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Para o 20º aniversário do seu álbum de estreia, Tori Amos, em vez do inelutável best of, dispôs-se a mergulhar na sua própria discografia e reinterpretá-la na companhia da Metropole Orchestra

Pop

Recital

Gold Dust soa a Tori Amos a enxotar fantasmas e a mexer no passado sem medo de o estragar. E o que consegue é não menos do que notável: um maravilhoso e intemporal recital pop. Gonçalo Frota

Tori Amos

Gold Dust

Deustche Grammophon; distri. Universal

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Ao longo dos últimos anos, a Deutsche Grammophon tem assumido cada vez mais uma abordagem pop no tratamento da música clássica, expressa tanto num cuidado visual que tende a fazer de cada soprano, violoncelista, maestro ou tenor um sex symbol, encenando meticulosamente cada fotografia promocional, acabando com os nomes das obras interpretadas nos títulos dos discos e substituindo-os por palavras fortes, construtoras de conceitos que sugiram narrativas fantasiosas. Por outro lado, começou a farejar no mundo pop artistas que poderiam engrossar o catálogo da editora: de Elvis Costello e Sting, a Anoushka Shankar e Badi Assad. E, desde há um ano, Tori Amos.

E a verdade é que se, sentada ao piano, em concerto, Amos faz escorrer lascívia do banco onde se instala, a sua técnica pianística sempre foi assombrosamente colocada ao serviço de canções que a têm aproximado mais e mais do radar de Kate Bush. O desafio inicial da Deustche Grammophon materializou-se então na encomenda de um disco de inéditos, sob a forma de um ciclo de canções baseado no infindável catálogo da histórica editora. Assim, aquilo que lhe saiu, Night of Hunters, inspirava-se livremente em obras de Bach, Debussy, Granados, Satie, Schubert ou Schumann.

Agora, para o 20º aniversário do seu álbum de estreia, Little Earthquakes, Amos arriscou mais: em vez do inelutável best of, dispôs-se a mergulhar na sua própria discografia e reinterpretá-la na companhia da Metropole Orchestra, dirigida por Jules Buckley. Dada a especial atenção aos dois primeiros álbuns, Little Earthquakes e Under the Pink - mas sem temas que seriam obrigatórios numa compilação, como Crucify ou Cornflake girl -, o registo torna-se ainda mais curioso: a carreira a solo de Tori Amos iniciara-se numa fuga ao mundo da clássica, a que pertencera com o estatuto de menina-prodígio, mas vivia precisamente de uma fuga em que o perseguidor não desaparecera ainda de cena.

Com os anos, essa presença foi cada vez mais rasurada, invadida por electrónicas, derivas rock e outras experiências. Agora, Tori Amos enfrenta o bicho olhos nos olhos: oferece a canções brilhantes como Yes, Anastasia (insufladamente épica), Winter,Silent all these years ou Precious things o enleio instrumental que sempre havia estado subentendido no seu tom de pop barroca mas fora cirurgicamente removido. Ao mesmo tempo que empresta a temas como Star of wonder, Gold dust ou Programmable Soda (esta última como se saída da Broadway) uma espessura que falhara aos originais.

Gold Dust soa a Tori Amos a enxotar fantasmas e a mexer no passado sem medo de o estragar. E o que consegue é não menos do que notável: um maravilhoso e intemporal recital pop.

Momento zen

Delicate Steve

Positive Force

Luaka Bop; distri. Popstock

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Era mesmo disto que precisávamos, não era? Um álbum maioritariamente instrumental, a raiar o easy-listening, em que todo o discurso se concentra numa guitarra-slide habitada pelo espírito de George Harrison. Pois, talvez não seja isto o que precisamos em tempos de ira e turbulência, mas é isto que temos em Positive Force, o segundo álbum de Delicate Steve. E o que temos, este calor estival inventado num pequeno quarto, é estranhamente cativante.

