Concerto na Igreja do Seminário de Almada

Uma nova revelação do notável Francisco António de Almeida

Francisco António de Almeida, em caricatura de Pier Leone Ghezzi
Foto
Francisco António de Almeida, em caricatura de Pier Leone Ghezzi

A Missa em Fá Maior, obra singular na produção do ilustre compositor português setecentista, será interpretada em estreia moderna no ciclo de concertos Sons de Almada. Hoje, às 19h.

O próximo concerto do ciclo Sons de Almada Velha, a decorrer até 29 de Outubro em diferentes igrejas do património histórico de Almada e Cacilhas, dará a ouvir em primeira audição moderna a Missa em Fá Maior, de Francisco António de Almeida (c.1702-1755), notável compositor setecentista português e autor de uma produção musical diversificada que tem sido objecto de várias revelações nos últimos tempos. O concerto realiza-se hoje, às 19h, na Igreja do Seminário de Almada, e estará a cargos dos agrupamentos Flores de Música e Capela Joanina, sob a direcção de João Paulo Janeiro.

Os mesmos agrupamentos gravaram recentemente um CD com o Te Deum do mesmo compositor (também disponível em partitura com edição crítica de João Paulo Janeiro), composição exuberante destinada a um conjunto alargado de vozes e instrumentos (cantores solistas, coro a oito vozes e orquestra com flautas, oboés, trompas, trompetes, cordas, órgão, tímpanos e saltério) que combina elementos da tradição polifónica portuguesa seiscentista com as técnicas de composição aprendidas por Almeida em Itália e os tópicos da música Barroca de aparato usada em cerimónias ligadas ao poder real. Não se sabe porém se esta obra (cuja partitura manuscrita se encontra na Alemanha, tal como sucede com a Missa em Fá Maior) chegou a ser interpretada em Portugal, onde este género musical tinha também grande impacto no tempo de D. João V.

Segundo João Paulo Janeiro, musicólogo e intérprete de instrumentos de tecla que tem dedicado particular atenção à música sacra de Almeida, “a Missa em Fá Maior é uma peça particularmente singular no Barroco musical europeu.” Escrita para solistas, coro e orquestra, apresenta uma arquitectura peculiar. “Após o Gloria, o compositor opta por subtrair de modo gradual as partes vocais solísticas e os instrumentos: as flautas deixam de participar no discurso a partir do Qui tollis; depois do Credo é a vez de os oboés terminarem as intervenções solísticas; no Sanctus a participação instrumental resume-se às cordas e no Agnus Dei a textura musical é constituída apenas pelas vozes e pelo órgão.” João Paulo Janeiro refere que se cria assim “uma espécie de anti-clímax de efeito retórico surpreendente” que “não pode deixar de evocar a famosa Sinfonia nº 45 de Haydn, conhecida por O Adeus.” A obra apresenta uma grande variedade de estilos e contrastes e, na opinião do director musical da Capela Joanina, “é mais um exemplo extraordinário do brilhantismo alcançado pelos compositores portugueses do Barroco.”

Francisco António de Almeida pertence ao pequeno grupo de bolseiros do Seminário da Patriarcal (a principal escola de música portuguesa durante o século XVIII) enviados por D. João V para Roma com a finalidade de aperfeiçoarem a sua formação. A sua oratória Il pentimento di Davide, hoje perdida, foi cantada na igreja de S. Girolamo della Carità em 1722 e foi também em Roma que estreou a oratória La Giuditta” (1726), uma das mais belas obras da história da música portuguesa. De regresso a Lisboa, em 1728, Almeida tornou-se organista da Patriarcal e compôs várias obras sacras, serenatas e óperas apresentadas no Paço da Ribeira como La pazienza di Socrate (1733), La finta pazza (1735) e La Spinalba (1739).

Além do já referido Te Deum (edição em CD da MAACedita - Música Antiga Associação Cultural), recentemente outras composições de grande qualidade da autoria de Francisco António de Almeida foram reveladas ao público do nosso tempo como é o caso da serenata L’Ippolito, interpretada em primeira audição moderna pela Orquestra Barroca Casa da Música nos festivais franceses de Sablé e Ambronay e no Porto. Ainda em Novembro será lançada a gravação da ópera cómica La Spinalba, interpretada pelos Músicos do Tejo, sob a direcção de Marcos Magalhães, na etiqueta Naxos, prevendo-se assim uma ampla distribuição internacional.