Três PORTUGUESES ATRÁS DE doze NEVEIROS

A neve é toda igual, é branca e pouco mais há a dizer, certo? Errado. A equipa de Gonçalo Vieira esquadrinhou a neve, o gelo e a paisagem dominada pelo frio, tudo por causa dos efeitos do aquecimento global

Pedro Pina e Gonçalo Vieira trocam de lugar, um sai do buraco que tem estado a abrir no gelo, o outro escorrega lá para dentro. "Vais continuar a cavar?", interroga Carla Mora. "Quero ver o que se passa aqui em baixo", responde-lhe Gonçalo Vieira, quase só com a cabeça e os ombros de fora da abertura rectangular.

É gelo maciço, por isso o interior da cova é azulada. Ao acumular-se, a compressão torna-o mais cristalino e surge essa tonalidade. "Isto, sim, é gelo cristalino", constata Gonçalo Vieira, geógrafo físico, sobre o que se passa no fundo do buraco, de onde tira entretanto dois blocos com a picareta.

"É espectacular!", diz Carla Mora, também geógrafa física, a observar agora os blocos por uma lupa. O que ela examina é gelo tão compactado que as bolhas de ar foram expulsas e só restou uma ou outra. "Escudero, Escudero", diz uma voz saída do rádio que os três portugueses levaram para o meio do nada, em caso de emergência.

Este nada é o Sul, a Antárctida. Ou melhor, a Península Antárctica. Depois do pequeno-almoço na base de investigação chilena Professor Julio Escudero, que recebeu durante três semanas os três portugueses na Ilha do Rei Jorge, arquipélago das Shetland do Sul, eles fizeram-se ao caminho de moto-quatro, pela estrada enlameada pelo degelo da neve no Verão austral, por vezes cortada por riachos. Chegados a certo ponto, ao fim de um quarto de hora, as motas ficaram para trás, o caminho fez-se a pé.

Subiram-se e desceram-se montes de rochas soltas em lascas, atravessaram-se grandes manchas de neve, teve-se cuidado para não cair, nem escorregar no gelo que derrete, e tentou-se não pisar musgos e líquenes, a única vegetação na terra já liberta de neve.

Lá em baixo, ao longe, sobressaíam os módulos encarnados da base científica do Uruguai, isolada e não muito longe da frente do glaciar Collins (que tapa grande parte da ilha), em permanente desabar no oceano, igualmente de um belo azul pela compactação do gelo. O que será que anda a fazer Vanessa Rei, do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, a outra portuguesa na ilha, que veio estudar a cooperação científica e internacional na Antárctida e está alojada na base uruguaia?

A paisagem é uma manta de retalhos, brancos da neve e negros do solo. O único ruído, que nunca pára, é o do vento - a que por vezes se sobrepõe o pio de um moleiro, aves acastanhadas que planam a poucos metros ou se deixam ficar na neve, quase sempre indiferentes aos seres humanos. Ou das gaivinas-do-árctico a esvoaçarem, esbranquiçadas, asas parecidas com as das andorinhas, que viajaram desde lá de cima até cá abaixo, ao Sul.

Eis os três portugueses de volta do buraco no gelo. Tinham começado a cavá-lo uns dias antes, numa das 12 manchas de neve que seleccionaram no planalto da Meseta Norte, na Península de Fildes, a maior área mais livre de gelo na Ilha do Rei Jorge durante o Verão. Assim que chegaram à ilha, calcorrearam-na até escolherem os 12 neveiros, como chamam às manchas de neve, que se mantêm de ano para ano ou derretem mais tarde no Verão.

"Estamos a tentar chegar à neve permanente", explicava, quando se aproximaram do buraco, Gonçalo Vieira, do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, o chefe da equipa, pela quinta vez na Antárctida. "Ainda deve haver um bom metro de gelo. O ideal seria chegar ao solo, mas não vamos conseguir." Ao que Carla Mora, do mesmo centro, dizia: "É horrível, uma pessoa bate, bate e só sai um bocadinho."

