Ao espelho, no Bósforo

Foto
O Oriente e as suas tradições. O Ocidente e uma modernidade que os Istambullus cobiçam NICOLE SOBECKI

Num mundo ao meio, o escritor sente-se uma fronteira, indeciso quanto ao lado a que pertence. Em Orhan Pamuk convivem dois mundos, o Ocidente e o Oriente, numa esquizofrenia de território da qual não se quer livrar e que faz a sua identidade e a de Istambul. Ele é um turco ocidentalizado com o Bósforo no centro.

À janela da sua penthouse um homem olha o Bósforo, mas é a si que se vê. Está no centro de um mundo ao meio, como aquele mítico canal que, "conforme o ponto de vista, separa ou une - ou talvez separe e una - os mundos da Europa e da Ásia". O homem à janela olha e o que vê é essa identidade dividida de que falou o escritor Salman Rushdie quando quis falar do escritor Orhan Pamuk. Vê o seu lugar no mundo, entre o Ocidente e o Oriente, que tão depressa é centro como periferia. Ele, Pamuk, é essa fronteira simbólica que olha da sua janela. "Não pode haver cenário mais apropriado para um escritor cujo trabalho faz praticamente o mesmo", continuaria Rushdie na tentativa de definir o universo de Orhan Pamuk, Nobel da Literatura em 2006, que a Academia Sueca distinguiu pela capacidade de transmitir esses dois mundos através da escrita. O Oriente e as suas tradições. O Ocidente e uma modernidade que os Istambullus cobiçam.

A janela da sala de trabalho de Pamuk tem vista para ele mesmo. É uma entre as milhares de janelas de Istambul, cada uma a guardar singularidades; todas com vista para um colectivo carregado de Huzun, vocábulo turco de imensa complexidade que também Pamuk ajudou a tornar universal e que se pode resumir a uma espécie de melancolia própria dos nativos de Istambul. Ainda na hora de atribuir o Nobel a Pamuk, a Academia justificou-se com essa poesia no olhar de quem vê o Bósforo a partir da sua janela e fez desse olhar uma busca permanente: a da "alma melancólica da sua cidade natal", descobrindo a partir daí "novas imagens para o choque e cruzamento de culturas."

Da janela de Pamuk avista-se o mar de Mármora, o Corno de Oiro, o Palácio Topkapi, o Bósforo e a ponte que aproxima a margem ocidental e a oriental, exactamente como faz o escritor nos seus livros, cruzando nas mesmas páginas as duas culturas de uma Turquia dupla que se encontra em Istambul. A Cidadela Branca (1985), O Jardim da Memória (1990), A Vida Nova (1995), O Meu Nome é Vermelho (2000), Neve (2002), O Museu da Inocência (2007) contêm o huzun inerente a quem procura uma identidade para si e para o seu território. O tal uno que começou a ganhar forma a partir de uma panorânima onde se via reflectido e que o poderia ter levado a outras artes mas que acabou por fixá-lo na escrita.

Talvez tudo tivesse começado daí, dessa janela de onde vê o mundo. Passou por muitas, mas sempre houve uma de onde via a água e a contar os barcos que a atravessam. "Sei que o meu lugar é nas margens do Bósforo, do Corno de Ouro e do Mar de Mármora, as grandes massas de água que dão forma a Istambul", escreveu em Istambul, Memórias de uma Cidade, livro publicado em 2005. Aí, estão todos os seus lugares e o seu lugar na cidade com a qual se confunde. De tal forma que já vai sendo quase cliché dizer que Istambul é a grande personagem e o universo criativo de Pamuk. Começou por querer ser pintor mas desistiu da ideia nem ele sabe porquê, "talvez devesse deixar de ver a cidade como um desenho ou uma paisagem", confessa no mesmo livro. Nessa época, entre os 16 e os 18 anos, assumia-se "partidário convicto da ocidentalização" e "desejava ver a cidade" e ele próprio, "europeizar-se" ainda que mantivesse a vontade de continuar a pertencer à sua Istambul "bem amada". Foi lá que nasceu, em Junho de 1952, numa família abastada que estava a perder o poder económico. "Mudámos muitas vezes de casa durante esses anos", os anos do fracasso dos negócios dirigidos pelo pai e pelo tio. Foram ricos de apenas uma geração, a do avô. "Em algumas das casas onde nos instalámos não reinava o caloroso sossego da Residência Pamuk em Nisantasi, mas como as vistas sobre o Bósforo a partir das casas de Cihangir ou de Besiktas eram muito mais bonitas, não me senti infeliz por mudar para lá, e o nosso empobrecimento gradual nunca me tocou profundamente."

