O regresso do estilista esquivo

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Recuperada a perdição de juventude, talvez possamos esperar mais livros. Até porque “agora”, diz, está “enfim mais livre”

Muito novo, Almeida Faria deu sinais de não jogar de acordo com as regras habituais da carreira literária: surgiu cedo e com brado, publicando "Rumor Branco" em 1943, com 19 anos - uma raridade, face à maturidade do livro. Estrelas jovens raramente repetem o feito, mas três anos depois Faria escreveu "Paixão": obra difícil e quase barroca no seu uso da língua, tornou-se livro de culto e ainda hoje é livro de cabeceira de alguma gente atenta à literatura portuguesa. Tinha 22 anos e podia dizer-se que era mais que uma esperança. Veio então o primeiro indício do que se seguiria: um hiato de 13 anos. Quando regressou à edição, com "Cortes" (1978), o país (e respectivo meio cultural) tinha mudado - e o livro permanece hoje como a sua obra de recepção mais dividida. Era a primeira parte da chamada tetralogia Lusitana, que incluiu ainda "Lusitânia" (1980), "Cavaleiro Andante" (1983) e "O Conquistador" (1990). E depois um quase total silêncio. Desde então houve a adaptação de "A Paixão" ao teatro (1998) e uma peça chamada "A Reviravolta" (1999), além de ensaios. Não se deu apenas o caso de secar a fonte literária, foi mais que isso. Desaparecer da agenda mediática seria normal, face à inexistência de novas obras. Mas gradualmente foi sendo menos mencionado pelos colegas escritores, os livros desapareceram das livrarias e se houve gente a querer saber o que era feito dele, foi pouca e deixou escassa notícia do que descobriu. Nada que lhe desagradasse: em conversa telefónica, Faria confessava-nos que tinha deixado "esgotar todas as edições" dos seus livros "propositadamente".

O silêncio é interrompido com "O Murmúrio do Mundo", que não é um romance, antes um livro de viagens. Ainda assim o livro não nasceu de um súbito impulso de regresso à escrita, é uma encomenda: "Sob o lema ‘Os Portugueses ao encontro da sua História', o Centro Nacional de Cultura organizou uma viagem a Goa e Cochim e convidou-me para ser o diarista da viagem", conta.

Em termos estilísticos, o livro representa um salto na sua obra - é mais narrativo e mais ensaístico do que toda a sua produção, mas acima de tudo menos barroco, mais limpo e as longas elipses que usava. Mais que uma opção, "a natureza do livro", reconhece Almeida Faria, "pedia uma linguagem simples - mas já em ‘O Conquistador' procurei a maior simplicidade possível. O que se consegue só com esforço e por caminho custosos", afirma, admitindo que prefere a sua "linguagem de agora" ao "barroquismo de outrora". "Lembro-me sempre do final de um sermão de Vieira em que o grande pregador se desculpava de ter sido palavroso pela falta de tempo para ser mais breve", acrescenta.

Face ao outro

A viagem, em "O Murmúrio do Mundo", é tanto um encontro como um choque face ao outro, face à expectativa do outro: do que resta da Índia que foi colonizada mas também da Índia que hoje se ergue. O choque também se dá face à nossa ideia de nós: se o português projectou na Índia a mais imponente imagem de si enquanto conquistador e descobridor, o escritor português que hoje viaja à Índia encontra os restos do Império, os indícios da fractura na história da expansão portuguesa no mundo.

O livro torna-se, assim, literatura de viagens e ensaio, "além de ter, lá pelo meio, uma ficção fantástica", acrescenta Faria. "Quando finalmente meti mãos à obra, só sabia o que não queria: não queria nem um guia turístico nem um tratado erudito". Não sendo um tratado, é uma obra que confronta o que já foi escrito sobre o tema, citando textos antigos, justapondo-os ao que há hoje. "À medida que avançava tacteando, ia descobrindo o efeito de surpresa causado pelo confronto ou o encontro do meu texto com o texto de outros autores, antigos e modernos, portugueses e estrangeiros", diz.