O início da aventura em torno do buraco está relatado no blogue do Programa Polar Português (http://www.propolar.org), coordenado por Gonçalo Vieira e que, na campanha entre Novembro de 2011 e Abril de 2012, envolve 20 cientistas em projectos distintos, desde os pinguins e a forma como as alterações climáticas afectam a sua dieta até à adaptação dos peixes antárcticos ao frio. "Resolvemos abrir um buraco que chegasse até à neve mais antiga. Encontrámos gelo maciço, logo uns 40 centímetros abaixo da superfície. Passámos literalmente uma hora e meia a picar gelo e furámos até 70 a 80 centímetros. Sempre gelo maciço. Estamos curiosos com o que estará por baixo e em saber se iremos encontrar algum horizonte com sedimentos, ou apenas mais gelo maciço", relatou o geógrafo no Diário de Campanha deste projecto de investigação, o Snowchange. "Deixámos o buraco aberto e voltaremos para cavar. Estamos curiosos, mas quase não sinto os braços de tanto picar."

Mas porquê este buraco no gelo?

Esta manhã, a última vez que iam visitar os 12 neveiros - antes do regresso a Lisboa num voo alugado por Portugal e aberto a cientistas estrangeiros, a primeira contribuição logística do país numa campanha -, a dura tarefa iria continuar por conta de Pedro Pina, engenheiro de minas do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, munido de pá e picareta, enquanto Gonçalo Vieira e Carla Mora tinham outros planos.

Mais subidas e descidas pelas encostas de neve e rochas, e foi noutra mancha de neve que os dois geógrafos estacionaram. A pá de jardim e a espátula eram ferramentas essenciais: à vez, Gonçalo Vieira e Carla Mora rasparam a sujidade em cima da neve trazida pelo vento, pedacinhos de líquenes incluídos. "Estamos a tentar recolher os sedimentos. Somos varredores de neve", brincava ele.

E guardavam as partículas de sujidade acastanhada, misturada com flocos de neve, em sacos de plástico, como preciosidades. "Os neveiros agem como concentradores da matéria orgânica. Se não fosse a neve, este material espalhava-se de forma mais homogénea pela paisagem", explicava.

Mas porquê guardar a sujidade das manchas de neve?

"Se tiverem muito frio, podem ir cavar com o Pedro", provocava o geógrafo. Com três pares de meias, em pleno Verão antárctico, os pés até não sentiam muito frio. Nem as pernas ou o tronco do corpo, com várias camadas de roupa, que nos faziam sentir como sanduíches. Mas as mãos, o nariz e os lábios, apesar do passa-montanhas, sim. O céu, esse, era de chumbo.

Tapado pela encosta do outro lado, Pedro Pina estava num momento de pausa. Sentado num degrau escavado à beira do buraco, almoçava os energéticos frutos secos e passas que dão na base Julio Escudero aos cientistas que vão trabalhar no campo. "Já não chego com os pés ao fundo", contou assim que viu gente. Pouco depois, os dois geógrafos aproximaram-se também com dez sacos de neve com sujidade e juntaram-se a Pedro Pina. Foi então que Gonçalo Vieira, que coordena o Grupo de Investigação em Ambientes Antárcticos e Alterações Climáticas, entrou no buraco para indagar o que se passava lá em baixo.

Retomemos o diálogo do início entre Gonçalo Vieira, 40 anos, e Carla Mora, 42, que são casados mas gostam de manter discrição quanto a isso, ele lá em baixo, ela cá em cima, sobre o gelo no fundo da cova. "Estruturalmente, é muito diferente. É possível que seja gelo glaciário que ficou e foi coberto de neve", diz o geógrafo, que afinal já não cava muito mais.

