Seis anos depois, o grupo de Vasconcellos e Mora entrou em declínio?

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Nuno Vasconcellos (em cima) e Francisco Balsemão travam hoje uma guerra aberta pelo controlo da Impresa, o grupo que inclui, entre outros, a SIC, o Expresso e a Visão. Nos tribunais correm vários processos que ambos levantaram um contra o outro. A Ongoing está também, por exemplo, a exigir a Nicolau Santos, do semanário de Balsemão, uma mega-indemnização por uma opinião contrária ao grupo emitida na sua coluna de opinião semanal, considerada ofensiva.Ricardo Salgado foi o grande impulsionador da entrada do grupo na PT em 2006 PEDRO CUNHA

O projecto de Rafael Mora e Nuno Vasconcellos para criar um grande grupo de telecomunicações, media e tecnologias pode ter entrado em agonia. A crise mundial pôs em evidência as fragilidades da Ongoing. A PT, que tem sido a sua bomba de oxigénio, já anunciou que será menos generosa com os accionistas. Mora, considerado o estratego, afastou-se dos holofotes. Vasconcellos continua a dar a cara pelo projecto António Mexia, o homem forte da EDP, tem sido um dos grandes apoiantes de Vasconcellos e Mora, cujos serviços de consultoria procura desde que esteve na Galp nos anos 90"Percebi que Mora é muito inteligente e competente.(...) Já pelo Nuno tenho apreço" pela tentativa de recuperar o grupo familiar, diz Eduardo CatrogaJoe Berardo é amigo dos dois sócios e diz sobre a Ongoing: "Tudo aquilo é um bocado estranho. O que eu sei é que o segredo dos negócios é sempre a informação."

Nuno Vasconcellos e Rafael Mora têm sido aves migratórias: ora estão em Lisboa, ora estão em São Paulo ou no Rio de Janeiro. A seguir rumam a Madrid. E já foram a Pequim. São o símbolo de uma época, marcada pelo culto da imagem e do dinheiro fácil, pela busca de influência. Os bastidores da actividade da Ongoing (que detém o Diário Económico) sempre despertaram curiosidade. Começou por ser um veículo do BES na Portugal Telecom mas, com o tempo, foi escapando à sua órbita. Nos últimos meses, surgiu envolvida em polémicas que juntam partidos, maçonaria e ex-espiões. Bem ao estilo de Mário Conde, que, nos anos 1980, "fascinou toda uma sociedade durante sete anos", como se lê em O Banqueiro de Rapina, crónica secreta de Mário Conde, de Ernesto Ekaiser.

É verdade que as influências criam solidariedades, mas não resolvem os problemas. A ambição pode ser traiçoeira? Os amigos desvalorizam as críticas. Outros sorriem quando o tema é a Ongoing. Um financeiro considera: "A montanha pariu um rato."

O estilo de actuação de Mora e Vasconcellos ou afasta ou aproxima. Quando estão em causa os seus interesses, fazem sair a artilharia pesada. Implacáveis.

Para este retrato da empresa, o PÚBLICO tentou várias vezes obter esclarecimentos de Nuno Vasconcellos e Rafael Mora, presidente e vice-presidente da Ongoing, que não se mostraram disponíveis.

Ao longo de vários meses, para compreender a sua ascendência meteórica, o PÚBLICO interrogou amigos, colaboradores, personalidades que, por diferentes razões, com eles se cruzaram. António Ramalho, José Galamba de Oliveira, Eduardo Catroga, Alípio Dias, Cunha Vaz, Carlos Barbosa, Filipe Pinhal, Joe Berardo, Alfredo Casimiro, Raul Mascarenhas, Miguel Relvas foram alguns dos que aceitaram prestar declarações. Houve quem declinasse. O padrinho de casamento de Mora, Luís Sá Couto, à frente da Andersen Consulting nos anos 1990, foi contactado, mas não atendeu o telefone. Outros não compareceram a encontros.

Antes de começar a desfiar as contas deste rosário, há que recuar até ao final da década de 1980. Só assim se pode traçar o perfil dos dois gestores. Com a adesão de Portugal à CEE, a economia liberalizou-se e o negócio das consultoras prosperou. A atmosfera era de forte pressão competitiva. Em 1989, Cavaco Silva, então primeiro-ministro, pôs em marcha o programa de privatizações, vendendo parte do Totta & Açores.

Em Espanha, o banqueiro Mário Conde era o homem do momento. Aos 39 anos já liderava o Banesto, em confronto com as famílias tradicionais. Os jovens idolatravam-no.

Foi nessa época que Vasconcellos, que hoje tem 47 anos, e Rafael Mora, alguns meses mais novo, se conheceram em Lisboa, na Andersen Consulting (AC), actual Accenture. Vasconcellos viveu na Bélgica e nos EUA, dos 11 aos 18 anos. Mora é licenciado em Economia e Gestão pela Universidade de Málaga, filho de um médico. Antes de aterrar em Lisboa, há menção a uma breve passagem pelos Açores, a prestar serviços na empresa de electricidade, a EDA, onde, apurou o PÚBLICO, não deixou marca. "Não era vulgar um espanhol pedir para vir trabalhar para Lisboa quando os negócios estavam em Madrid. Por isso nunca percebemos como chegou a Lisboa ou se a decisão partiu dele", contou um ex-colega da AC, que vive no estrangeiro: "Mora destacava-se por ser arguto e mostrar uma inteligência fora do habitual. Como era espanhol, falava muito e muito alto. Era impossível não se dar por ele." Já Vasconcellos "passava despercebido".

A chegada de Mora a Lisboa coincidiu com a vontade de Madrid de incentivar os empresários locais a avançar para Portugal. Entre 1990 e 1993, Mário Conde comprou acções do Totta & Açores e, nos bastidores, disputou o controlo à revelia do Governo português. A meta era criar um grande banco ibérico.

Em 1992, Mora e Vasconcellos foram destacados para prestar serviços no Totta. Alípio Dias era o presidente: "Eram trabalhadores, tinham visão e davam sugestões. Eram baratinhos. Mas Mora era malandreco e picava o Nuno, que era até quem levantava muitas questões, mas não sobressaía." O "Mora [chefe de Vasconcellos] era sagaz e tinha jogo de cintura, o que é importante neste mundo, enquanto o Nuno era mais puro". O ex-CEO lembra que "tinham ânsia de progredir e iam sempre ao encontro do que o cliente lhes pedia. Se querem bónus, dão bónus". Quinze anos após a Revolução, os dois distinguiam-se "por se apresentarem muito penteadinhos", com o look molhado dos yuppies nova-iorquinos, estrelas em Wall Street. A Mora, nos corredores do Totta havia quem lhe chamasse "El Gominas" ("O Brilhantina"), inspirado em Mário Conde, que usava gel no cabelo.