Ele viveu esse declínio, mais sentido do que explicado, e convicto de que um quarto era tudo o que precisava para poder criar um universo colado à geografia da qual não se conseguia desligar. Fosse a olhar o Bósforo, ou a experimentar a comida de rua, nas ruas de Istambul, antes de um jogo do Galatasarai. "O melhor da comida de rua de Istambul não é o facto de cada vendedor ser diferente, oferecendo especialidades e correndo atrás das modas, mas sim o de cada um vender apenas aquilo que conhece e de que gosta. Quando vejo os homens que trouxeram um prato de aldeia (algo que as suas mães ou esposas lhes prepararam em casa) para as ruas da grande cidade, certos de que toda a gente irá também gostar, não saboreio apenas o seu pilaf de grão ou as almôndegas grelhadas, mexilhões fritos, mexilhões recheados ou fígado à albanesa; saboreio também a beleza orgulhosa das suas tendas, dos seus carrinhos de três rodas e das suas cadeiras. Estes homens são hoje em menor número do que no passado, mas houve um tempo em que deambulavam pelas ruas de Istambul e, mesmo rodeados por multidões, na sua alma, continuavam a viver no mundo "limpo" das suas mulheres e mães." Estamos fora da ficção, num dos ensaios sobre a vida que integram o volume Outras Cores, publicado em 2007 e editado em Portugal, em 2009, pela Presença, a editora de toda a obra do escritor.

A desarmonia do mundo

Ao contrário do pai, herdeiro de uma joie de vivre muito ligada aos hábitos burgueses que o fez relegar a escrita para segundo plano, Orhan sucumbiu ao que chamou uma tristeza associada à percepção de que dificilmente conseguiria harmonizar os dois mundos de que se sentia ser fronteira. "Pode dizer-se que eu tinha apesar pela minha cidade e por mim próprio, verificando que Istambul não era suficientemente moderna, que faltava ainda muito tempo para a cidade ultrapassar a pobreza e a miséria, e para se libertar do sentimento de derrota que pesava sobre ela. Pois bem, esta tristeza, de que toda a cidade se tinha impregnado com orgulho e resignação, começava a infiltrar-se também na minha alma. Mas tratar-se ia da mesma tristeza, ou da tristeza de ter de capitular perante a "tristeza" da cidade?"

Talvez uma tristeza idêntica à que sentia ao olhar-se nos espelhos dos carros de fast-food quando tinha dezasseis anos e ia ao cinema sozinho. "Olhava-me aí de pé, comendo o meu hambúrguer e bebendo o meu ayran, e via que não era bonito, sentia-me só, e culpado, e perdido nas grandes multidões da cidade."

A necessidade de estar só era com a escrita, a fazer a síntese de um espaço nos seus vários tempos. Desde o século XVI de O Meu Nome é Vermelho à contemporaneidade de O Museu da Inocência, uma recolha de pedaços de memórias numa determinada geografia. Istambul. É obsessão. Porque nesta relação também há zanga, vontade de fuga, como aconteceu com Osman, o universitário de 22 anos, protagonista de A Vida Nova, que um dia leu um livro que lhe mudou a vida. A partir daí, Istambul deixou de ser suficiente. "O meu universo de outrora rodeava-me por todos os lados, em todas as ruas: as montras das famíliares mercearias, as luzes ainda acesas da padaria da Praça da Estação de Erenkoy, as caixas diante do lugar da fruta e dos legumes, as carroças, a pastelaria A Vida, os camiões desengonçados, os toldos e as caras sombrias e cansadas. Mas uma parte do meu coração - a parte em que trazia o livro, como quem dissimula um pecado - já sentia apenas indiferença por todas estas sombras que tremelicavam nas luzes nocturas. Queria fugir de todas estas ruas familiares, da melancolia das árvores molhadas pela chuva, das letras néon que se reflectiam nos charcos de água do asfalto e dos passeios, das luzes do talho e da mercearia. Soprou um vento ligeiro, caíram gotas de árvores, ouvi um estrondo e decidi que o livro era um mistério que me estava destinado."