A obra aborda igualmente temas que derivam da formação de Almeida Faria, a filosofia. Questões como o tempo e a consciência do tempo atravessam o livro. Estes temas "continuam a ser um dos enigmas da nossa existência, por isso a literatura ("À Procura do Tempo Perdido") e a filosofia se ocupam e preocupam tanto com essas questões", reflecte o escritor que para elucidar o escasso conhecimento que os homens têm sobre o "tempo" cita Santo Agostinho nas "Confissões": "O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei."

O computador

Segundo Faria, a filosofia, que ensinou durante anos na universidade, foi, em parte, responsável pela sua escassez de produção. "A filosofia ensinou-me muito mas roubou-me o tempo que eu queria dedicar à escrita. Para não fazer má figura diante dos melhores alunos, todos os anos voltei a estudar Grego antigo, e Aristóteles, Schopenhauer ou Nietzsche, os meus filósofos".

Ainda assim, o escritor não considera que tenha abandonado o romance: "Desinteressei-me foi de certos projectos começados e andei por outras paragens. Nunca senti necessidade de publicar nem cedo à tirania de lançar de dois em dois anos novos produtos literários no mercado". Acrescenta: "Desagradam-me estes rituais actuais em volta do livro", frase justa num homem que rejeita, tanto quanto pode, o mediatismo.

Pode parecer caricatural, mas o surgir do computador também lhe atrapalhou a vida: "Escrever é para mim uma actividade lúdica. As facilidades do computador, quase sem eu dar por isso, permitem-me brincar com frases e palavras. Como sou desorganizado, vou guardando várias versões e depois não as encontro. Já contei que um cunhado meu me aconselhou a voltar a escrever tudo à mão e transformar o monitor do computador em aquário".

Aproveita para confessar que, e ao contrário do que o seu estilo faz parecer, "antes não reescrevia nada": "‘A Paixão' foi escrita de uma só vez e nunca mais revi o manuscrito", diz. Assinala ainda que numa estrutura romanesca, limita-se "a delimitar o quadro temporal da acção: dois dos meus livros passam-se num só dia, outro passa-se num só ano ("Cavaleiro Andante"). Antes de começar ‘O Conquistador' já sabia que se ocuparia de vinte e quatro anos da vida do protagonista, porque D. Sebastião morreu aos vinte e quatro anos". De resto, entrega-se à escrita ficcional "sem nenhum esquema prévio".

Concede, no entanto, que encara os seus livros com alguma "insatisfação" e gosta da palavra que usamos para descrever o seu apurado estilismo: brio. "Brio é uma boa palavra, um tanto antiquada: brio, entusiasmo e vontade de arriscar".

Podia esperar-se que um escritor que se iniciou tão novo fora desde cedo um devorador de romances, mas, segundo conta, passou-se o oposto: "Em Montemor-o-Novo não havia liceu. Até aos 15 anos andei num colégio particular. Como, naquele tempo, os livros eram objectos potencialmente subversivos, nem o colégio nem o município tinham biblioteca. Por isso a minha introdução às letras foi a divisão de orações de ‘Os Lusíadas', muito útil, aliás, e a leitura dos manuais. Romances eram para mim os versos dos romanceiros, e só aos 16 anos, quando fui para o Liceu de Évora onde Vergílio Ferreira era professor de Português, tive a minha iniciação romanesca".

A influência de Ferreira foi imensa. Quando o escritor foi dar aulas para o Liceu Camões em Lisboa, Faria - que estava há um ano e um trimestre em Évora - pediu transferência. "Vim atrás dele, mesmo sabendo que aqui ele seria meu professor de Latim. O que não o impedia de falar de literatura".

O primeiro romance que leu - e no francês original - foi "La Peste" de Camus, "porque ele acabara de ganhar o Prémio Nobel". O segundo, conta, foi "A Farewell to Arms", do Hemingway. "Li-o a custo, em inglês, e continuo a preferir ler livros na língua em que foram escritos, quando a conheço mais ou menos". "Desde aí", conta, "como para o narrador de ‘Os Passeios do Sonhador Solitário', os livros foram a minha perdição".

Recuperada a perdição de juventude, talvez possamos esperar mais livros. Até porque "agora", diz, está "enfim mais livre".