Allons enfants de la Patrie Le jour de gloire... de misère est arrivé

Foto

É muito deprimente verificar como um país como a França parece incapaz de reconhecer os problemas

Em Maio de 1981 François Mitterrand chegava ao Eliseu como o primeiro Presidente da República de esquerda da V República. Muitos viram na sua eleição o contraponto às recentes vitórias de Thatcher em Inglaterra e de Reagan nos Estados Unidos. E Mitterrand tratou, com efeito, de aplicar um programa de governo alternativo, ordenando uma vaga de nacionalizações e recusando a austeridade. O desvario durou um ano, mas causou danos duradouros à economia francesa.

Em Junho de 1997 foi a vez de outro socialista, Lionel Jospin, chegar ao poder. Tornou-se primeiro-ministro e teve como principal bandeira política diminuir a semana de trabalho para 35 horas. Ele era o "socialista de esquerda" que contrariava o glamour do New Labour de Tony Blair. Acabou mal: na campanha presidencial de 2002 nem sequer passou à segunda volta, ultrapassado por Jean-Marie Le Pen. Quanto às "35 horas", gradualmente abandonadas, ainda pesam na produtividade da economia francesa: em 2000 os custos laborais eram mais baixos em França do que na Alemanha (-8%), hoje são mais elevados (+10%).

Estas duas experiências podiam ter tido duas consequências: uma era terem tornado o PS francês mais razoável e mais realista; a outra era terem ensinado os franceses a desconfiar de políticos sem contacto com a realidade. Nenhuma ocorreu. François Hollande, que tem feito promessas no bom velho estilo de Mitterrand e Jospin, até pode não ser o mais votado, este fim-de-semana, na primeira volta das presidenciais francesas, mas nenhuma sondagem o dá como perdedor na decisiva segunda volta marcada para 6 de Maio.

A França, que já era conhecida por ter a direita mais estúpida do mundo, acrescenta-lhe agora a esquerda mais casmurra e o eleitorado mais suicidário. Não fosse a situação europeia tão grave e talvez achássemos que o mal seria apenas dos franceses, mas estes tempos são demasiado voláteis para ignorarmos a deriva de Paris.

Dificilmente se pode encontrar um mandato presidencial mais decepcionante do que aquele que Nicolas Sarkozy se prepara para completar. Pior só porventura o segundo mandato dessa oportunista nato que deva pelo nome de Jacques Chirac.

O passivo do actual Presidente é elevado. A França perdeu espaço e proeminência em todos os palcos internacionais. Na União Europeia, tornou-se, irremediavelmente, num país que segue a Alemanha em vez de com ela manter uma parceria de iguais. Internamente, Sarkozy não foi capaz de realizar as reformas que prometeu, cedeu por regra à militância sindical e à força de rua, e deixa um país menos competitivo, menos preparado para um mundo globalizado e com as finanças públicas em mau estado. Deixa até a França sem o seu tão precioso estatuto de país AAA.

Como se tudo isso não fosse suficiente, Sarkozy-candidato não tem sido capaz de fugir à mais básica deriva populista, ora agitando o fantasma da insegurança ou da imigração, ora jogando com os medos franceses de uma Europa aberta e franca.

Perante a perspectiva de mais cinco anos de "frigideira", os franceses parecem dispostos a saltar para o fogo. Directamente. Pela mão de Hollande, por estes dias transformado em esperança derradeira de uma esquerda europeia à procura de rumo. Que nos propõe ele? Primeiro, umas vacuidades sobre o "crescimento" e sobre a necessidade de acrescentar essa valência ao tratado europeu. As suas propostas oscilam entre mais do mesmo - umas project bonds para uns indefinidos projectos transeuropeus de duvidosa eficiência - e a tradicional receita de mais despesa (encontrando formas de a financiar via Banco Central Europeu) e mais impostos (com destaque para uma taxa destinada a castigar um sector financeiro que atravessa evidentes dificuldades).