Não é difícil encontrar neste rapaz pistas para a tal vida interior de Pamuk. Também derivou do seu centro desde muito cedo, como um apelo maior. Para os subúrbios, para Ancara, onde chegou a viver com a família, para o Mediterrâneo e aperceber-se que todas as águas que inundam ou rodeiam Istambul não são mais do que a extensão daquele mar maior. "Estava-se no início dos anos 60; eu tinha nove anos. O meu pai levava toda a família - a minha mãe, o meu irmão, todos - de Ancara para Mersin num velho Opel. Ao fim de muitas horas de viagem, disseram-me que em breve teria o meu primeiro vislumbre do Mediterrâneo, e que jamais o esqueceria. Ao passarmos por entre os últimos cumes das montanhas Taurus, mantive os olhos na estrada que o nosso mapa descrevia como "estabilizada"; enquanto a via serpentear pelo meio das colinas amarelas, aconteceu: avistei o Mediterrâneo, e nunca me esqueci dessa visão."

Quem lê Pamuk percebe esse fascínio. Ele é um Istambullu, mas é um mediterrânico. Na relação com o território, com a comida, no modo como a água lhe molda a vida e o olhar. "Na língua turca chamamos-lhe o "mar branco", mas aquele mar era azul" - continua a descrever a visão - "um azul como eu nunca antes vira - talvez porque esperara que se fizesse justiça ao seu nome turco. Imaginara algo tingido de branco: um mar imaginário, talvez; um mar que, como o deserto, oferecesse miragens às pessoas. Todavia, aquele mar parecia-me absolutamente familiar. Aquela familiar brisa marítima subira até às montanhas, entrando pela janela do carro. O Mediterrâneo era um mar que eu reconhecia. Fora o seu nome turco a enganar-me, fazendo-me crer que seria algo que eu nunca antes vira."

Mas a deriva foi mais longe. O apelo de fora, maior. Osman fugiu pela Turquia num autocarro. Pamuk apanhou um avião, de certo a pensar no comboio entre Moscovo e São Petersburgo, onde Anna Kareninna tirou um romance da sua bolsa e o leu, numa leitura conjugada com a paisagem que lhe passava à janela. É uma imagem recorrente no autor turco para quem aquele livro de Tolstoi é o maior romance de sempre. O escritor sabe o peso destas tiradas definitivas e mesmo assim atirou-a. Pamuk "fugiu". Não conta que romance terá aberto no voo. Foi para Nova Iorque estudar Literatura, em Columbia, depois de ter estudado Arquitectura e Jornalismo em Istambul. Por lá escreveu um dos seus livros mais simbólicos, Os Jardins da Memória. Lá, sentiria também o apelo forte do regresso às margens do Bósforo onde aprendeu a reconhecer os ferry-boats com o irmão mais velho e a sensação, como todos os istambullus que podem olhar a água desde as suas janelas, de que "a cidade é um centro, uma soleira, um todo".

A contar ferry-boats

Ele continua a olhar-se. "Quando subimos a um daqueles ferry-boats que vemos noite e dia, para ir de um lado ao da cidade ou para fazer uma excursão, temos o prazer de ver de fora o nosso lugar no mundo interior da cidade. Quando, há quarenta anos, eu e o meu irmão viajámos das ilhas Karakoy num ferry-boat, esperávamos ansiosamente para ver qual dos dois conseguiria ver primeiro os enormes edifícios da nossa vizinhança e as janelas da nossa casa." Estamos num dos "ensaios sobre a vida". Outra vez a escrita autobiográfica a fazer entender os caminhos da ficcional. Ainda sobre essa excitação infantil perante a paisagem, Pamuk fala de um "pensamento sobrio" que a ofuscava: "se os milhões de janelas da cidade, e as suas centenas de milhares de edifícios, pareciam todos iguais, então a nossa vida era mais parecida com as outras do que alguma vez pudéramos imaginar."

