Recurso a junk food em tempo de crise pode aumentar a diabetes

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Ministério da Saúde está preocupado com a "epidemia" desta doença MANUEL ROBERTO

População jovem é a mais afectada. Associação Portuguesa de Nutricionistas propõe plano saudável de ementas no seu site com custo muito baixo

No espaço de uma década, o número de novos casos de diabetes por 100 mil indivíduos quase duplicou: em 2000 eram 377,4 e em 2010 o número aumentou para 623,5 (ver quadro ao lado). A presidente da comissão instaladora da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento, prevê que "o momento de crise não ajude" a inverter a situação de correlação entre a diabetes tipo 2 e a obesidade: "As famílias com menores recursos têm alimentações menos saudáveis." "É urgente haver uma política alimentar bem definida e adaptada ao momento actual de crise", defende.

O último relatório anual do Observatório Nacional da Diabetes, referente a 2010 e apresentado ontem em Lisboa, dá conta de um aumento da incidência e da prevalência da diabetes, explicadas pelo envelhecimento da população, obesidade e sedentarismo. O presidente do observatório, Luís Gardete Correia, explica que este tipo de diabetes - relacionado com os estilos de vida - tem vindo a crescer na população entre 20 e 39 anos, mais afectada pelo aumento de peso: "A hiperalimentação, rica em gorduras e açúcar, e o sedentarismo são os principais factores de risco para a diabetes tipo 2 e Portugal está nos lugares cimeiros na Europa em excesso de peso."

Alexandra Bento apresenta soluções e declara que, com cinco euros, é possível comer de forma saudável. No site da Associação Portuguesa de Nutricionistas (www.apn.org.pt) está disponível um plano de ementas semanal, em que o preço por pessoa para seis refeições diárias é de 23 euros. Por exemplo, uma refeição constituída por um prato de sopa de legumes, frango estufado com ervilhas e batatas cozidas, salada de tomate e uma banana fica por 0,72 euros.

A nutricionista avisa que, apesar de as comidas pré-feitas geralmente estarem "carregadas de sal e de gorduras", "não se pode generalizar". Por seu lado, Gardete Correia admite que a crise faça com que as pessoas procurem um "determinado tipo de alimentos de elevadíssimo valor calórico e baratos [comida conhecida como junk food]". Em declarações à TSF, o especialista refere os refrigerantes e a fast food, "que não têm subido de preço", como exemplos de alimentos mais baratos e mais calóricos.

De acordo com o painel de lares da Kantar Worldpanel, empresa de estudos de mercado, "desde que começou a intensificar-se a crise que se verifica um grande crescimento" da área de take away nas grandes superfícies comerciais. Em 2011, os portugueses compraram mais de 78 milhões de euros em take away, contra 53 milhões em 2009. Em relação à comida pronta refrigerada, cada lar gastou em média 29,27 euros no ano de 2011, quando em 2009 o gasto ficava nos 24 euros.

Pela parte do Ministério da Saúde, o ministro Paulo Macedo mostra-se preocupado com os custos associados à "epidemia" de diabetes: "Não se trata só de uma preocupação com custos, mas uma parte do que se poupar pode ser canalizada para prevenção." O custo médio de um diabético correspondeu, em 2010, a 1881 euros, o que perfaz 1859 milhões de euros para todos os diabéticos entre 20 e 79 anos. Este valor representa 1% do PIB nacional e 11% da despesa em saúde em 2010. Para o governante, importa diagnosticar o que ainda não foi diagnosticado e prevenir a doença quando possível, através da mudança de estilos de vida. "Esta é uma luta que todos temos de assumir."