Luísa Ferreira e Vila Nova do Ceira

Foto
Nelson Garrido

Luísa Ferreira teve a sua primeira experiência com a câmara escura em Vila Nova do Ceira. Nós, um dos seus projectos mais queridos, nasceu da vontade de fotografar a paisagem humanizada das vizinhanças. Todas essas imagens da aldeia e as da família que nunca tirou ficaram profundamente gravadas na sua memória

Bom dia Luís

Acordei de madrugada, e fiquei a pensar em tudo o que não te contei e que foi importante na minha relação com Vila Nova do Ceira. Escrevo-te algumas coisas:

ligação com a terra, liberdade;

o fascínio pelas pedras, pelo xisto;

quando era pequena ajudava à desfolhada, a escapelar o milho, a debulhar o milho ...

ajudava a fazer as flores de papel e as franjas de papel para enfeitar as ruas para a Festa da Várzea Pequena e para a Festa da Rainha Santa;

assim que tive altura para chegar com os pés ao chão em cima de uma pasteleira, foi o máximo; andava sempre a pedir ao tio Joaquim ou ao tio Alfredo para me emprestarem a bicicleta...

as explorações ao longo da linha de água que fazia com os meus primos no início da adolescência;

outra coisa fantástica era chegar lá atravessando as serras cheias de pinheiros; agora quase já não há pinhais (há muito eucalipto).

Houve uns verões em que a seguir ao almoço apanhava a camioneta para Góis. Um dos amigos de Góis morava numa casa na escola primária (os pais eram professores). Ele fazia fotografia e tinha um pequeno laboratório de fotografia. A minha primeira experiência com a câmara escura foi nessa escola primária, em Góis. Depois colocávamos as fotografias num balde e íamos pendurá-las para secar com molas da roupa numa corda, no jardim.

Lembrei-me que, depois, eu e os meus pais começámos a ir para a praia de Santa Cruz. Passei a estar no oceano Atlântico e afastei-me da aldeia por volta dos 17 anos de idade.

Um beijo

Luísa Ferreira

Ela tem 50 anos, é fotógrafa de profissão e esta mensagem (ou melhor, a sua versão não editada), chegou por correio electrónico na manhã seguinte ao nosso encontro. Faz sentido como adenda a uma conversa sobre memórias de um lugar e de uma vida inteira. Uma conversa ocorrida num fim da tarde, quando a entrevistada estava obviamente já cansada, depois de leccionar quatro horas de aulas de fotojornalismo, sem hora de almoço, no IADE - Escola Superior de design, marketing e publicidade, em Lisboa. Um parêntesis: o tom quase intimista da missiva não é abuso de confiança. Tanto eu como ela estávamos no PÚBLICO antes mesmo de o jornal sair para a rua, trabalhámos juntos algumas vezes e mantivemos uma certa cumplicidade depois disso.

Ao longo de todos estes anos, Luísa Ferreira tem sedimentado uma reputação como uma das melhores fotógrafas portuguesas, produzindo fotografia de autor, paralelamente ou à margem do fotojornalismo. A sua obra tem sido regularmente exposta em galerias de arte e museus, por vezes também publicada em livro. Alguns desses trabalhos mais pessoais conduzem, justamente, a Vila Nova do Ceira.

Da aldeia ao cantão

"O meu pai veio para Lisboa, logo a seguir à tropa. Depois voltou a Vila Nova do Ceira para se casar com a minha mãe, mas vieram os dois viver e trabalhar para Lisboa, onde eu nasci passados cinco anos. Desde pequena que eles me mandavam para lá passar os três meses de férias de Verão. Ia para casa dos avós, ora paternos, ora maternos. Na verdade, quando não gostava da comida fugia de uma casa para a outra. Lembro-me de ir com os meus tios e primos fazer os trabalhos do campo - ainda havia carros de bois, eu adorava ir lá em cima. Lembro-me de ir ao café ver televisão, porque não havia luz na maior parte das casas. Lembro-me também que íamos tomar banho no rio, mas ainda não havia praias fluviais - eram simplesmente sítios onde se podia ir a banhos, alguns dos quais lindíssimos."

O paraíso rural assim descrito é uma aldeia na margem esquerda do rio Ceira, por sua vez afluente da margem esquerda do rio Mondego, a cinco quilómetros da vila de Góis. Os pais nasceram lá, mas só tardiamente passaram a ter a casa própria na aldeia. É um daqueles momentos-chave nas memórias de infância da Luísa: "Calhou à minha mãe ficar com a casa dos pais dela. Lembro-me bem, fui eu quem tirou o papelinho, quando morreu o meu avô, tinha eu sete anos de idade. A minha mãe tinha 12 irmãos, mas as partilhas não foram feitas com advogados. Lotearam os terrenos entre eles e a casa foi dividida em dois lotes. Fizeram então uns papelinhos que correspondiam aos lotes, puseram-nos num chapéu - não sei bem se era um chapéu, talvez esteja a imaginar - e sortearam-nos, como numa rifa. Fui eu quem tirou o papel de uma das partes da casa, que era muito bonita. Mais tarde a tia a quem calhou a outra parte da casa também morreu e os meus pais compraram-na e assim ficámos seus únicos proprietários."

Foi em Góis que Luísa teve a sua primeira experiência na câmara escura, ainda na adolescência. Foi, porém, muito longe dali - na Suíça, em 1984 -, que comprou a sua primeira máquina Reflex. Estava naquela fase de entrada na idade adulta em que não se sabe muito bem que canudo tirar (Economia primeiro, Geografia depois) e se aproveita para fazer uma temporada sabática, que no caso dela calhou ser a época de vindimas na Suíça. Quando lá chegou, as vindimas já tinham acabado, mas a futura fotógrafa arranjou trabalho como empregada de mesa. Não demorou a perceber que mais não teria de fazer na Suíça para juntar dinheiro e comprar o seu primeiro equipamento fotográfico.