Estranhamente, escrevemos, porque à primeira vista há muito que desmerecer em Positive Force: as canções que não são propriamente canções, antes esquissos de algo que não se desenvolve além de uma ideia básica original (Love tem entrada com melodia de voz adolescente, guitarra-slide a subir na estridência dos agudos e é isso, só isso, durante dois minutos e catorze); a forma como, ouvindo o álbum e mergulhando nas percussões caribenho-digitais, nos sintetizadores como tapete confortável, na guitarra que tudo diz, nos apercebemos que isto poderia muito bem ser música de elevador para salvar da danação a música de elevador (mas música de elevador ainda assim). Acontece que este "Positive Force" de título foleiro mas incrivelmente certeiro, não tendo o impacto "mas de onde é que isto saiu?" do álbum anterior, o mais rude e menos definido Wondervisions, consegue fazer essa leveza potencialmente irritante e descartável jogar a seu favor.

Estes pedaços de som, que diríamos condenados a ser música de fundo da vida que corre menos mal, muito obrigado, tem sempre um qualquer pormenor a evidenciar que há um pau na engrenagem deste easy-listening moderno: a estridência controlada das guitarras, a forma como se imaginam cenários improváveis (Big time receiver são os Fleetwood Mac de final de 1970 a recriar os Beach Boys nas Bahamas, com um guitarrista tresloucado a "tricotar" livremente em fundo), a capacidade de fazer de um idílio de série televisiva de bom coração, alheada das coisas do mundo, algo credível, retemperador e, no limite, com o seu quê de desafiante.

Positive Force é aquilo que o título indica. Esqueçamos o lado lamechas da expressão. Concentremo-nos neste "momento zen" de 37 minutos, dividido por 11 canções. Se calhar, era mesmo disto que precisávamos. A vida pode continuar depois. M.L.

How To Dress Well

Total Loss

Weird World

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Foi o ano passado que demos pela música de um estudante de filosofia, Tom Krell, que assina os seus discos com a designação How To Dress Well. O álbum em questão chamava-se Love Remains e acabava por ser uma excelente compilação dos lançamentos em formato reduzido que havia editado antes.

Na sua maioria eram canções gravadas em ambiente caseiro, que apostavam numa espécie de R&B longínquo, com reverberações, electrónica esquelética e uma voz em falsete que pronunciava palavras indecifráveis. Era um disco imersivo, onde as canções pareciam rodear-se de abstracção. Era um disco excelente, mas o novo Total Loss constituiu um decisivo passo em frente.

Se o ano passado, ao lado dos The Weeknd, o projecto de Tom Krell se exibia como um dos principais recriadores daquilo que a algum custo se pode chamar R&B, em 2012 vai ainda mais longe. É uma obra total, de letras confessionais e autobiográficas, com Krell a assumir sem complexos o seu falsete vocal, ao mesmo tempo que expõe uma sonoridade mais inteligível. Não necessariamente mais acessível, mas mais emocional, sem recear ir de encontro ao ouvinte de maneira mais espontânea.

A sonoridade, essa, volta a ser minimal, mas onde antes era nebulosa, na esteira de Burial, agora é mais The xx, límpida e descarnada, com momentos de enlevo orquestral. É como se retirasse ao R&B a sua componente mais erótica e física, concentrando-se na comunicação de qualquer coisa mais introspectiva. Ou mais espiritual, talvez. Não é isso a soul? Pelo menos a de Tom Krell, ao segundo álbum, revela-se enorme. Vítor Belanciano