O célebre banqueiro espanhol, hoje todos sabemos, navegava em águas turvas. Foi actor de uma novela que envolveu mulheres e conspirações, maçons, políticos e secretas, que usava para espiar os rivais e recolher informações sobre os negócios em que se envolvia. Na sua ânsia pelo poder, Conde (autor das "supercontas" que tanto furor fizeram) não dispensou a tomada de posições na comunicação social. Detido em 1994, por gestão danosa, saiu em liberdade em 1999.

Alípio Dias, aliado de Conde na luta pelo domínio do Totta, considera o banqueiro espanhol "um estratego brilhante" e dá como provável que tenha sido uma "inspiração" para os dois jovens quadros da AC. Hoje, vê "ingredientes comuns" na estratégia seguida pela Ongoing.

"Há um ano, cruzei-me com o Nuno na Quinta Patiño e disse-lhe: "Tiro-vos o chapéu. Vocês têm tido um percurso fantástico"", conta. E lamenta "não ter tido a argúcia de prever a influência que iam ter. Foi falha minha".

Nos meses que antecederam a saída de Mora e de Vasconcellos da AC, "fomo-nos apercebendo de que eles estavam a preparar qualquer coisa, mas não sabíamos o quê. Apenas contaram que havia um nicho de mercado mal explorado e que iam apostar nele". O actual presidente da Accenture em Portugal, José Galamba de Oliveira, acrescenta: "Tivemos pena, pois eram excelentes profissionais. Pessoalmente, gostei imenso de trabalhar com o Nuno, que se dedicava de corpo e alma ao trabalho. Com o Mora, trabalhei menos."

A Andersen Consulting era, na época, a principal consultora, através da qual a dupla conhece muita gente. É aí que os futuros sócios começam a relacionar-se com os jovens quadros da Universidade Católica, que na década seguinte tomam o poder.

Em 1995, Mora faz as malas e vai para a Ray Bernelston, onde se mantém o tempo necessário para lançar a Heidrick & Struggles (H&S), filial da caçadora de cérebros norte-americana. Pouco depois, Vasconcellos junta-se ao ex-chefe.

O presidente da empresa Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, Raul Mascarenhas, ex-Andersen Consulting, evoca: "Fui chefe do Nuno e ele tinha todas as capacidades. Estava numa grande consultora a fazer currículo, para depois ir gerir os negócios da família. Já o Rafael tornou-se amigo do Nuno e acabou por ser o seu conselheiro." Não é por acaso que o Jornal de Negócios considerou, em 2011, Mora o 17.º mais poderoso da economia portuguesa, deixando de fora da lista Vasconcellos.

Os dois sócios têm um pacto de sangue. Quem os conhece bem conta que se tratam por "irmãos" e cumprimentam-se com um beijo. Mora é o "Rafa" e o "Rafa" dirige-se, por vezes, ao sócio por "Nuninho".

Raras vezes a conjugação de interesses terá unido duas pessoas com propósitos tão claros: ganhar força e notoriedade. O português é determinado e tem a ambição de replicar a história empreendedora do avô paterno, accionista da Sociedade Nacional de Sabões (SNS), João Rocha dos Santos. O espanhol é um corredor de fundo, dois passos à frente do interlocutor. Nuno tem umarede familiar e de amizades essencial nos negócios. Um auditor que em 1993 se cruzou com eles não tem dúvidas: "Mora é uma força da natureza com duas palavras-chave: tudo é uma questão de acesso e de influência." Numa primeira fase, a meta era entrar no meio dos que fazem negócios usando um instrumento poderoso: a H&S. A partir daí, estariam criadas as condições para aceder às altas direcções das empresas.

Abril, 2002

Caça-líderes

António Guterres passa a pasta a Durão Barroso. Na viragem do século, o pequeno mundo da consultora começa a estender-se à esfera partidária, onde há margem de recrutamento de políticos com pouca ocupação. Jorge Coelho, ex-ministro das Obras Públicas de Guterres, está disponível, e aceita o convite para trabalhar na H&S "até 2006, 2007, não sei bem". Coelho, que desempenhava um papel central no PS, salienta que "era muito amigo do pai do Nuno [Luís Vasconcellos, número dois da Impresa] e foi ele que criou as condições para eu ir trabalhar com eles". "Pelo Nuno tenho estima, pois conheço bem. O Mora pior, mas tenho boa opinião". "Nos últimos tempos não os tenho visto", salienta, evitando pronunciar-se sobre as recentes polémicas. Em 2008, Coelho entrará na Mota Engil.

Em 2003, o ex-ministro de Guterres Pina Moura era deputado em regime de não-exclusividade. Sem posto de trabalho fora de São Bento, foi convidado para ser consultor da H&S e transitou para a Ongoing quando foi criada. Daí a um ano assumia a presidência da Iberdrola Portugal e um lugar na Media Capital, propriedade do grupo espanhol Prisa.

O ex-ministro Eduardo Catroga e Mora foram apresentados há seis anos. "Eu pertencia ao Conselho Geral e de Supervisão (CGS) da EDP e ele estava na H&S e percebi que é muito inteligente e competente." O novo chairman da EDP, que participou em reuniões de quadro da Ongoing, avançou que conheceu o "Nuno no Expresso e, mais tarde, através da Isabel Rocha dos Santos, minha vizinha na Comporta. Por ele, tenho apreço, nomeadamente pela tentativa de recuperar a veia empreendedora dos antepassados". Sobre as últimas controvérsias, diz: "É cedo para tirar conclusões, mas desejo todo o sucesso, a bem da economia portuguesa."

Fevereiro, 2004

Compromisso Portugal

A 10 de Fevereiro de 2004, no Convento do Beato, em Lisboa, cerca de mil quadros, entre gestores, empresários, advogados, políticos, juntaram-se para assistir à primeira convenção do Compromisso Portugal. Entre os que, naquela manhã, pisaram a passadeira vermelha, estiveram Mora e Vasconcellos. Um dos oradores reconhece que "havia o desejo de cortar com as gerações no poder e facilitar a subida dos que estavam na casa dos 40".

Não é claro em que contexto a H&S passou a liderar os contactos com os promotores do Compromisso Portugal, mas o movimento permitia reforçar a ligação aos futuros dirigentes.

O certo é que, dias depois da conferência do Beato, a H&S entrou em campo. De lá vão partir, nos meses seguintes, dezenas de emails a dar conta de novas iniciativas.