Como diante de uma pauta de música ou um livro cujas folhas foram escritas ao longo das estações do ano, segue-se a descrição das paredes de gelo, com a ajuda de uma fita métrica. "A neve tem uma estratigrafia: consegue-se reconstituir a história do Inverno e do Verão", diz o geógrafo.

"Dos zero aos 14 centímetros são grãos com cerca de dois milímetros e agregados de quatro milímetros a um centímetro." Carla Mora toma notas do tamanho dos cristais de neve num caderno de campo. "Depois há um nível de recongelação, que vai até aos 16 centímetros." Nota-se bem essa crosta de neve que derreteu e voltou a congelar: é mais dura e percorre a parede.

Mais abaixo: "É possível que seja uma recongelação do último Inverno. Vêem-se aqui os canais." Ao derreter, a água infiltrou-se verticalmente gelo adentro. "Carla, podes dizer que este horizonte tem canais até aos 61 centímetros. E aos 61 centímetros há gelo maciço."

A leitura não acaba, e agora o geógrafo observa outro pedaço à lupa. "É gelo maciço, transparente, com vários níveis e bolhas de ar de dois a três milímetros. Queres ver, Carla? Está espectacular." Continua a leitura por aí abaixo, até se atingir o fundo, a 1,77 metros. "Este buraco é muito giro. Está espectacular. Carla, hás-de vir cá dentro, vale mesmo a pena, é incrível."

Mas, afinal, porquê tudo isto, desde recolher pozinhos por cima da neve até à viagem no buraco no gelo? Porque Gonçalo Vieira e o seu grupo de investigação querem perceber certos efeitos das alterações climáticas.

Há Há mais de uma década que o geógrafo investiga o solo congelado pelo menos durante dois anos, ou permafrost , no quadro do aquecimento global da Terra. A Península Antárctica é dos locais que estão a aquecer mais depressa: desde 1950, a temperatura média anual do ar subiu 2,5 graus. Por isso, o permafrost aproxima-se de uma situação crítica na região e, caso a temperatura atmosférica continue a subir, pode sofrer mudanças drásticas.

Até há uma década pouco se sabia sobre o solo congelado na Antárctida. Criou-se entretanto uma rede mundial de monitorização e os dados recolhidos pela equipa de Gonçalo Vieira em várias ilhas da Península Antárctica, por exemplo em perfurações onde tem deixado termómetros e outra instrumentação, contribuem para essa rede. Têm registado uma tendência de aquecimento, essencialmente no Verão, nos primeiros metros do solo, a camada que se funde e volta a ficar congelada no Inverno e abaixo da qual se encontra o permafrost . "Estamos numa região muito sensível às alterações climáticas. Há algumas décadas tinha condições para o permafrost existir até ao nível do mar, mas actualmente não tem. Pensa-se que o limite do permafrost está a subir."

Ora os neveiros desempenham um papel importante na distribuição do solo congelado. Para compreender melhor essa distribuição e a paisagem influenciada pelo frio, a equipa de Gonçalo Vieira quer estudar em detalhe as manchas de neve, mesmo que tal signifique uma viagem a um buraco. "Por um lado, estudamos o estado das temperaturas do solo, mas também todos os factores que influenciam essas temperaturas. A neve é um dos factores essenciais. No Verão faz com que o solo permaneça mais frio", explica. "Estudamos a neve nesta ilha, para tentar perceber a sua distribuição espacial, as suas propriedades e, com isso, compreender melhor a distribuição espacial do permafrost ."

