Gonçalo Cadilhe e a Figueira da Foz

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Já calcorreou o mundo, mas volta sempre ao seu sítio, a Figueira da Foz. Diz que o viajante resolve a viagem no regresso e ele tem o privilégio de o fazer num lugar onde o mar e a serra se encontram. Maria João Lopes (texto) e Paulo Pimenta (fotos)

É um homem de mar e de lugares com quatro estações. Já correu o mundo quase todo, mas regressa sempre à Figueira da Foz. Diz que é um local "mágico", onde por vezes há a luz do Sul, noutras ocasiões o nevoeiro do Norte. Não é monótono, pelo contrário: Gonçalo Cadilhe já fez muitas viagens lá, entre Buarcos, o Cabo Mondego e a serra da Boa Viagem. "A Figueira é o meu sítio", diz.

O escritor e viajante recebe-nos num dia de nevoeiro, na zona do Cabo Mondego, na Figueira da Foz. Estamos em pleno Julho, mas volta e meia o céu da Figueira prega estas partidas e enche-se de cinzentos e de mistérios. "Estes são os meus lugares de eleição", diz, apontando para o Cabo Mondego e fazendo um gesto largo de modo a que, dentro dele, caiba a marginal de Buarcos até à Figueira.

Temos o oceano à nossa frente e, não tarda nada, estamos todos de sapatos na mão e pés no mar. Gonçalo Cadilhe é o primeiro a descer até à praia e ainda nos ajuda a nós, com blocos de notas e câmaras fotográficas atrás, a fazê-lo também. É ele quem nos dá uma mão, e ficámos desconfiados de que o escritor de viagens até de olhos fechados desceria aquelas pedras escorregadias. Conhece-as de cor, desde menino.

Foi ali que cresceu. Viajou muito no seu sítio, desde pequeno. Ser criança na Figueira naquela altura era brincar ao ar livre, em segurança e num "espaço aberto para o mundo". Gonçalo Cadilhe diz que numa cidade grande a sua infância teria sido diferente.

Ser criança na Figueira também lhe permitiu começar logo a viajar, quando metia conversa com os hippies e os surfistas estrangeiros que chegavam de carrinha à procura do mar em Portugal. Foram as primeiras grandes viagens que fez e sem ir mais longe do que o fundo da rua. Mas foram estas descobertas, este contacto com gente diferente, que falava outra língua e tinha outra experiência, que lhe deram "à vontade com situações novas". E despertaram nele a curiosidade e vontade de conhecer que mantém até hoje.

Em todas as fases da vida de Gonçalo Cadilhe, de 44 anos, a Figueira esteve presente. Foi ali que se iniciou nos escuteiros, uma aventura que, com oito anos, lhe pareceu tão destemida como a viagem de 19 meses que fez, entre os 35 e os 37 anos: "Foi tão aventureiro, tão desestabilizador como ter feito a volta ao mundo", garante. Nessa altura, ia todos os sábados para a serra da Boa Viagem com os escuteiros. Mas também partia para mais longe: "Até aos 14 anos calcorreei o país todo... Ia para a serra da Estrela, para a da Lousã...", recorda.

Só deixou os escuteiros quando conheceu o surf. E, claro, tal aconteceu também na Figueira, nas ondas da praia da Cova: foi lá que se fez pela primeira vez ao mar, com uma prancha na mão, quando era adolescente. Ainda continua a fazer surf com regularidade e, em Portugal, só o faz na Figueira. A vez que esteve mais tempo longe das pranchas foi durante cerca de meio ano, quando regressou da Indonésia rumo a Portugal.

Piratas e grutas

Gonçalo Cadilhe está grato à Figueira por tudo isto, mas o contrário também é verdade. No ano passado, o viajante profissional recebeu o prémio José Bento Pessoa, atribuído pelo Ginásio Clube Figueirense e pelo Casino da Figueira, na categoria Personalidade da Figueira da Foz não desportiva. Como no momento de entrega do galardão não estava em Portugal, agradeceu, por vídeo, às árvores do Parque das Abadias, aos piratas, cowboys e grutas misteriosas da serra da Boa Viagem, onde há fósseis e pegadas de dinossauro, e às ondas do Cabo Mondego "pela noção de liberdade".

Tudo contribuiu para ser quem é. "Já há muitos anos que ando a dizer que o que sou devo à Figueira da Foz", sublinha. Gonçalo Cadilhe diz mesmo que o último livro que escreveu - Um lugar dentro de nós - é "um agradecimento do autor à cidade onde nasceu": "O primeiro capítulo é sobre a relação que os figueirenses têm com o mar", exemplifica.

