O sermão de Morsi e os limites do seu poder

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A decisão de Morsi levou às ruas do Egipto apoiantes e opositores GIANLUIGI GUERCIA/AFP

O Egipto dividiu-se entre elogios e críticas a Mohamed Morsi depois de, com um inesperado decreto, ter oferecido a si próprio poderes sem precedentes na história do país. Mas, ontem, foi a vez de o Presidente se surpreender com a dimensão dos protestos contra o "novo faraó".

Um dia depois de ter sido aclamado como "herói" por ter mediado um cessar-fogo na Faixa de Gaza, entre Israel e o Hamas, Morsi ordenou que a Assembleia Constituinte, dominada por islamistas, não pode ser dissolvida; substituiu um juiz inimigo na Procuradoria-Geral por um amigo; reabriu as investigações sobre as "vítimas da revolução" de 25 de Janeiro de 2011, cujas famílias serão indemnizadas. Mais grave: o artigo 2 do seu decreto proclama que nenhuma decisão do chefe de Estado desde que tomou posse em 30 de Junho deste ano pode ser contestada, suspensa ou anulada.

Num comício de apoiantes mobilizados pela Irmandade Muçulmana - e não num discurso à nação como seria expectável -, Morsi tentou justificar-se, invocando Alá (Deus) frequentes vezes como se de uma prédica se tratasse. Cristãos coptas egípcios como Paul Sedra, historiador e académico na Simon Fraser University, em Toronto (Canadá), ouviram o Presidente com apreensão. "Ele tem dado muitos "sermões" mas este, em particular, é perturbador", disse ao PÚBLICO, numa entrevista por email. "Não me surpreende que ele tenha abusado do vocabulário religioso, embora isso coloque cada vez mais em dúvida a sua garantia de que representa todos os egípcios."

Um dos sinais de como os coptas se sentem ameaçados foi a demissão de Samir Marcus, um dos conselheiros cristãos de Morsi, logo após o reforço dos poderes presidenciais, na quinta-feira. Sedra achou que Marcus não tinha alternativa, já que Morsi não apenas falhou a promessa de o promover a vice-presidente, como tem vindo a marginalizar a comunidade. Um exemplo foi não ter estado presente na entronização do novo Papa copta.

Ao acompanhar pela televisão as manifestações de protesto contra Morsi, o também director da revista académica History Compass observou que o primeiro Presidente democraticamente eleito do Egipto "falhou na construção de uma aliança que conduza a uma transição pacífica". Para Sedra, "não é de espantar que Morsi esteja a testar os limites do seu poder". A acumulação de todas as competências - legislativa, judicial e executiva - faz parte do esforço "para consolidar uma forte Presidência que se mantenha nas mãos da Irmandade Muçulmana durante muito tempo".

Confrontar o regime

Adel Iskandar, considerado um dos mais influentes analistas políticos egípcios e professor na Universidade de Georgetown (EUA), descodificou deste modo o "sermão" de Morsi: "Foi uma tentativa de clarificar alguns pontos no que diz respeito aos seus decretos mais recentes", disse ao PÚBLICO, por Facebook. "Em primeiro lugar, quis mostrar que é um líder determinado a aplicar decisões seja qual for a reacção dos opositores. Também tentou desvalorizar receios, dizendo que se trata de uma medida temporária, e insistiu na necessidade de criar estabilidade."

Iskandar duvida que as decisões sejam as melhores "porque já dividiram os egípcios". Os que apoiam Morsi, acentuou, "são fiéis da Irmandade, na sua maioria, aqueles que aceitam as decisões do Presidente sejam quais forem". Outros, não islamistas, colocaram-se ao seu lado, porque "apreciaram o anúncio de que figuras do anterior regime voltarão a ser julgadas e de que serão pagas indemnizações pelos mortos e feridos durante a revolução".

No entanto, frisou Adel Iskandar, os opositores do actual Presidente fizeram ontem algo que há muito não acontecia desde o derrube de Mubarak: "Ao reagirem à consolidação dos poderes de Morsi e da Irmandade, vários grupos liberais, seculares, do antigo regime e da juventude revolucionária puseram de parte as divergências e avançaram no sentido de confrontar o governo."

Amro Ali, outro analista do Médio Oriente e respeitado blogger (www.amroali.com), reparou que Morsi atribuiu