Junho, 2004

Acesso às grandes empresas

Durão Barroso estava de partida para Bruxelas, Santana Lopes assumia o poder e convida António Mexia para ministro das Obras Públicas. Mora e Vasconcellos sabem cultivar as relações que interessam. Mexia, que à frente da Galp, entre 2001 e 2004, usou os serviços da H&S, manter-se-á fiel e abrir-lhes-á as portas de grandes empresas tuteladas pelo Estado. Em 2009, uma iniciativa do Diário Económico com a H&S, elegeu-o como o "CEO em destaque" e, recentemente, na qualidade de consultor da EDP, Mora veio defender o actual modelo de remuneração, que atribui a Mexia um salário anual que pode ir até 4,2 milhões de euros/ano.

Antes do final do ano, Jorge Sampaio convoca os eleitores. Era urgente lançar o novo primeiro-ministro. É nesse momento que Mora se torna mais interventivo a promover as acções do Compromisso Portugal e, a 27 de Outubro de 2004, através do seu email pessoal, aborda mesmo, com os promotores, detalhes logísticos relacionados com um almoço-debate programado para o Restaurante Girassol, no Hotel Altis, em Lisboa.

Em 2005, Mora enfrenta um acontecimento trágico: de viagem para o Algarve, ao volante, tem um acidente com uma vítima mortal e, desde aí, quase não conduz. Sentado ao lado ia o empresário Alfredo Casimiro, proprietário do Grupo Urbanos, considerado pela H&S, em 2010, a melhor empresa para trabalhar em Portugal: "É verdade que anda de motorista, mas para quem tem uma vida agitada, significa ganhar 20% do tempo."

Março, 2005

Polémica com CTT

José Sócrates ganhou as eleições. A onda era, agora, favorável aos socialistas. Os dois sócios lançam os braços ao PS, onde, aliás, já têm pontes: Pina Moura e Jorge Coelho. Nos anos seguintes, privam com o círculo de Sócrates e têm ligações especiais a Mário Lino, ministro das Obras Públicas, que confirmará e ampliará contratos assinados por Mexia. Em meados da década, a H&S estava presente na TAP, ANA, PT, EDP, Águas de Portugal, CTT, Carris, Estradas de Portugal.

Quanto mais negócios ganham, maior é o escrutínio. Vasconcellos e Mora vão ser acusados de actuarem, por vezes, em conflito de interesses: escolhem os quadros para as empresas, que depois os contratam para trabalhar como consultores, entregando-lhes a definição da política de vencimentos.

Mas a vitória do PS abriu também as portas à mudança de cadeiras. Nos CTT, Carlos Horta e Costa é substituído por Luís Nazaré. Pouco depois, Raul Mascarenhas, da equipa de Nazaré, tropeça num contrato "faraónico" assinado com a H&S, e que previa uma avença mensal superior a 150 mil euros. Isto, além das remunerações extras. A factura total ascendia a 3,2 milhões de euros. "Considerámos que os serviços não eram necessários e rescindimos", contou Mascarenhas, que conhecia os dois sócios da H&S. Uma auditoria da Inspecção-Geral da Obras Públicas (IGOP) aos CTT não deixou dúvidas: "Existem fortes indícios" de facturação paga à H&S, entre 2002 e 2005, por trabalhos nunca prestados.

A meio da década, Ricardo Salgado, presidente do BES, está por todo o lado. O banqueiro construíra à sua volta uma aura de gravidade que ajudava a completar a imagem de poderoso, herdeiro de uma família de banqueiros na quarta geração.

6 de Fevereiro de 2006

OPA da PT, a grande oportunidade

O ano vai começar com um mau presságio para o BES. A Sonae avança sobre a PT e põe em causa interesses instalados. Na operadora, a convivência com os Governos revelava-se estruturante. O que se passou nas horas seguintes é premonitório: na administração da PT partem-se cadeiras - literalmente. O empresário Patrick Monteiro de Barros exige ao BES a execução do contrato de put option de 2% da PT (venda das acções ao preço pré-fixado). Para substituir Monteiro de Barros, Salgado chama Vasconcellos que, pouco depois, aparece com 2% da ESFH (20 milhões) e 2% da PT (200 milhões).

A escolha da família Espírito Santo era natural. Vasconcellos é cunhado do secretário-geral do BES, Bernardo Espírito Santo, e o padrasto, militar de carreira, James Risso-Gill, trabalhou na área imobiliária do GES. Foi ele quem sugeriu a Vasconcellos que frequentasse, nos EUA, um colégio militar, de dois marines.

Data, portanto, do início de 2006 o discurso: "Sou o herdeiro de uma família muito rica ligada à Sociedade Nacional de Sabões."

Um gestor que trabalhou com o avô Rocha dos Santos confessa como ficou surpreendido: "Começámos a estranhar, pois a família não era maioritária na SNS e quem mandava eram os Beirão da Veiga, o que não quer dizer que não tivessem dinheiro, mas não chegava para investir na PT." Mais tarde, soube-se que a Societé des Banques Suisse (SBS), no início, o BES e o BCP financiaram as várias tomadas de posição na PT.

Na baixa lisboeta, a poucos quilómetros da sede da PT, havia outra guerra por travar. Desde o Outono de 2005 que Mora colaborava com o presidente do BCP, Teixeira Pinto, na refundação do grupo. Um mês depois do "ataque" da Sonae à PT, era, agora, a vez do BCP se atirar ao BPI.

BPI na mira do BCP

No banco de Fernando Ulrich, Mora e Vasconcellos não eram desconhecidos, pois, em 2000, a H&S reorganizara serviços do BPI. Mora é casado com Alexandra Barbosa, actual directora do banco, a quem os colegas não poupam elogios: "Ela esteve a lutar contra a OPA do BCP com o mesmo empenho que nós", diz um alto quadro. Por seu turno, Vasconcellos é marido da "Xandinha", Alexandra Mascarenhas Vasconcellos, que passou também pelo BPI.

No Tagus Park, Teixeira Pinto e Mora apostavam num novo modelo de governação dualista (que agora vai ser anulado), que se revelou o gatilho que mostrou divisões entre accionistas e dentro da administração. Estavam criadas as condições para a OPA ao BPI falhar (Maio de 2007). Entretanto, a OPA à PT ainda rolava e os episódios multiplicavam-se. Um deles com vários protagonistas. António Cunha Vaz, na altura assessor da Sonae, conta: "Estava a almoçar e ouvi, noutra mesa, o Luís Ribeiro Vaz contar que uma parte do dia estava no gabinete de Mário Lino, de quem era chefe de gabinete, e a outra com a Ongoing a montar a estratégia contra a OPA. Como sou fiel ao meu cliente, contei-lhe que o adjunto do ministro, com quem Paulo Azevedo discutia os detalhes da OPA, era o mesmo que tinha encontros diários com a Ongoing para se opor à Sonae."