O pior, no entanto, está reservado para as políticas domésticas. Primeiro, mais contratações pelo Estado, agora uns meros 60 mil professores. Depois, mais subsídios (como um destinado a dar novas habitações aos jovens), mais regulamentação (quer impor a cada bairro um mínimo de "pobres") e menos mercado (promete congelar o preço da gasolina durante três meses). Apesar de o sistema de segurança social francês ter mais dificuldades do que o português para assegurar as suas actuais coberturas, Hollande propõe-se reduzir selectivamente a idade da reforma para os 60 anos, isto depois de uma gigantesca luta para a fazer passar para uns meros 62 anos.

A cereja em cima do bolo é a intenção de taxar os rendimentos acima do milhão de euros (em França não são assim tão poucos como isso) a 75%. Considerando as contribuições sociais, tal representará quase 90%. O efeito desta intenção já se está a fazer sentir: os franceses mais ricos começaram a mudar as suas residências para Londres, para a Suíça ou mesmo para Hong Kong. Paris tem os seus encantos, mas não vale ficar sem quase todo o rendimento.

O candidato socialista tem, contudo, uma vantagem: é sincero. Uma das razões por que propõe estas medidas é porque "não gosta de ricos". Tão simples - e tão francês - como isso.

A França é, em muitos aspectos, uma contradição irresolúvel. Ao mesmo tempo que tem o maior número de empresas privadas no Top 500 da Fortune por comparação com os seus parceiros europeus, é um dos países do mundo onde é mais baixa a popularidade da economia de mercado. Como escrevia recentemente a revista The Economist, "a França beneficia da riqueza e dos empregos que as suas companhias globais criaram, ao mesmo tempo que denuncia o sistema que permitiu o sucesso dessas empresas".

Não é uma contradição recente. Como notou François Furet, o grande historiador da Revolução Francesa, já os jacobinos de 1793, "de quem se esperava que abrissem o caminho à burguesia, deram-nos o primeiro exemplo de burgueses que detestam os burgueses em nome de princípios burgueses". Desde então o ódio antiburguês tem estado bem presente na cultura política francesa, desde os reaccionários de sempre, nostálgicos dos tempos da aristocracia, aos eternos revolucionários, submetidos a uma obsessão pela igualdade que, por definição, é sempre inatingível. O desabafo anti-ricos de Hollande é apenas uma interpretação moderna de sentimentos que ainda hoje são dominantes, sobretudo entre os eleitorados de Marine Le Pen (extrema-direita) e Jean-Luc Mélenchon (extrema-esquerda).

Em França, também notou Furet, "a ideia de revolução não existe apenas como ideia de passagem de um regime a outro [...], mas como uma cultura política inseparável da democracia, e como ela inesgotável, sem limites legais ou constitucionais". Tem sido por isso que o país se tem revelado tão difícil de reformar, tem sido por isso que cada pequeno passo no sentido de tornar a França mais parecida, digamos, com a Alemanha, é sempre recebido com manifestações gigantescas, senão mesmo com estradas bloqueadas e barricadas.

Custa assim a entender a argumentação dos que vêm dizendo que será mais ou menos indiferente o resultado das presidenciais. Ou, para ser mais exacto, que não há razões para preocupações, já que Hollande tratará de não cumprir as suas irrealistas promessas eleitorais. É uma perspectiva tão cínica como difícil de engolir. É como acreditar que, desta vez, Sarkozy "será diferente". Ambas revelam o grau de desespero que suscita um país aparentemente empenhado em transformar-se num problema ainda maior do que a Espanha. Um país que se recusa a ver a realidade, que não quer entender que a sua economia não é suficientemente rica para suportar o seu generoso Estado social (apesar do Estado já absorver 56% da riqueza nacional). Um país que parece totalmente impreparado para realizar as reformas que permitiram à Suécia (nos anos 1990) e à Alemanha (nos anos 2000) saírem de crises que muitos disseram insuperáveis.