Como Evan Parker sobreviveu a Cecil Taylor

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CAROLINE FORBES

Gigante absoluto da improvisação, Evan Parker toca no domingo em Lisboa com Misha Mengelberg, retomando um primeiro e único encontro em Amesterdão. É no Jazz em Agosto.

Em 2006, Evan Parker pisou os palcos da Gulbenkian para um concerto a solo integrado no Jazz em Agosto que ficou na memória. Improvisador brilhante, possui uma técnica assombrosa que integra posições convencionais e uma enorme diversidade de técnicas extensivas, nomeadamente a respiração circular e os chamados false fingerings. No que obtém do saxofone é possível reconhecer ruídos que podiam ter origem na natureza, como o chilrear de pássaros ou o barulho de folhas a cair, e também sons concretos, cuja origem ou definição nos parecem escapar.

Em vésperas do seu regresso a Lisboa, onde actuará domingo no mesmo festival, Parker fala (por telefone) ao Ípsilon. Perguntamos-lhe desde quando conseguiu manter uma actividade regular com a sua música e ele responde-nos que sempre teve "bastante sorte": "Não posso considerar-me um daqueles músicos que levaram uma vida de dificuldades e privações, em permanente luta para conseguir trabalho." A resposta apanha-nos de surpresa. Seria de esperar que alguém que toca uma música tão exigente e abstracta e atravessou mais de quatro décadas de convulsões económicas de todo o tipo tivesse sentido algumas dificuldades: "Acho que teve a ver com o timing. Aconteceu de forma natural por eu ter sido um dos precursores da chamada improvisação europeia. Desde o início criei boas ligações com músicos na Alemanha, na Holanda e na Bélgica. Personalidades fortíssimas como Alexander Von Schlippenbach, Peter Kowald, Peter Brotzmann ou Han Bennink foram determinantes no meu percurso."

Tendo colaborado desde o início com um verdadeiro "quem é quem" do jazz de vanguarda mundial - Derek Bailey, Cecil Taylor, Chris McGregor, Tony Oxley, Louis Moholo, John Stevens, Barry Guy, George Lewis, Steve Lacy, Anthony Braxton -, Parker foi profundamente influenciado pelo jazz norte-americano, nomeadamente pela figura tutelar de John Coltrane. A conferência que realizou, também em 2006, sobre o saxofonista, intitulada simplesmente John Coltrane, foi transcrita e passada de mão em mão, tendo-se tornado um texto de culto para um grupo restrito de pessoas do meio um pouco por todo o mundo. Quando lhe referimos o facto da sua conferência surgir frequentemente em conversas entre músicos, Parker sorri, afirmando que não tem bem consciência do facto: "O Rui Neves fez-me o convite e eu estudei o assunto a sério, pesquisando intensamente. Tudo começou com uma pequena frase musical retirada do extraordinário solo de Coltrane no tema Chasin" the Trane, gravado em 1961 no clube Village Vanguard. Esse solo, que é para mim um dos melhores da sua carreira, está cheio de ideias e frases novas, bastante diferentes do que Coltrane havia feito até ali. Acabei por associar isso a uma boquilha nova que ele usou na altura e que alegadamente tinha um defeito, obrigando-o a tocar de forma diferente. É uma história fascinante."

A propósito, perguntamos-lhe se teme que a tradição jornalística representada por Brian Morton (crítico e escritor, co-autor do celeb]rado Penguin Guide to Jazz, que realiza a conferência deste ano do Jazz em Agosto), Bill Shoemaker ou Stuart Broomer, verdadeira idade de ouro, está a ter continuidade. "Não tenho bem a certeza. Concordo que jornalistas como Shoemaker, Morton e Broomer são pensadores profundos que conseguem perspectivas novas sobre o jazz, indo muito além da mera crítica musical. São especialistas em colocar as questões sob um contexto histórico e cultural de forma invulgarmente consistente. Se é uma idade de ouro que não será igualada, não sei... Sei que podemos contar com eles para trazerem novos escritores para a praça, tal como o faz Bill Shoemaker com o seu site Point of Departure. Devíamos também mencionar Art Lange ou Richard Williams."

Retomando a razão da sua vinda a Lisboa e as enormes expectativas para o seu encontro com Misha Mengelberg, companheiro de longa data de Parker, com inúmeras aventuras musicais partilhadas, nomeadamente na orquestra do pianista holandês, a ICP Orquestra, mas apenas um concerto a dois em Amesterdão, em 2006, o saxofonista confessa-nos que, de todas as suas colaborações com pianistas, "os duos com Cecil Taylor foram experiências muito importantes": "Ele tem uma presença e uma personalidade extraordinárias." Sabendo do feitio difícil e por vezes irrascível de Taylor, insistimos: foi uma experiência fácil? "Sim, correu tudo bem. Foram experiências bastante complexas, mas pode dizer-se que sobrevivi [risos]!"

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