Constelações humanas

Melvin Moti tem merecido a atenção da imprensa especializada
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Melvin Moti tem merecido a atenção da imprensa especializada

Objectos de vidro e desenhos constroem em "Echo Chamber", do holandês Melvin Moti, um mapa de ressonâncias, ligações, encontros. Para lá do tempo e do espaço, num diálogo com a obra de outro artista, a história da arte e a experiência do espectador. José Marmeleira

A Kunsthalle Lissabon, em Lisboa, continua com uma programação internacional estimulante. Depois de Mounira Al Solh, Wilfredo Prieto, Ahmet Ögüt e Pilvi Takala, é vez de Melvin Moti (Roterdão, 1977), artista cujo trabalho tem merecido a atenção da imprensa especializada (nomeadamente da "Artforum" e da "Frieze") - a julgar por "Echo Chamber", que pode ver-se até dia 24, com justiça. Esta exposição, a primeira individual de Moti em Portugal, lida com questões antigas (a originalidade, a história e os limites da arte) sem qualquer intenção programática. A subtileza, o humor e a inteligência dominam.

Num primeiro momento, encontramo-nos diante de objectos enigmáticos. Rugosas esferas de vidro, desenhos geométricos, um diagrama sobre pontos coloridos na parede. O que são? De quem são? A referência a planetas, astros ou mapas parece evidente, mas a melhor entrada para "Echo Chamber" é o título. "Foi uma palavra que encontrei num livro da [escritora britânica] Zadie Smith", revela o artista. "É um espaço mental, onde um autor consegue encontrar outro autor. Porque as questões que ele coloca são as mesmas que outros colocaram. E eu experimento isso enquanto artista". Neste caso, as questões (comuns) têm a ver com a procura da singularidade. "Quero surpreender-me e aos espectadores. Há uma luta constante para sentir confiança na minha obra e nos seus processos. Mas confiança a mais também pode ser negativa, há sempre o perigo de me repetir".

Entre a exploração de uma individualidade e o reconhecimento de que as questões ecoam na História, Melvin Moti descobriu a obra de Ludwig Gosewitz, obscuro artista alemão do movimento Fluxus: "Há três anos, vi uma série de objectos de vidro numa exposição e fiquei fascinado. Não eram muito bonitos, pareciam estranhos naquele contexto e comecei a investigá-los". Conhecido sobretudo pelos seus desenhos geométricos, Gosewitz, um apaixonado pela astronomia e pela astrologia, começara a trabalhar com vidro na fase final da sua vida, ensinando o seu uso e produzindo esculturas. E foi essa mudança de direcção, essa descoberta de uma nova abordagem, que inspirou as esferas de "Echo Chamber". Produzidas com o apoio do VICARTE - Vidro e Cerâmica para as Artes, da Faculdade de Ciências da Universidade Nova, representam planetas imaginários. "Queria explorar a criação de formas e superfícies e tinha como referência os planetas. Quando olhamos para as suas superfícies podemos dizer que de que são feitos. Sempre gostei dessa informação geológica".

Para lá do tempo e do espaço

As outras obras não se afastam do imaginário cósmico e espacial. Cinco desenhos do próprio Gosetwiz representam diagramas astrológicos que assinalam a posição das estrelas. Dito de outra forma, o artista compõe horóscopos da sua família e dos seus amigos. Sobre a parede, uma obra de Moti: uma imagem abstracta do mapa do cérebro humano combina-se com uma profusão de pontos coloridos. "É um mapa de estrelas, concebido através de uma leitura espectral. Diz-nos de que substâncias são feitas. E com o mapa do cérebro criam o diagrama de uma constelação", esclarece, antes de sublinhar "Não quero pensar a relação do homem com o cosmos. O que me interessa é a conexão entre diferentes mentes, a possibilidade de nos ligarmos a outro artista, de passarmos pelos mesmos processos. Uma conexão para lá do tempo e do espaço".

A história de Ludwig Gosewitz não foi a única a fazer Melvin Moti escavar o passado. Uma tela do pintor inglês do século XVIII Joshua Reynolds e uma visita de soldados soviéticos a um Hermitage vazio durante a Segunda Guerra Mundial (no filme "No Show", de 2004) também despertaram, por acaso, novas obras. E quando escrevemos "acaso" é a sério. "É assim que começam os meus trabalhos", diz. "No fim, posso acabar em arquivos e bibliotecas, mas nunca é lá que as coisas começam".

Para além dos objectos, dos desenhos e dos filmes, também a escrita caracteriza a produção de Moti. Alguns livros estão disponíveis para consulta na Kunsthalle Lisssabon: "Na cultura em que vivemos, em que domina o visual, as pessoas precisam de palavras, de informação. A relação entre palavras e imagens está muito desequilibrada. É muito complicado ler imagens, queremos palavras. É uma relação problemática, mas tento lidar com ela. Por outro lado, é importante para mim dar essa informação, em vez de ser o curador ou a instituição a fazê-lo. Garanto uma relação mais estável". E sem qualquer pré-orientação: "Os meus livros não têm instruções. Dentro da minha obra, há a exposição dos trabalhos e o momento privado que é a leitura. Paradoxalmente, os meus livros tentam resistir ao excesso de informação."

Melvin Moti acredita em conexões, não apenas entre artistas, mas entre os indivíduos (através da capacidade para verem imagens, como no filme "The Prisoner"s Cinema", 2008), e entre o leitor e o autor de um livro. "A literatura, ao contrário do cinema e da arte, é a forma mais directa de entrar na mente, na imaginação de um autor. Não há nada entre o leitor e as palavras que alguém escreveu. E quando nos apercebemos de que o autor tem as mesmas preocupações, sentimo-nos menos sozinhos apesar de todas as distâncias e diferenças".