Cunha Vaz garante que só conheceu Mário Lino a meio da OPA da PT. A cena podia ser tirada de um filme: "Um dia, ao sair do duche, no ginásio, cruzei-me com o ministro que estava vestido apenas de boxers a despachar com o assessor. Dirigi-me a ele e disse-lhe que era melhor não tratar daqueles assuntos ali, pois eu tinha ligações à comunicação social e estava a ouvir."

Hoje, Cunha Vaz, que passou a trabalhar com a Ongoing em 2008, já não poupa elogios aos actuais clientes: "Estão a ser alvo de ignorância e má-fé, quando deviam ser de orgulho. À boa maneira portuguesa são motivo de crítica e inveja."

Na Maia, sede da Sonae, a equipa de Paulo Azevedo faz saberque a Ongoing é o cavalo de Tróia do BES para não deixar fugir o controlo da PT. Jorge Neto, deputado do PSD, surge a liderar uma associação de pequenos investidores e pede a António Lobo Xavier, da Sonae, que clarifique a proposta. Lobo Xavier responde: "Sim, mas antes a Sonae terá de entrar para a associação, pois é um pequeno investidor da PT." O deputado declina. O segredo era de polichinelo. Já depois de a OPA falhar, o líder da CMVM, Carlos Tavares, acusa Jorge Neto de "representar vergonhosamente apenas um grande accionista da PT - a Ongoing". O deputado considerou Tavares "imparcial" e, anos depois, no quadro do inquérito parlamentar ao caso PT/TVI, entusiasmou-se: "O Nuno vai ser a grande referência empresarial do século XXI, um dos maiores empresários dos próximos 30 anos."

2 de Março de 2007

O estrelato

Era expectável. Com a ajuda do Estado, a OPA sobre a PT não chegou ao mercado. Há fotografias dos dois sócios a saírem da assembleia-geral da PT triunfantes. Como recompensa, o BES apoia a ida de Vasconcellos para a administração da PT, para onde viria também a entrar Mora.

Não é fácil definir com exactidão em que momento das suas vidas Vasconcellos e Mora começaram a delinear um projecto com a intenção de ganhar força e notoriedade. Mas pode dizer-se que até à OPA da PT - que os catapultou para o estrelato -, o percurso profissional foi feito à margem dos holofotes. A partir deste momento, Vasconcellos passou a falar em nome da empresa: punha o dinheiro, conduzia a locomotiva. Mora definia a táctica. É uma época em que o espanhol frequentava regularmente a Embaixada de Espanha.

A história da Ongoing é, assim, a de dois amigos unidos pela vontade de singrar. Nos três anos seguintes ganhou vida própria e escapou, em parte, à órbita do BES. Um amigo fez esta avaliação: "O Nuno faz o papel do Salgado que é defender os interesses do clã, do qual ele se considera o chefe." E, salienta, "começaram a copiar o estilo do Salgado numa versão modernizada." Menos discreta, com mais carros e espiões. E sem o Banco de Portugal a vigiar as suas acções.

2006

Loja Mozart

Em Portugal há cerca de 5000 maçons, entre eles Vasconcellos e Mora, este último ligado à maçonaria espanhola. Em 2006 os dois amigos decidiram ajudar a dinamizar a loja Mozart n.º49, da Grande Loja Regular de Portugal (GLRP). Jorge Silva Carvalho assumiu as funções de "venerável mestre" até 2008, quando foi substituído por Nuno Vasconcellos. Nessa época, Luís Montenegro, hoje presidente da bancada do PSD, filiou-se na Mozart.

Vasconcellos é sincero. À revista Sábado disse: "Não vale a pena dizer" que a maçonaria "não tem poder", mas "há clubes de futebol com mais influência". Fora de questão é confirmar a pertença à Mozart. "Só quem tem funções oficiais o deve fazer."

Os acontecimentos recentes, com a publicação já este ano, pelo PÚBLICO, de um email a convocar os irmãos para um debate com o mundo profano, expuseram a simbiose de interesses articulados através da Mozart, onde estão empresários, espiões, polícias, políticos, jornalistas. Numa linguagem maçónica, os "irmãos", onde se incluíam sete quadros da Ongoing, são convocados para um debate com o "mundo profano". A Ongoing reagiu logo: "A Ongoing não é a maçonaria."

As relações entre filiados vão mais longe. As estratégias de poder não dispensam ligações a fóruns informais. Vasconcellos, por exemplo, está no Instituto Luso-Àrabe e na Associação Portugal Marrocos. E, a 9 e 10 de Junho de 2008, Neto da Silva, Vasconcellos, Nuno Manalvo, Vasco Rato, Álvaro Covões, todos da Mozart, viajaram até Washington para participarem nas celebrações do Dia de Portugal, em nome da Associação de Amizade Portugal/EUA. No site da organização, a EDP aparece como exclusive sponsor.

2007

Hora de ponta

2007 foi um período dourado para Mora, pois havia a ideia de que se preparava para controlar o maior banco português. E isto, não era irrelevante. Às vezes, a sede da H&S, no Edifício Tivoli, em Lisboa, parecia a hora de ponta. Para falar do BCP, apareciam Filipe Botton, a família Lacerda, Manuel Fino. Ricardo Salgado saía do seu gabinete e atravessava a pé a Avenida da Liberdade para se reunir com eles. Zeinal Bava ia tratar da PT.

Nas grandes empresas, como no BCP de Teixeira Pinto, Mora tinha livre-trânsito. Mas também era olhado de lado. Um dia um ex-gestor do BCP cruzou-se com Mora e lembrou-se de uma conversa contada, no final dos anos 80, por dois experientes banqueiros do Banco Popular Espanhol, que desconfiavam do protagonismo de Mário Conde. "Ao verem passar Conde com o seu habitual gel no cabelo, Rafael Termes e Luis Valls Taberner comentaram um para o outro: "Está visto que isto de banca não é para cabeças brilhantes, mas para pessoas normais como tu e eu."

A presença da H&S no BCP começava a suscitar dúvidas. Em Julho de 2007, António Rodrigues, ex-CFO do banco, inquiriu a H&S nos EUA: "Quis saber se era admissível que a filial em Portugal se metesse na política de interesses do BCP, pois prestava consultoria e ao mesmo tempo os sócios apareciam nas listas para a gestão." Além disso, o BCP tornara-se o seu maior credor da Ongoing.

Para o ex-gestor do BCP, Filipe Pinhal, "os relacionamentos agora conhecidos [maçonaria e secretas] abrem uma nova perspectiva sobre o que aconteceu no BCP". Pinhal integrou a equipa de Jardim Gonçalves, associado à Opus Dei, e opunha-se à de Teixeira Pinto. Pinhal, Rodrigues e Dias são arguidos no processo BCP.