O mergulho na fotografia começou de regresso a Lisboa, num curso livre no mesmo IADE onde agora é professora. A Vila Nova de Ceira pouco voltou nesse início de carreira profissional que a levou a colaborar com o Diário Popular e a ProJornal, antes de ingressar no PÚBLICO onde ficou desde o lançamento em 1990 até meados de 1996. Teve em seguida uma curta temporada na Associated Press, passando a freelancer em Agosto de 1998, uma mudança condicionada, e muito, pela circunstância de ter sido mãe de um rapaz em 1995.

Das crianças às serras

"Antes de o meu filho nascer, em 1993, comecei a fotografar as crianças da aldeia. Porque durante muitos anos quase não havia novas crianças em Vila Nova de Ceira. Tanto que um primo meu que lá nasceu nessa altura não tinha ninguém com quem brincar. Então fui fotografando os miúdos que apareceram no início dos anos 1990, que eram quase todos meus primos. Fotografei-os Verão após Verão, normalmente num campo de oliveiras que estava lá abandonado. Eram fotografias de conjunto e agora quero fotografá-los individualmente à entrada da idade adulta. Descobri, entretanto, que boa parte está hoje a viver no Bairro Alto, em Lisboa."

O norte-americano Larry Sultan, que levou a maior parte dos anos 1980 a fotografar os seus progenitores (Pictures from Home), dizia que a fotografia é um factor essencial na construção de um sentido e mesmo de uma mística da família. Luísa Ferreira lamenta não ter investido tanto quanto poderia nessa vertente: "Há muitas fotografias que eu fiz de crianças lá da terra que nunca ninguém viu. Tem a ver com eu ter feito fotojornalismo durante muito tempo - ganha-se o hábito de deixar muitas imagens no filme, ou em provas de contacto, sem as transferir para papel. Há uma fotografia que eu gostava imenso de ter feito e nunca fiz que é a fotografia de todos os Carvalhos - eu do lado da minha mãe sou Carvalho".

Daido Moriyama, outro monstro sagrado da fotografia do século XX, postulava que o melhor sítio para fotografar é aquele em que se vive ou que melhor se conhece. Luísa tem impressões dúbias a este respeito: "Certas vezes, quando estou a fotografar um sítio desconhecido, a surpresa para mim é quase um estímulo. Por vezes quando conheces bem um lugar, pode ser quase um adormecimento. No caso de Ceira, considero que fiz algumas boas fotografias, mas também perdi algumas coisas, porque achava que aquilo estava lá amanhã. Não fotografamos tudo constantemente. Há imensas coisas que eu nem sequer quero fotografar. Mas há coisas que eu me apercebo mais tarde que devia ter fotografado. Às vezes até sinto que não sei fotografar aquilo porque tenho uma grande intimidade com o lugar".

Apesar de, ou talvez por causa destes escrúpulos, um dos projectos mais caros a Luísa Ferreira nasceu em Ceira, ou melhor nas serras das vizinhanças do Açor, da Lousã e do Rabadão. O projecto chama-se Nós e está em progresso desde 2006: "O Nós nasceu da vontade de fotografar a paisagem que fui descobrindo nessas três serras, na sequência de passeios de jipe por trilhos de terra batida, que me levaram a sítios a que eu nunca tinha ido. Como não queria fotografar só natureza, comecei a fotografar natureza humanizada, sítios intervencionados pelo homem - por isso até lhe chamei a certa altura Intervenção na Paisagem. Coisas como muros, escadas, tanques, espaços onde já houve agricultura e já não há. E comecei a teatralizar com as pessoas com quem ia mais para esses locais. Pedia simplesmente às pessoas que ocupassem o espaço. Também comecei a fotografar as rulotes, boa parte das quais as pessoas abandonaram por lá - são, portanto, testemunhos de uma ocupação e vivência do espaço que não existe mais. A paisagem só existe quando tu a vês e cada um ocupa o espaço à sua maneira. Não vejo nostalgia, nem desolação, vejo apenas vivências nessas fotografias".

Dos avós ao filho

Serão estas fotografias auto-retratos de Luísa Ferreira projectados nas paisagens de Ceira e à volta? Voltamos a Larry Sultan e à história da famosa fotografia em que pediu ao pai que vestisse um fato completo e não sorrisse. O pai disse-lhe na altura: "Quando mostrares essa fotografia não te esqueças de dizer que este aqui sentado na cama, todo aperaltado de fato e gravata e com aspecto deprimido, não sou eu. Eu estou contente por te ajudar, mas isto não sou eu, és tu Larry". Luísa admite que algumas fotografias, incluindo as que tem tirado aos seus familiares, são neste sentido muito próximas de auto-retratos: "Fiz o meu mestrado, chama-se Branco, onde parto do auto-retrato para o aquilo-sou-eu. Comecei a perceber que o auto-retrato para mim pode ser aquilo que eu vejo, aquilo que eu toco. Algumas fotografias que tirei ao meu filho são um pouco assim também".

Entretanto, Luísa prendeu o filho já adolescente com uma Nikon FM em segunda mão. Agora ele está a frequentar o curso de Fotografia da escola Ar.Co e até já fotografa os avós. Luísa Ferreira comenta: "O Hugo consegue fotografar os avós melhor do que eu - já vi isso, fotografias feitas por ele dos avós que eu gostava de ter feito. Talvez por eu ser tão próxima deles não os consigo fotografar tão bem, talvez o meu filho não sinta os mesmos constrangimentos".