Seguro propõe juízes itinerantes para evitar "sacholadas" no interior

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Seguro foi a Vinhais propor uma alternativa ao encerramento do tribunal: juízes do tipo "João Semana" ADRIANO MIRANDA

Jornadas parlamentares do PS arrancaram em Bragança com palmas a Sócrates pelas acessibilidades da região. Economia e emprego são os temas escolhidos, mas foi a cor do interior que se revelou mais viva

As visitas ao país real têm vantagens. Os deputados e líderes políticos, quando por lá passam, aproveitam para ver a realidade com todas as cores, vozes ou expressões. Foi o que ontem aconteceu aos socialistas que visitaram Vinhais com o secretário-geral, António José Seguro.

A primeira manhã das jornadas parlamentares socialistas tinha-se gasto numa cave de um hotel em Bragança a debater os "Desafios de Portugal no Contexto Social" e "Emprego, Formação e Qualificação". Cerca de 40 deputados - mais de metade da bancada - foram ouvir o presidente do grupo parlamentar, Carlos Zorrinho, o líder da UGT, João Proença, o deputado Francisco Assis e a ex-ministra do Trabalho, Helena André. No entanto, foi a tarde que abriu as portas do interior aos socialistas, que se dividiram em seis visitas por aquele distrito.

Seguro foi a Vinhais para se encontrar com o autarca, Américo Pereira, que entre outros temas abordou a proposta governamental de encerramento de tribunais. Foi depois da colorida intervenção do presidente da câmara que Seguro lançou para cima da mesa a sua contraproposta sobre o assunto. O líder socialista quer ver os juízes a fazer o que os médicos faziam no século passado por esse interior fora: "Em vez de se encerrarem tribunais, como o Governo pretende, por que razão não se faz ao contrário, mantendo-se os tribunais com os serviços mínimos que devem ter e, em vez de serem os cidadãos a deslocar-se para os concelhos vizinhos (com as suas testemunhas e advogados), são os magistrados que se deslocam de outros tribunais para fazerem julgamentos e sessões?"

"Mesmo no que respeita a custos com combustíveis, haveria aqui um benefício", justificou Seguro. À porta do tribunal - já depois de o ter pesquisado ao pormenor, a ponto de testar manualmente a qualidade da tapeçaria da sala de audiências -, o socialista defendeu a "justiça de proximidade". Proposta simples com resultados imediatos de poupança, assegurou. Para o socialista, fazia muito mais sentido "deslocar uma pessoa em vez de deslocar dezenas ou centenas", o que aconteceria caso o Governo avançasse com o encerramento dos tribunais na lista já definida - poupança não onde o Governo pretendia, mas onde Seguro considerava mais importante: no bolso dos portugueses. "O que está em causa é a vida das pessoas", asseverava Seguro.

Uma frase que tinha outra força depois de ouvir Américo Pereira, advogado eleito autarca, assumir os seus receios em relação às pretensões do Governo. Traçou um cenário hipotético, porventura aproveitando o típico estereótipo das desavenças entre vizinhos à conta de um pedaço de terra. Aplicando a têmpera rija dos transmontanos à possibilidade de uma justiça cada vez mais longínqua, anteviu o regresso da lei do sacho: "Uma deslocação a Bragança, para uma sessão num julgamento, custará sempre na ordem dos 200 euros. Se isso acontecer, num conflito entre vizinhos, uma das partes ainda poderá pensar que é melhor e mais eficaz dar uma sacholada no outro do que ir para Bragança para julgamento."

Era a resposta colorida à colocação do tribunal de Vinhais na lista negra dos condenados a fechar. Ou não se estava perante "um palácio da justiça do melhor que há", perguntava Pereira já depois de lembrar que ali havia entrado num ano o dobro de processos que o Governo definia como critério para encerramento.

Coisas que o Governo não via, mas que devia ver, nas palavras de um Zorrinho ontem mais inspirado para o soundbyte, logo no arranque das jornadas. "O primeiro-ministro e o Governo têm cada vez maior dificuldade em sair do escritório de contabilidade que montaram em São Bento e em se confrontarem com a realidade do terreno", atirou o ex-governante antes de fazer um "apelo contra a arrogância política" da equipa de Passos Coelho.

Mesmo assim, os deputados que compareceram ao primeiro dia de trabalhos ainda tiveram alguns momentos do típico politiquês sentado. Como a intervenção de João Proença sobre o profundamente "desumano" que é a suspensão das reformas antecipadas e os travões aos "mecanismos de flexibilidade" nas empresas. Ou ouvir a ex-ministra do Trabalho falar do "acidente de percurso" que era o memorando da troika porque o verdadeiro debate que se impunha era sobre que "modelos de desenvolvimento queremos".

Ainda assim também houve momentos mais animados. O campeonato das tiradas contra o Governo começara com Mota Andrade, deputado e presidente da federação do PS/Bragança. "Sempre que a direita chega ao poder é um pesadelo para o interior do país", desabafava, para depois pedir palmas pelo trabalho feito pelo Governo de José Sócrates nas acessibilidades da região. Citou até a música Maria, dos Xutos e Pontapés, para mostrar como estava desactualizada em relação à Bragança do século XXI. E também que não deve ser grande fã de Tim, pois falou de dez horas "de distância", em vez das nove que banda cantava demorar "de Lisboa a Bragança" em 1988.