Até já lhe passou pela cabeça desafiar fotógrafos não figueirenses para fotografar os lugares ligados ao mar naquela cidade. A ideia é juntar depois as suas próprias fotografias de litorais, costas e marginais de outros países, e mostrar que "a Figueira não vai ficar a dever nada aos sítios mais bonitos do mundo".

Até ir estudar para o Porto, com 18 anos, Cadilhe viveu sempre na Figueira. E, mesmo depois de ter ido para o curso de Gestão de Empresas na Universidade Católica, regressava aos fins-de-semana à sua cidade. Nunca teve dúvidas: "É um privilégio brutal estar e viver na Figueira da Foz."

Apesar de não gostar da palavra "místico", admite que aquele sítio entre a serra e o mar tem algo de "mágico", embora "não no sentido esotérico". É, antes, um lugar que lhe transmite serenidade. Acredita que não é preciso viajar muito para se perceber que aquela cidade "tem alguma coisa de especial, qualquer coisa estranha, diferente, uma mais-valia espiritual".

Gonçalo Cadilhe não gostaria de viver noutro ponto do globo: "Sinto-me geneticamente ligado aqui. Até no tipo de alimentação. Por exemplo, na Alemanha, comem todos os dias carne. Há coisas um bocado subterrâneas que, quando nos faltam, andamos incomodados e não sabemos porquê", diz. Mesmo na Nova Zelândia, o país que na sua opinião tem a melhor organização social, um sítio pensado para as pessoas serem felizes e terem participação cívica, Gonçalo Cadilhe se sentiria um pouco estranho: "Eu pertenço aqui."

Não se vê nos trópicos, onde há sempre a mesma luz e onde só há, em vez de quatro, duas estações: a da chuva e a do sol. Ali, na Figueira, o escritor consegue aperceber-se bem da mudança das estações, da mudança da lua. "A Figueira da Foz está na fronteira entre o Norte e o Sul. Às vezes tem a luz de Lisboa, às vezes parece o Porto. Não é monótona", nota ainda.

A Figueira que inchou

Gonçalo Cadilhe conta que, nas décadas de 1970/80 era a Esplanada, uma espécie de miradouro sobre o mar, o ponto de encontro dos cidadãos na Figueira. Ali, naquele centro, no chamado Bairro Novo, perto do casino, ia parar toda a gente, de todas as idades e tribos: os hippies, os amantes do reggae, os reformados. Hoje esse espaço foi substituído ou "actualizado", para usar uma expressão de Gonçalo Cadilhe, pela marginal, onde há sempre pessoas a passar e a passear. Gente a correr, a andar de bicicleta, parada a conversar...

Nem tudo, porém, lhe agrada na marginal e na Figueira deste tempo. Há prédios gigantes junto à praia que o entristecem, há um centro desertificado, como "em quase todas as cidades do país": "A cidade não cresceu, inchou, abandonou-se o centro, foi-se para a periferia, e as pessoas passaram a ser dependentes do carro para se serem cidadãs", diz.

Embora admita que a zona da marginal era antigamente um baldio e hoje é um espaço de cidadania, Gonçalo Cadilhe prefere estar nela "de costas" para os edifícios e de cara voltada para o mar.

Naquele passeio comprido, e na zona junto ao Cabo Mondego, vê-se bem uma série de carreiros de rochas junto à costa. Cada carreiro tem um nome: um é o Pedra Grande, outro a Cabeça do Velho... Os pescadores sabem cada um dos nomes e àquele conjunto de carreiros chamam maternidade, porque ali nasce tudo: polvo, mexilhões...

Todos estes elementos que rodeiam o escritor-viajante fazem-no ter a convicção de que não trocaria a Figueira por outro lugar - mesmo tendo consciência de que a, nível profissional, perde algumas oportunidades por estar fora de Lisboa e do Porto. Reconhece que é "muito um outsider", mas, no fundo, também não deixa de ficar satisfeito por ter chegado onde chegou sem os "contactos" que existem na capital.

Antes de se dedicar à escrita de viagens, Gonçalo Cadilhe trabalhou em marketing. Começou assim que acabou o curso de Gestão de Empresas e ficou nesse emprego sete meses, o tempo suficiente para "saltar fora". Não houve "um clique, um relâmpago, uma iluminação" que o levasse a tomar essa decisão, apenas a convicção de que poderia fazer daquilo que gosta - viajar e escrever - um modo de vida. Deitou para trás das costas um bom trabalho e um bom salário, deu "o passo no vazio" e acertou.