Joe Berardo esteve ao lado da Ongoing, na PT, na luta contra a Sonae, e no BCP, batalhou pelo afastamento de Jardim Gonçalves. Dos dois amigos só tem bem a dizer. "São bons profissionais. Sou amigo do Mora e o Nuno tem experiência, herdou um grande nome, tem ligações aqui e no Brasil, é afilhado do Balsemão e tem laços familiares ao Espírito Santo. Têm tudo para correr bem."

Teixeira Pinto, entretanto, acabará por deixar o BCP, em 2008, e assumir funções de consultor da Ongoing. Em 2010, fundou a editora Babel, que vendeu, no ano seguinte, à Ongoing. Teixeira Pinto não respondeu ao contacto do PÚBLICO.

Final de 2007

Apetite pelos media

Na revista Exame, a família Rocha dos Santos estreava-se na lista dos mais ricos de Portugal, na 21ª posição, com um património de 312 milhões. Mas as dívidas da Ongoing atingiam os 800 milhões de euros e os lucros 40 milhões. Hoje, a holding aparece no rol da troika dos 50 maiores devedores da banca portuguesa.

O Brasil tem sido um destino eleito dos dois sócios. As viagens a São Paulo, no final da década passada, eram de estrondo. Por vezes, faziam-se acompanhar de uma comitiva de executivos e convidados a quem ofereciam uns dias de luxo. Um deles contou ao PÚBLICO que "à espera, no aeroporto, estavam limusinas com vidros escuros antibala" e os hospedavam nos hotéis mais caros de São Paulo, no Fasano ou no Unique. Os serões "incluiam charutadas" e quem desejava tinha extras, o que podia tornar-se desconfortável. "Era um filme!"

Do outro lado do Atlântico, os dois sócios entraram no círculo do ex-chefe da Casa Civil de Lula da Silva, José Dirceu, colunista dos jornais da Ongoing no Brasil, um homem considerado poderoso por causa dos seus conhecimentos e o principal arguido do caso Mensalão. A sua agenda telefónica vale milhões. Vasconcellos, Mora ou, por exemplo, Miguel Relvas estão entre os amigos. E as sociedades de Dirceu (Oliveira e Silva/Lilian Ribeiro e JD Consultores) e o gabinete nacional LSF & Associados, parceiro do brasileiro, prestaram serviços à Ongoing.

Final de 2008

Grandes projectos

A crise financeira rolava com força nos mercados. Mora e Vasconcellos são figuras públicas e não escondem sinais de riqueza. Ao volante de um Bentley de duas portas, que fez chegar da Grã-Bretanha, num contentor especial, Mora faz-se notar. "A mulher evitava andar nele pois era ostensivo", lembra um vizinho no Belas Clube de Campo, para onde o casal se mudou quando deixou o apartamento de Cascais. A casa de Belas, adquirida a Eusébio Simões, dono da Sumolis, foi posta à venda por dois milhões de euros. No ginásio do Ritz, o cacifo de Mora destacava-se por ser dos poucos a ostentar o seu nome.

Já Vasconcellos, que vive na Quinta Patino, comprou a prestações o seu primeiro carro, um Porsche. Mas já conduziu um Aston Martin, a marca preferida do agente secreto 007 e, agora, tem um Ferrari.

30 de Junho de 2008

Entrada na Impresa

Quase em simultâneo, Vasconcellos anunciou que tinha 6,07% da Impresa e que comprara o Diário Económico e o Semanário Económico, por 27,5 milhões, cerca de 100% mais do que o oferecido pela Sonae.

Os investimentos generosos chamaram a atenção do advogado de Isabel Rocha dos Santos, accionista da Ongoing e mãe de Vasconcellos. Nesse Outono, Manuel Castelo Branco aconselhou a cliente a fazer uma auditoria independente às contas da holding e alertou-a para o que chamou de "estratégia demasiado agressiva de Rafael Mora". Mãe é mãe. "Ela é de uma extrema cordialidade e muito activa e foi, naturalmente, falar com o Nuno", contou um amigo. E o filho não gostou.

Nesse fim de tarde, nos escritórios de advocacia de Lisboa, foi o diz que disse. Vasconcellos e Mora apareceram de rompante no gabinete de Castelo Branco. Houve gritos e ameaças. Castelo Branco, que perdeu a cliente, recusou "falar no assunto".

Último dia de 2008

Balsemão inquieto

A Ongoing apresentou-se como o segundo maior accionista da Impresa (18,2%). Balsemão surpreende-se com a dimensão da posição, mas não com a decisão de reforçar. Quando, antes, Vasconcellos lhe deu conta da intenção, respondera-lhe: "Antes tu, que outros. Com mais de 10% devias nomear um administrador e gostava que fosses tu."

A presença da Ongoing na Impresa era natural. Havia uma ligação histórica, mas também uma parceria entre a H&S e a Impresa, que ajudou a promover os dois sócios. Fonte da Impresa conta: "Não tínhamos departamento de recursos humanos, delegamos na H&S funções na área dos recursos humanos, como o recrutamento de quadros."

Alguns jornalistas do grupo não dispensaram, portanto, o crivo da consultora. As chefias eram, mesmo, avaliadas por uma psicóloga especializada em stress. "Às vezes, no final das sessões, o Mora e o Nuno apareciam." E tanto podiam abordar temas sérios, como manter conversa mais solta. A situação criou desconforto entre os analisados.

2009

À conquista do Brasil

O ataque à Impresa ia partir de onde menos se esperava. Logo após ter lançado o Económico Brasil, com direito a fotografia com o presidente Lula da Silva, Vasconcellos apareceu com 22% da Impresa e, do ponto de vista de Balsemão, abriu as hostilidades. Um amigo da família Rocha dos Santos tem esta interpretação: "Quando o pai morreu [18/1/2009] o Nuno não gostou de ouvir o Balsemão, durante as homenagens, dar a entender que era ele, que tinha a última palavra na gestão. O Luís não só era co-fundador do Expresso, como geria o jornal." Para alguns, foi o "móbil" da viragem na relação entre afilhado e padrinho.

O folhetim TVI, envolvendo a PT, a Média Capital (TVI) e a Ongoing colocou na praça pública as relações de proximidade da Ongoing com o governo socialista. O objectivo era controlar um canal de televisão generalista. Não sendo possível fazê-lo através da PT, a Ongoing acordou com os espanhóis a compra de 33% da Média Capital por 100 milhões de euros, alavancados no BCP. E avançou com um trunfo: a contratação de José Eduardo Moniz para vice-presidente da Ongoing. A CMVM impediu a Ongoing de ficar, em simultâneo, na Impresa (22%), e na Media Capital (35%), o que travou o negócio.

