A culpa é das alterações climáticas ou nem queremos falar disso?

Modelos para compreender a evolução do clima não representam bem os fenómenos extremos

A culpa da seca recorde nos EUA é das alterações climáticas causadas pelo aquecimento global? Normalmente, os cientistas são muito cautelosos a fazer essa ligação entre a meteorologia, mesmo os fenómenos meteorológicos extremos, e o clima, que é a caracterização do planeta no longo prazo. É como comparar uma piscadela de olho com um filme de 120 minutos. Mas, desta vez, há cientistas prontos a ligar as duas coisas.

James Hansen, do Instituto de Estudo Espaciais da NASA em Nova Iorque, não é nenhum estranho à intersecção da política com a ciência das alterações climáticas - há 24 anos, testemunhou sobre o assunto no Congresso. Desta vez, publicou um artigo na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences em que, usando dados estatísticos, produz mapas em que mostra como as temperaturas extremas no Verão se tornaram não só muito mais frequentes como se alargaram a muito mais áreas.

Assim, entre 1951/1980, os períodos de temperaturas extremas só se verificavam em 1% da superfície terrestre. Ao analisar o que se passou e as três décadas seguintes, a equipa de Hansen conclui que, no final desse período, as vagas de calor se tinham alargado a 10% do globo. Conclusão, polémica para alguns cientistas, que acusam Hansen de estar a fazer um libelo político: "Podemos dizer com segurança que as ondas de calor de Moscovo em 2010 ou do Texas em 2011 são consequência das alterações climáticas".

Apesar do interesse político de Hansen - mesmo no meio da maior seca em seis décadas, o tema das alterações climáticas e do que se pode fazer para as limitar tem estado ausente da campanha das presidenciais norte-americanas -, ele não está propriamente a esticar para lá do admissível em ciência. Outros estudos têm apontado neste sentido, e o IPCC - o grupo de peritos que trabalha para elaborar relatórios de consenso sobre as alterações climáticas para a ONU - divulgou um relatório recentemente em que aponta também esse caminho.

A verdade é que os modelos computorizados com que os cientistas tentam compreender como pode o clima evoluir não representam bem os fenómenos extremos, disse à Nature Kevin Trenberth, climatólogo do Centro Nacional de Investigação Atmosférica dos EUA. Mas isso pode levar algumas pessoas a tirar uma conclusão errada: "A de que não sofrem influência humana." Clara Barata