A ideia é melhorar a detecção da neve por satélites, distinguindo-a do que está no terreno à volta, e usar essas imagens no estudo de grandes áreas de permafrost . Mas para isso é preciso recolher dados no campo que permitam calibrar as imagens. "Precisamos de boas amostras no terreno para termos a certeza de que vemos neve nas imagens de satélite", diz Gonçalo Vieira. "Podem ser muito bonitas, mas às vezes são muito diferentes do que se passa no campo", acrescenta Carla Mora, que, além dos efeitos das alterações climáticas sobre o permafrost , se interessa pela detecção remota da neve. É aqui que entra também a área de trabalho de Pedro Pina, que se dedica ao processamento de imagens de satélite da superfície de planetas, principalmente de Marte. Nas imagens, interessa-lhe aperfeiçoar a distinção entre diferentes tipos de cobertura do solo terrestre, o que possibilitará caracterizar melhor a superfície de outros planetas e luas (a equipa ainda inclui o espanhol Julio Martín, da Universidade de Vigo, que ficou na base chilena, pois os planos para usar uma câmara que desenvolveu com várias bandas, numa leitura mais refinada do terreno, saíram furados).

Em saídas anteriores, os neveiros tinham sido alvo de outro tipo de atenções, tal como os terrenos à sua volta. Num dia de tempo mais antárctico, como dizia um deles, dedicaram-se a medir os contornos das manchas de neve, que serão comparados com o que aparece nas imagens de satélite. "Aquele é um dos nossos neveiros, não é?", perguntava Gonçalo Vieira. "É, é, lá em cima", confirmava-lhe Pedro Pina.

Munidos de GPS, Gonçalo Vieira e Pedro Pina andaram nas medições dos limites de cada neveiro, ora dando uns passos, ora parando para o registo, e assim sucessivamente, enquanto Carla Mora ia confirmar se o sensor de temperatura que tinha ficado enterrado em cada um continuava no sítio. "A neve pode ser mais húmida, a zero, um ou dois graus, ou ter menos água e estar a temperaturas negativas. Para nós, é mais importante que esteja húmida, porque consegue identificar-se nas imagens de radar dos satélites", explica a geógrafa.

Dessa vez o chumbo do céu chegou à terra. A paisagem que passava pelos óculos, indispensáveis como protecção da radiação ultravioleta, teimava em vir cravejada de gotículas. Ou se limpavam, ou nem se via bem onde se estava a pôr os pés.

Noutras saídas, tiraram as coordenadas geográficas com o GPS do que encontraram fora da neve, ainda para calibrar as imagens de satélite: musgos, líquenes, rochas. Abriram buracos na terra e recolheram amostras, para estudar as partículas de solo e perceber a sua origem - tal como farão às partículas de sujidade que recolheram por cima da neve. Com os dados da vegetação e das partículas de terra e sujidade, a equipa quer também confirmar uma hipótese: os neveiros são hotspots de biodiversidade, em particular de musgos e líquenes. Aprisionam sedimentos trazidos pelo vento e, ao derreterem, acumulam nutrientes no solo e fornecem água.

Nalguns dias, o tempo estava tão mau que Carla Mora chegou a desabafar no Diário da Campanha que também escrevia no blogue: "Trabalhar no campo hoje foi horrível. Estava muito vento, cerca de 60 a 70 quilómetros por hora, com muita chuva." Nada, no entanto, que o cenário lá em cima não acabe por compensar, pela tranquilidade que transmite mesmo com a ventania. Pela sensação de que se perdeu a noção do tempo. Pela visão, ao longe, das ondas do turbulento estreito de Drake, a passagem entre a Península Antárctica e a Terra do Fogo.

Mas agora, ainda de roda do buraco grande no gelo, as prioridades são outras. "Eh, pá, as camadas vêem-se muito bem. Vou sentar-me", diz lá de dentro Pedro Pina, que voltou a descer e está a fotografar as paredes. "E agora como vou sair? Não consigo levantar-me." Dão-lhe a mão - e começam a deitar pazadas de neve no buraco, que disfarçam os vestígios desta intromissão na paisagem. Cinco horas depois de estarmos ao vento, ao frio e parados na neve, agora sim, os pés estão enregelados. a Veja o diário em http://static.publico.pt/home page/naorelhadaantarctida/

Sugerir correcção