O invisível mundo dos abusos contra as trabalhadoras domésticas

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PEDRO MELIM

Trabalham sozinhas em casas de família. Isoladas do mundo, muitas vezes em situação ilegal, sujeitam-se às regras que lhes são impostas pelos patrões. Hoje abre em Lisboa um gabinete de apoio às trabalhadoras vítimas de assédio moral e sexual

Ana Cristina (nome fictício) não é uma vítima-tipo. Esta baiana comunicativa de gestos largos mostra o seu sorriso fácil mesmo quando está a contar como foi "humilhada" na sua primeira experiência profissional em Portugal. Contratada para tomar conta de um casal de idosos, não demorou muito até que o homem, ex-militar aposentado, a fizesse sentir menor. Desde logo, partiu do pressuposto de que era analfabeta - "A senhora sabe ler?" Quando ela lhe respondia que compreendia as ordens que estava a receber, ouvia "a senhora não sabe nada". Num dia em que cozinhou sopa, o homem ficou furioso porque tinha sobrado e mais ainda ficou quando Ana Cristina lhe perguntou: "E eu não como?" No último dia, ameaçou-a com uma faca de cozinha. "Sou pobre, sou negra. Preciso de trabalhar, mas tenho dignidade."

Este cenário poderia ter continuado semanas, meses, anos, como acontece com muitas das mulheres que vêm bater à porta da associação ComuniDária, vocacionada para dar apoio a trabalhadoras domésticas imigrantes, mas isso era se não estivéssemos a falar de Ana Cristina, esta baiana comunicativa de gestos largos e sorriso fácil. Tudo o que conta esteve compactado em três intensos dias. Atingiu ali o seu limite. Mas, reconhece, ela não é a vítima-tipo, porque não tem filhos e família a cargo e porque não veio para Portugal por uma questão de sobrevivência. Tem 56 anos e recebe uma reforma pelo seu trabalho em enfermagem. O seu objectivo de vida é terminar a casa de sonho de dois andares que tem semiconstruída em Belo Horizonte.

A associação ComuniDária abre hoje em Lisboa o Gabinete Antiassédio, uma iniciativa financiada pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural para apoiar casos de assédio moral, que representam 80% das mulheres que recebem, e de assédio sexual, que chegam aos 15%, refere a sua presidente e fundadora, a também brasileira Magdala de Gusmão. À associação chegam cerca de 30 mulheres por mês.

A associação, que existe desde 2008, também estará hoje na rua em Lisboa a convidar as pessoas a responder a algumas das 21 perguntas que fazem a estas mulheres e que permitem sinalizá-las como vítimas de assédio moral: "Alguma vez gritaram consigo de forma hostil no trabalho? Já foi alvo de comentários depreciativos?" O assédio moral é definido como "a exposição a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho".

"Estas situações são generalizadíssimas", diz a presidente da ComuniDária. A isso ajudam as próprias funções. "É um trabalho de muita invisibilidade, porque trabalham numa casa de família, estão isoladas, não têm colegas de trabalho. Algumas trabalham até às 22h, sábados e domingos, e ainda ouvem um "agradeça por ter emprego"