Outra vez ainda a contradição. "Se a vista da cidade a partir do convés do ferry-boat nos recordava o quanto éramos iguais aos outros, a vista da cidade a partir de um desses milhões de janelas idênticas dizia-nos exactamente o oposto - acordava em nós o desejo de sermos diferentes, de sermos únicos."

Sempre Istambul, sempre em perspectiva, quase sempre a Turquia como um todo irremediavemente dividido; sempre, sempre os efeitos do tempo nessa geografia. A História. Ou seja, os efeitos do tempo num lugar, na sua transformação; os incêndios a fazer as ruínas da paisagem. Ou as restrições: religiosas, económicas, políticas. As denúncias. Escritor político? Não, escritor com agenda política, como gosta de se definir se lhe lançarem a recorrente pergunta, irresistível ao jornalista, quando o interlocutor é alguém que vive num regime com mácula e que já foi um dos seus alvos ao denunciar o massacre arménio, apontando o dedo ao governo de Ancara. Foi acusado. Não chegou a ser julgado. Nunca saiu, durante esse tempo, da Turquia. De Istambul. Ele sabia lidar com o medo. Cresceu nele, viveu nele, mas nunca se conformou com ele. Ter querido ser jornalista tem que ver com isso. Não lhe ter bastado a actualidade tem que ver com o Huzun.

A Casa do Siêncio, o seu primeiro livro a ser traduzido para o Ocidente vive desses contrastes. Curiosamente o centro não é Istambul, mas uma cidade turística no norte da Turquia, Guebze. Serve ao escritor para pôr em contacto o novo e o velho, o provinciano e o citadino que chega, claro, de Istambul, num momento de convulsões políticas e sociais. "Soprava do mar um vento fresco, agradável, as folhas da figueira murmurejavam. Fechei o portão, comecei a andar na direcção da praia. No extremo do muro do nosso jardim começa o passeio e aparecem as primeiras casas de betão. As pessoas estavam sentadas nos terraços, ou nos jardinzinhos minúsculos das casas, olhavam todas para a televisão, assistiam ao telejornal. As mulheres atarefavam-se em volta dos churrascos, também não deram por mim. A carne nas grelhas, o fumo. Famílias, vidas que me intrigam. Mas logo que chegue o Inverno, não haverá aqui ninguém, e nessa altura o barulho dos meus passos nas ruas desertas até me faz arrepiar." Quem fala assim é o anão Redjep, o homem que toma conta de uma velha senhora, numa casa meio em ruínas onde a quebra na rotina e na tradição é a visita de verão dos netos vindos de Istambul. Eles trazem a ocidentalização e Pamuk quer ver o contraste. É ele a olhar para os outros para tentar perceber como os outros o olham a ele.

Numa fase mais consistente da sua vida profissional. Escritor a viver da literatura contra prognósticos de amigos, preocupações da mãe, acusações de luxo num país com necessidades mais "básicas" do que as literárias. Certo, é que Pamuk voltará a sair de Istambul com outra paisagem. Será de neve em A Neve, para uma remota cidade na Anatólia, Kars, e esse desejo de "penetrar na vida dos outros" que é o seu e que deveria ser o de qualquer romancista. Kars parecia estar no fim de tudo. Isolada, fria, guardiã de segredos que só alguém de fora, como o jornalista do romance, poderia querer desenterrar. E Kars passou a ser um dos lugares de Pamuk. O seu lugar? "Na vida como na literatura, o meu principal sentimento era o de não estar no centro", escreve na não ficção, em Outras Cores.

Isso mudou. Muda. "No centro do mundo, havia uma vida mais rica e excitante do que a nossa e, tal como toda a Istambul, como toda a Turquia, eu estava do lado de fora. Hoje, creio partilhar este sentimento com a maioria das pessoas do mundo."

Na próxima semana, o mapa de escrita de Haruki Murakami

Sugerir correcção