A linguagem de Arvo Pärt

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Arvo Pärt Creator Spiritus Theatre of Voices, Ars Nova Copenhagen, NYYD Quartet, Paul Hillier (direcção). Harmonia Mundi, 15,90 euros (na Fnac) ADRIANO MIRANDA
Esta excelente colectânea de música vocal e instrumental de câmara de Arvo Pärt percorre várias épocas da carreira do compositor estónio desde a década de 1960 (com Solfeggio para quarteto de cordas) até à actualidade, incluindo uma boa amostra de peças recentes para coro a cappella como é o caso de The Deer"s Cry e Morning Star. A linguagem refinada e subtil, percorrida por uma etérea espiritualidade que combina raízes da música medieval com influências das técnicas minimalistas (normalmente mais ambiciosas do que as de alguns dos seus colegas americanos), e o famoso estilo tintinnabulum (uma analogia com o som dos sinos que ficam a ressoar até atingir o silêncio) são imagens de marca de Arvo Pärt que podemos reencontrar neste CD. No entanto, a criteriosa selecção realizada, a alternância entre páginas vocais e instrumentais e a presença de obras de várias épocas permite apreciar a diversidade dentro de uma linha de fundo coerente: desde uma obra de fôlego como o sublime Stabat Mater (1985) para soprano, contralto e tenor, violino, viola e violoncelo ao intenso colorido de Ein Wallfahrtslied (canto de peregrinação). Merece também destaque My heart"s in the highlands, com uma linha vocal baseada em notas repetidas rodeada por elaborações livres do órgão a cargo de Christopher Bowers-Broadbent. Quanto à interpretação, dirigida por Paul Hillier (que é também o maestro titular do Coro Casa da Música), seria difícil encontrar músicos mais exímios tecnicamente e com mais afinidades com a música de Arvo Pärt do que os reputados agrupamentos Theatre of Voices e Ars Nova Copenhagen e o NYYD Ensemble, este último formado por alguns dos melhores instrumentistas da Estónia especializados na música contemporânea. Cristina Fernandes