O confronto era esperado. A Ongoing reclamava agora de Balsemão o controlo da gestão e prometia ao fundador a presidência não executiva da Impresa. "Sou amigo do Nuno e do Mora e sei que estão a viver um momento de troca geracional que às vezes não corre bem, pois quem está acima não aceita", notou Alfredo Casimiro, que diz ter "respeito" por Balsemão. "Mas há ali um conflito que ele não está a ser capaz de gerir."

Primeiro semestre, 2009

CGD questiona Ongoing

A presença de Vasconcellos e Mora na PT, como accionistas, gestores e consultores, ficou marcada por polémicas. Soube-se, por exemplo, que entre 2007 e 2008 a PT pagara à H&S mais de 5,5 milhões de euros por serviços prestados - um cliente da H&S gerara uma facturação média de 350 mil euros por colaborador. Um valor bem acima do habitual neste tipo de consultoras, que facturam, em regra, 150 mil euros por trabalhador.

E, em Julho de 2009, numa reunião de administração da PT, o representante da CGD, Jorge Tomé, denunciou haver quem actuasse em surdina. Por que razão o Fundo de Pensões da PT aplicara, por ordem do gestor Soares Carneiro, 75 milhões de euros, em fundos de alto risco da Ongoing, sem ouvir o Comité de Investimentos?

A acção da CGD agitou os bastidores da PT e a controvérsia só terminou com a saída de Soares Carneiro para a Ongoing em São Paulo. Tomé abandonou o Comité de Investimentos da PT. Meses depois, em Fevereiro de 2010, em declarações à Visão, falando deste episódio, o presidente da PT Henrique Granadeiro fez uma observação extraordinária: "Fui encornado!" Soube-se, ainda, que o BES, com 180 milhões, e o Montepio Geral, com 30, seguiram as pisadas da PT e deram ânimo à Ongoing, para se expandir sem dívida.

Vésperas das eleições legislativas. As baterias estavam voltadas para Sócrates, acusado de alegadas irregularidades no caso Freeport. Antes das eleições, Mora fala com a gestão da SIC, a quem aconselha a "evitar entrar na guerra com Sócrates", para salvaguardar as parcerias com a PT e a Zon (onde o Estado e a Ongoing eram parceiros).

Dias mais tarde, o espanhol regressa à SIC, mas agora acompanhado de Vasconcellos. Um alto quadro do canal de televisão contou: "Sustentarem a tese de que havia uma campanha montada contra Sócrates e garantiram que tinham provas, envolvendo a jornalista que, no Sol, escrevia sobre a matéria". Fonte da SIC esclareceu: "Não falamos sobre temas privados."

O que é a Ongoing?

Nesse mês de Outubro, depois de anunciar o lançamento do Brasil Econômico, a Ongoing comunicou que tinha entrado, como grande investidor, no fundo Benfica Stars Fund, que gere os passes de 12 jogadores, avaliado em 40 milhões. Na Impresa, o braço-de-ferro entre accionistas continuava. Seis meses depois de entrar para a administração, Vasconcellos demitia-se. Os processos já rolavam nos tribunais.

Primavera, 2010

Novos investimentos no Brasil

Uma vez no Brasil, a Ongoing preparava novos investimentos. No primeiro dia do mês, as notícias dão conta da contratação de Carmelo Furci, vice-presidente da Telecom Itália (que já saiu do grupo) para liderar os projectos na América Latina. Um mês depois, adquiria o grupo editorial Dia: o Dia, a Meia Hora e os desportivos Marca e Campeão. "Somos o terceiro maior grupo de imprensa brasileiro, com uma audiência de 3,5 milhões de pessoas e uma tiragem de 400 mil exemplares", explicava, então, Vasconcellos.

"Os petistas estimularam a Ongoing a implantar no Brasil uma rede de comunicação alinhada com o governo de Lula da Silva para diminuir o poder dos grandes grupos privados de media", escreveu a Folha de São Paulo sobre os investimentos do grupo nos media.

Entretanto, o caso Face Oculta continua a ser notícia, com a divulgação de conversas entre Rafael Mora e Armando Vara, então vice-presidente do BCP. O Correio da Manhã menciona, ainda, um contacto com responsáveis do banco para "renegociar" e "reestruturar" a dívida da Ongoing, ao BCP para "aumentar a posição" na Impresa.

Joe Berardo continua sem perceber o que é a Ongoing: "Tudo aquilo é um bocado estranho. O que eu sei é que o segredo dos negócios é sempre a informação." Ter acesso a uma televisão pode ser irresistível e as escutas da Face Oculta mostraram a vontade da Ongoing em tomar posição neste sector, o que acabou por nunca acontecer. Na sequência, os dois sócios vão prestar contas a São Bento.

Outubro, 2010

A pergunta de Branquinho da Fonseca

"O que é a Ongoing? É um grupo de media? É uma das questões que mais tem atravessado a discussão sobre as questões da liberdade de expressão", perguntava com ar de espanto o deputado do PSD Agostinho Branquinho a Vasconcellos no Parlamento. Oito meses mais tarde, o deputado abandonava São Bento para ingressar na Ongoing Brasil.

"É uma pessoa que tem total disponibilidade para ir para o Brasil e que percebe muito de media e de televisão", justificou Mora. À Sábado, em Dezembro de 2011, Vasconcellos elogia-o: "Foi uma surpresa, é um excelente gestor. A alcunha dele é Capitão Nascimento da Tropa de Elite: missão dada, missão cumprida."

17 Novembro de 2010

Silva Carvalho prepara ida para Ongoing

Dois dias antes da cimeira da NATO em Lisboa, Jorge Silva Carvalho, aos 44 anos, pede a demissão de director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED). A 19 de Novembro, o Sol associou a demissão de Silva Carvalho a contestações internas por "manter relações privilegiadas a alguns grupos económicos, nomeadamente, à Ongoing".

18 Novembro de 2010

Tensão no aeroporto

Aeroporto de São Paulo. O voo da TAP para Lisboa estava atrasado. Entre os que, naquele dia, viajaram em executiva estavam banqueiros, gestores, empresários, advogados... Manuel Castelo Branco e Nuno Vasconcellos estão entre eles. Conta quem assistiu: "As pessoas amontoavam-se à entrada do avião que estava completamente cheio, e o Castelo Branco dirigiu-se ao Nuno e estendeu-lhe a mão, mas ele reagiu de forma violenta. O Nuno disse-lhe que ele e o Balsemão andavam a denegrir a imagem da Ongoing em Moçambique e que sabiam tratar dos inimigos." Dois meses depois, Castelo Branco deixou o escritório absorvido pelo espanhol Cuatrecasas.