Viajante malandro

Viajar sempre foi, para Gonçalo Cadilhe, uma aprendizagem. Apesar de ressalvar que a mentalidade dos portugueses já está a mudar, o escritor continua a lamentar que, ao contrário de outros países em que os jovens vão viajar no fim dos cursos, em Portugal esse período de descoberta continue a ser desconsiderado: "Não é valorizado pôr-se no currículo que se viajou seis meses... Lá fora é. Aqui, se alguém anda a viajar, a dormir debaixo das pontes, dizem "Ah, malandro"".

Mas esse espírito de aventura e de curiosidade é a essência do viajante Gonçalo Cadilhe. Para ele, a diferença entre turista e viajante "não é relevante": "O que faz um grande viajante é a curiosidade do que está para lá do horizonte", defende.

Recorda a história de um professor de Filosofia que sempre sonhou ir a Alhambra, mas "tinha pânico de sair do território que se conhece". Quando finalmente Gonçalo Cadilhe o convenceu a ir, o professor morreu de cancro. A viagem não se chegou a concretizar, mas, nota Cadilhe, aquele homem foi muito mais viajante do que "alguns mochileiros" que, de forma "banal", se fazem à estrada comendo as mesmas coisas que há nos seus países de origem: "Não dão valor ao que estão a fazer", diz.

Apesar de não ter feito fisicamente a viagem, aquele professor já conhecia o sítio, já tinha lido tudo o que havia para ler sobre ele. No fundo, já lá tinha estado: "O que faz um viajante não são os quilómetros ou os carimbos, mas a curiosidade, a postura em relação à vida", insiste.

Gonçalo Cadilhe diz-nos ainda que ser viajante é "desligar a televisão". E é por isso também que, no seu último livro, escreve que ama Portugal, de preferência de longe e explicado a estrangeiros. Porque, quando está afastado, o dia-a-dia mesquinho deixa de existir: distanciando-se consegue ver melhor o essencial, precisa o escritor.

Viajar permite-lhe assim conhecer-se melhor e também conhecer melhor o seu sítio: "O primeiro livro de viagens da cultura europeia é a Peregrinação e a grande lição é que Fernão Mendes Pinto viaja não para conhecer o que está do lado de lá, mas para nos conhecer a nós. [Viajar permite-nos] conhecer-nos a nós como povo e como indivíduo", explica.

Os regressos

Hoje, porém, Gonçalo Cadilhe gosta, mais do que nunca, de regressos. Aprecia regressar aos sítios onde já esteve, sobretudo se tiver feito amigos lá. Dá-lhe prazer ir acompanhando as pessoas, ver como vão mudando, envelhecendo: "Cada vez mais as minhas viagens são viagens de regresso, cada vez o número de países [novos] que visito diminui."

Também não são assim tantos os que lhe faltam... E o que mais lhe interessava está visto. Nunca esteve, por exemplo, na Florida ou nas Seychelles, mas sente que tem tempo, que tem ainda muitos anos pela frente. Além disso, como actualmente viaja com cada vez mais autonomia, prefere ficar três meses numa aldeia de pescadores na África do Sul, a escrever um livro, do que apenas três semanas, como quando se iniciou na profissão.

Mas agora está quase sempre de regresso: de regresso aos sítios que já conhece ou de regresso a casa, à Figueira. Até está a pensar escrever um livro "não de viagens", mas antes uma obra "ao correr da pena e dos pensamentos". Este último que escreveu, depois de uma dezena deles e de três documentários, já é diferente: "Tem pouco de viagem, embora se perceba que foi escrito por alguém que viajou muito, que tem muitos anos de pó da estrada."

Em Um lugar dentro de nós, Gonçalo Cadilhe apresenta-se assim: "Nasci e cresci na Figueira da Foz, onde ainda hoje vivo, com a minha mulher e o meu filho. Dito desta maneira, parece que nunca saí da minha cidade. Não é verdade, mas mesmo que fosse bastaram algumas das reflexões que deixo neste livro para que me sentisse plenamente feliz com as viagens que nunca fiz."

No fim da entrevista, regressámos ao ponto do qual tínhamos partido, na zona do Cabo Mondego, mesmo no fim da marginal da Figueira. Durante a tarde, Gonçalo Cadilhe tinha-nos dito: "Cada viajante resolve a viagem no regresso. O meu privilégio é o de regressar à Figueira da Foz."

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