, o livro voltou a ser adaptado ao cinema, mas desta vez pelos americanos irmãos Farrelly. Protagonizado por Drew Barrymore e Jimmy Fallon, fora dos Estados Unidos e do Canadá, o filme chamava-se Fanaticamente Apaixonado.

Que o cinema vai buscar inspiração à literatura é inegável, e, segundo João de Mancelos, quando o narrador se esconde para deixar o leitor entrar na acção e se relacionar com as personagens, “a literatura tende a imitar o cinema”. Porém, para Ana Maria Magalhães, a influência das imagens não é assim tão evidente: “Na nossa cabeça continuam as imagens das nossas personagens e não os actores”, afirma a escritora.

Hornby diz que também ele se esquece de John Cusack em Alta Fidelidade (2000), ou de Hugh Grant em Era uma Vez um Rapaz (2002) e, passado algum tempo, “os livros deixam de ser filmes e voltam a ser livros”. Já Nicholas Sparks, o autor americano apaixonado pelo estado da Carolina do Norte, onde coloca a maioria das personagens, assume que o facto de saber à partida que um dos seus livros será adaptado a filme o faz alterar o modo como concebeu a história. “Eu agora tenho de ter a certeza de que a história vai resultar tanto como romance como como filme antes de começar a escrever”, diz numa entrevista por email. “Quando começo o romance, porém, só penso nele como um livro”, acrescenta. Sparks é autor de bestsellers como O Diário da Nossa Paixão e As Palavras que Nunca te Direi. Dos 18 romances publicados, sete foram transformados em filmes. A conta vai aumentar no próximo mês, com a adaptação de Um Refúgio para a Vida. Raramente imagina “um actor ou actriz específicos para um determinado papel”, porém isso aconteceu-lhe uma vez com o livro A Melodia do Adeus, protagonizado no cinema por Miley Cirus: “E isso porque eu sabia – enquanto escrevia o romance – que ela iria interpretar a Ronnie”, explica Sparks, que também é produtor.

Carlos Coelho da Silva acredita que no caso de autores que escrevem sequelas como o Harry Potter – da britânica J.K. Rowling –, a visualização dos filmes os possa incentivar a prolongar a sua obra. “Antes do Verão, filmei um teaser de dez minutos com base no que tinha escrito e foi engraçado ver que, assim que tive os actores e o director de fotografia a trabalhar no projecto, entusiasmou-me e incentivou-me a continuar a escrever. Acredito que com eles aconteça o mesmo”, conta o realizador.