Descrito como destemido, Vasconcellos "bate-se por aquilo em que acredita". Um amigo evocou a propósito: "Nos anos 90, numa discoteca, reparou num tipo que olhava para a "Xandinha". Avançou e deu-lhe uma cabeçada." Já este mês, o Correio da Manhã reproduziu uma conversa com Vasconcellos: "Três vezes por semana faço ginástica. Também pratico boxe, kickboxing e vale tudo, com o meu mestre."

3 de Dezembro de 2010

Ministério Público brasileiro abre processo

O Ministério Público brasileiro suspeita da Ongoing e avança com uma investigação onde acusa o empresário português de usar "um artifício para burlar a Constituição" brasileira, que proíbe o controlo por estrangeiros de jornais, revistas, emissores de rádio e televisão. Em causa está a Ejesa, com sede no Rio de Janeiro, detida em 70% por Alexandra Vasconcellos. Nuno Vasconcellos, que tem os restantes 30%, alega que está casado com separação de bens, o que prova que as acções são da luso-brasileira. O processo acabou arquivado.

17 e 18 de Dezembro de 2010

Reunião de quadros

Nesse fim-de-semana, o grupo reúne os quadros na Fundação Oriente. O líder da Ongoing comunica que desafiou Silva Carvalho, presente na sala, para trabalhar com ele, e que este ia ponderar.

Na plateia está um grupo de ilustres colaboradores: Agostinho Branquinho, Pina Moura, Soares Carneiro, José António Pinto Ribeiro. Teixeira Pinto discursou e, tal com outros, vestia uma camisola da Ongoing. A surpresa surgiu quando Miguel Relvas, José Luís Arnault e Eduardo Catroga elogiaram, por vídeo-conferência, os sócios. "Sim é verdade que participei, por convite, e fi-lo com gosto, mas nunca trabalhei com eles", explicou Miguel Relvas, para quem "é sempre bom ter um grupo português com capacidade de se internacionalizar".

Sentada no anfiteatro da Fundação Oriente, nessa manhã, esteve a directora de marketing do Brasil Econômico, Evanise Santos, namorada de José Dirceu, a quem Vasconcellos não poupa elogios. "Trata-se de alguém de grande valor não só por conhecer as pessoas que contam, mas também por saber organizar conferências." Nesse fim-de-semana, Dirceu foi visto em Lisboa em trânsito para a Suíça.

Para muitos dos colaboradores, a reunião ficou marcada por dois momentos. Um protagonizado pelo dono da Vida é Bela, António Quina, colunista do Diário Económico. Em tom de brincadeira, quando tomava a palavra, Quina fez menção ao olhar desalinhado de Mora, que distrai os interlocutores.

Para motivar a assistência, foram passados excertos do filme "300", baseado em banda desenhada, e que visa enaltecer a "união e a garra". Um jornalista evocou: "O guião envolvia uma luta entre dois exércitos: um de 300 homens e outro de milhares. A certa altura, a mãe de um guerreiro do grupo mais pequeno volta-se para o filho, de partida para a guerra, e deixa a mensagem: Livra-te de voltares vivo sem ganhares a batalha."

A poucos dias do final de 2010, Marcelo Rebelo de Sousa adivinhava: "A Ongoing está a preparar-se para estar mais próxima do poder político que está de chegada" - o PSD. E concluiu: "A Ongoing é uma empresa muito política." Com efeito, dias depois do encontro na Fundação Oriente, Silva Carvalho anunciou que era assessor de Vasconcellos.

Em 2010, os lucros do grupo totalizaram 235,5 milhões de euros, mais 424% do que o registado em 2009, com o contributo do encaixe da venda da Vivo pela PT. Extraindo os ganhos com associadas, teriam ficado no vermelho tanto em 2009 (menos 4 milhões), como em 2010 (157 milhões).

2011

Crise asfixia grupos nacionais

Até aqui, Mora e Vasconcellos não tinham sido comedidos nem na estratégia, nem no discurso. A 30 de Janeiro, inquirido no programa "Gente que conta", Rafael Mora admite que a Ongoing "vai ser uma placa giratória da comunicação social na América do Sul, África, Portugal." Mora era rápido a pensar. Foi em frente: "E mais! E na Ásia, em Timor, em Macau. E porque não as comunidades lusófonas do Canadá, dos EUA, França ou Suíça?"

Ao Expresso, [26/2/2011], Ricardo Salgado elogiava Vasconcellos: "Sei que está a seguir um percurso bastante positivo no Brasil. Mas não presta contas aos BES."

O modo de actuação da Ongoing suscitava perguntas. No primeiro semestre de 2011, além de Silva Carvalho, a Ongoing já contava com mais três ex-espiões: Paulo Alfaro, ex-SIED, Paulo Félix (que já saiu), ex-SIS, Paulo Santos, um operacional que do círculo próximo do Presidente José Eduardo dos Santos. Em Outubro, Vasconcellos justificou-se: "Quando os contratei não sabia, e continuo sem saber, se pertencem às secretas." E exemplifica com a petrolífera BP que usa ex-espiões nos mercados onde opera.

Abril, 2011

Portugal pede ajuda

Portugal andava zombie, os dois sócios continuavam zen. Nesse mês, em que José Sócrates pediu ajuda externa, comunicaram que tinham 23,86% da Impresa e que planeavam investir 350 milhões de euros até 2014, estando atentos à privatização da RTP.

A crise traduzia-se numa frase: aumento do custo do dinheiro. O modelo de crescimento da Ongoing, sustentado em financiamento bancário, já não era viável. Os créditos que tinham permitido aos dois sócios afirmarem-se na PT, estavam garantidos em acções no pressuposto de que não desciam abaixo da cotação próxima de 6,5 euros. Os bancos exigiam agora que as dívidas fossem 100% colaterizadas ao valor de mercado. A perda progressiva do título, de 40%, era uma ameaça de ruptura.

Mora e Vasconcellos estão agora conscientes do efeito mata-borrão que a PT pode ter na Ongoing. É tempo de mudar de ciclo. No Brasil, o PIB está a crescer 4,5% e o país é a prioridade. A meio de 2011, Mora e Vasconcellos instalaram-se em São Paulo, onde já passam metade do ano.

A época, por cá, adivinhava-se conturbada. Na H&S há sinais de preocupação. Para acautelar os interesses e a independência da consultora, Pedro Rocha de Matos e Pedro Rocha da Silva propõe-se, em vão, liderar um MBO (tomada de controlo por um grupo de quadros). Uma coisa é certa, em matéria de contratações de figuras públicas a Ongoing é campeã. Depois de Jorge Coelho, Pina Moura, de Rita Marques Guedes, ex-chefe de gabinete de Morais Sarmento, coordenadora da carta programática de Passos Coelho, a empresa foi buscar Guilherme Drey, chefe do gabinete de Sócrates, que acompanhou a venda da Vivo, e o ex-secretário de Estado das Finanças, Costa Pina.