Pierre Aderne

Bem me Quer, Mar me Quer

Valentim de Carvalho

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Depois da aventura colectiva de Doces Cariocas (2008), Pierre Aderne tem finalmente os seus "doces" lisboetas, não no sentido alfacinha mas no que lhe foi dado por Sérgio Tréfaut no filme homónimo ou no que lhe dá agora o Quinteto Lisboa: o da Lisboa mestiça, lugar de cruzamentos naturais de vivências e culturas. Mar me Quer, Bem me Quer é acima de tudo um disco de Pierre Aderne, mas se ele é brasileiro na receita, é português e africano nos temperos. Ideias e tons absorvidos ao longo de anos, que fazem das canções híbridos naturais e não resultado, como tantas vezes sucede, de encontros forçados por interesses passageiros. Nha morninha, por exemplo, que ele canta com Sara Tavares, foi escrita por ele mesmo, não por um cabo-verdiano, e as letras escritas para Jorge Palma ou JP Simões tiveram em conta os estilos e vozes de cada um. O resultado geral é cativante, absorvente por vezes, mas nunca suscita indiferença. Raramente assistimos a uma tertúlia musical assim, tão fluída e fluente, assistida por músicos de luxo (há Mário Laginha e José Peixoto, Daniel Jobim e Pedro Jóia, Júlio Resende e Alexandre Frazão, Júlio Resende e Stephan Almeida, Satoshi Takeishi e Norton Daiello, entre tantos) com surpresas a cada esquina. O som sedimentado nas 14 canções do disco mostra que se há um oceano a separar Brasil e Portugal, há por outro lado um mar sereno a uni-los, e a África, um mar a que prestamos pouca atenção mas onde é possível nadar sem nos afogarmos. Ouçam-no e entenderão. Nuno Pacheco

Jazz

Guitarra ao quadrado

Dois discos novos, dois modelos da guitarra jazz nacional. Nuno Catarino

AP Quinteto

6 e 5

Tone Of A Pitch

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Nuno Costa

All Must Go

Tone Of A Pitch

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Se há instrumento que se destaca na cena jazz portuguesa, pela imensa quantidade de executantes, é a guitarra eléctrica. Em Portugal sempre floresceram guitarristas e nos anos recentes, fruto da proliferacção das escolas de jazz, esta tradição continua a confirmar-se. Directamente saídos das escolas, surgem todos os anos novos nomes, novas gerações de guitarristas cuja grande aposta na formação tem resultado numa técnica aprimoradíssima. Se há algo a apontar a nestes músicos, será a urgência com que muitas vezes editam os primeiros discos, uma pressa que impede o amadurecimento de ideias próprias.

O guitarrista AP (pseudónimo artístico de António Pedro Neves) é a prova do bom trabalho que as escolas de jazz têm contribuído nos últimos anos, apresentando uma guitarra de som elegante, refinado. Controladíssimo em cada nota, cada acorde. Menos memoráveis são as composições, de tonalidades acinzentadas, mas geralmente eficazes e fortemente orientadas para o trabalho de grupo, fomentando a participação do quinteto numa toada colectiva: uníssonos fortes, diálogos instrumentais, jogos harmónicos. O guitarrista tem a companhia de João Pedro Brandão (saxofone alto), Alexandre Dahmen (piano), José Carlos Barbosa (contrabaixo) e José Marrucho (bateria) - colectivo sólido, sem destaques individuais de nota. O problema deste disco acaba por residir no seu excesso de precisão e limpidez, na ausência de surpresa.

No caso de Nuno Costa, que apresenta o disco All Must Go, estamos num patamar diferente. Este é já o segundo disco do guitarrista, que se faz acompanhar por um conjunto de colaboradores do topo da cena nacional. Esta música é mais contrastante, fruto das composições - mais coloridas, mais ricas - mas também pela interpretação generosamente mais aberta. Ao lado de Costa estão músicos que já o acompanham desde o primeiro disco (João Guimarães no saxofone, Óscar Graça no piano, Bernardo Moreira no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria), juntando-se a estes ainda ainda Demian Cabaud no contrabaixo e André Sousa Machado na bateria (alternadamente). Contudo, o grande trunfo do grupo acaba por ser o joker João Moreira, no trompete, que acrescenta uma outra dimensão à música do grupo, expandindo-a com enorme fluidez. O álbum conta ainda com a participação da cantora Rita Maria num tema (e apresentando a sua óptima voz), diversificando ainda mais a amplitude desta música.