Verão, 2011

Rebenta escândalo das secretas

Cá fora fala-se. As secretas eram um "regador". Silva Carvalho tinha aptidões indiscutíveis e talvez se tenha inebriado com a capacidade de fazer coisas. Depois do episódio Bernardo Bairrão (o ex-gestor da TVI convidado e desconvidado para o Governo), o Expresso noticiou que Silva Carvalho acedeu às chamadas telefónica de um jornalista, para saber quem nas secretas falava com ele, e, por outro lado, de passar dados à Ongoing. A Visão noticiou que as buscas aos computadores, continham milhares de ficheiros.

Vão longe os tempos em que Mora, ao DN, considerava Silva Carvalho "um profissional excepcional com capacidades de organização de entrosamento e de conhecimento da economia."

"O Nuno quando convidou o Silva Carvalho deu-lhe a entender que ia ser o seu número dois e o Mora não gostou", observou um ex-colaborador da Ongoing. Por isso, até admite que a saída de Carvalho possa ter sido "o culminar de um diferendo, travado entre homens semelhantes".

Para os amadores das teorias das conspirações há perguntas que só o tempo vai esclarecer. Um elemento da esfera das secretas interroga-se: "Jorge Silva Carvalho saiu da Ongoing mas deixou os dossiers? Em que altura Silva Carvalho se tornou dispensável?" E garante que, antes do Verão, Silva Carvalho prometeu "a uma pessoa dos serviços que, caso ela saísse, lhe arranjaria um lugar na Ongoing. Ela saiu no Outono e ele não a empregou".

15 de Setembro de 2011

Viagens à China

Da costa leste da China, onde assinou um "protocolo de cooperação tecnológica", por concretizar, Vasconcellos atirou-se a Balsemão: "Estou concentrado na salvação da Impresa", que "está numa situação calamitosa". Continua interessado na RTP? "Não participarei na privatização enquanto for accionista daquele grupo". Hoje esta é uma opção que parece adiada.

Três dias depois, o gestor já se cruzava, no Rio de Janeiro, com Miguel Relvas, que participava num encontro da Câmara Portuguesa do Comércio.

E a 28 de Setembro, quando já constava que o casal "divergira", Alexandra Vasconcellos apresentou-se, pela primeira vez, como líder do grupo no Brasil. Ao Ministério Público respondeu: "Muito me admira que no Brasil ainda se questione a competência e o poder de gestão das mulheres. Sou dona da Ejesa e presidente, e tenho muito claro para onde quero levar os jornais que publicamos."

É um "chavão" dizer que os dois sócios se completam. O ainda vice-presidente do BCP, António Ramalho, figura no lote dos amigos: "Eles criaram uma relação pessoal muito boa e vejo com naturalidade o surgimento de empreendedores com história familiar e que se ajustam aos novos tempos com novos actores profissionais." Alfredo Casimiro concorda: "Completam-se muito bem. São grandes empresários, com interesses para além dos media, grandes amigos e evoluíram muito nos últimos anos."

Carlos Barbosa, do Automóvel Clube de Portugal, distancia-se. "O Nuno é de bom trato" e por ele "tenho grande simpatia". Já Mora faz e desfaz, queixa-se. Em 2007 pertenciam ambos à direcção do ACP. Um dia, Mora recusou-se a validar uma decisão já depois de a ter viabilizado. Barbosa ter-lhe-á dito: "Só tens uma solução: sair." Mora deixou o ACP em Abril de 2010 "por discordância", informou Barbosa.

Os estilos de gestão ou aproximam ou afastam. Nove meses depois de entrar na Ongoing, como executivo, o ex-presidente da PT, Carlos Vasconcellos Cruz, bateu com a porta para manter os amigos e evitar confrontos. Ao PÚBLICO só disse: "São duas pessoas por quem tenho amizade pessoal e que conheço há muitos anos."

A guerra com Balsemão continua. Em Novembro de 2011, o ex-director do Expresso observava: "Há falsos empresários de comunicação social que meteram o jornalismo na gaveta." A isto, o líder da Ongoing objectou: "Tenho uma televisão [o Económico TV] por cabo, um jornal, o Diário Económico, que é super independente." E, ao PÚBLICO, disse a frase que incomodou o padrinho: "Não quero mal a Balsemão... Mas não sou manipulável. Pode ter sido o melhor amigo do meu pai, pode ter sido um pai, mas faço aquilo que tenho de fazer contra tudo e contra todos."

Carlos Barbosa considera que a Ongoing "tem dado muitos tiros no pé, e não muito certeiros, o que para o Nuno não deve ser confortável, financeiramente falando. E vai perder." Cunha Vaz retribuiu: "É a pressão das velhas guardas quando chega alguém de novo e com valor, uma empresa sem pés de barro."

Antes do ano terminar a Ongoing Media quer mostrar fôlego e aumenta o capital em 20,5 milhões de euros, mas através da incorporação de activos. Por seu turno, Isabel Rocha dos Santos acompanha uma operação idêntica na ESFH.

5 de Janeiro de 2012

BES desvaloriza relação com Ongoing

No BES, o tom hoje é de desvalorização da ligação à Ongoing. Fonte do grupo sustentou: "Nunca foi tanto como se dizia. Não existe um sentimento umbilical, embora seja certo que a Ongoing nasceu no contexto da OPA, o que fortaleceu as relações." No meio das últimas polémicas, Salgado enviou uma mensagem à Ongoing: "Haja contenção."

Incapaz de levar por diante o grande projecto multimedia, com televisões generalistas, em Portugal e Brasil, e extensões a Angola, onde nunca entrou, a Ongoing pode estar em vias de perder José Eduardo Moniz, que é rei sem coroa, e o ex-director do Diário Económico, Miguel Coutinho, abandonou a holding para ir para a EDP, onde terá a relação com Pequim.

Terá a locomotiva começado a descarrilar? A Ongoing adiou, por uns dias, o pagamento dos salários aos trabalhadores do DE, à espera de receber o dividendo intercalar da PT de 19,4 milhões. A operadora já anunciou que, no futuro, será menos bondosa com os accionistas. Até aqui, os dividendos da PT e da Zon têm permitido à Ongoing renegociar as dívidas à banca e ficar com cash para fazer aquisições. O fim do acesso ao crédito fácil põe em causa o modelo de crescimento seguido.

Os amigos de Vasconcellos e de Mora acreditam que vão dar a volta por cima: "São óptimos profissionais." Os detractores notam que as ligações à política, maçonaria e secretas forjam alianças, mas destruíram a credibilidade. Outros chamam a atenção para os elevados créditos à banca que podem acabar por revelar-se um porto seguro. O que parece certo é que o mega-projecto Ongoing (TMT), tal como foi idealizado, entrou em declínio.