Os estudantes também "podem ajudar os professores a fazer greve" e montar um piquete

Foto
Muitas escolas fecharam na Grande Lisboa Enric Vives-Rubio

A adesão do ensino superior surpreendeu os sindicatos. Números do Governo para o básico e o secundário indignaram os docentes

Os alunos ocuparam o portão principal, os professores o acesso à garagem. Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, os piquetes de greve não esqueceram quem entra por onde. Uma precaução desnecessária: a maior parte dos alunos e professores desta faculdade nem chegou a aparecer. A meio da manhã não estariam mais de 20 pessoas no interior das instalações. No portão principal, Luís Baptista, estudante de Ciências Políticas, resume assim: "Tem sido um piquete fácil".

A adesão à greve no ensino superior foi a surpresa da greve no sector da educação e esteve em destaque no balanço das federações de sindicatos de professores. A Federação Nacional de Professores registou "fortes adesões de professores" em 12 faculdades e Universidades. Entre elas figuram o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, o Instituto Superior Técnico, e as faculdades de Letras, Arquitectura, Ciências da Educação e Psicologia da Universidade do Porto. "O ensino superior fez a maior greve de sempre", afirmou.

No ensino básico e secundário a adesão dos docentes situou-se entre 60 e 85%, adiantou a Fenprof, e segundo as duas federações, foram centenas as escolas e agrupamentos (existem pouco mais de mil), que encerraram devido à adesão à greve do pessoal não docente. Os professores não pesam nesta decisão. São os funcionários que têm as chaves das salas, pavilhões e portaria, que garantem a segurança das instalações e os serviços das cantinas e bares.

A meio da tarde, os mapas de adesão à greve disponibilizados pela Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público indicam que há "zero" trabalhadores em greve nas escolas do ensino básico e secundário da região de Lisboa.

O Governo não esclareceu se a quantidade de "zeros" naqueles mapas é ou não resultado da ausência de informação reportada pelos vários organismos. Este documento "ultrapassa o limite da decência", denunciou o secretário-geral da UGT, João Proença. Na informação oficial, a Faculdade de Ciência Sociais e Humanas teve "direito" a 35 trabalhadores em greve de um total de 405.

Foi por quererem "ajudar os professores a fazer greve" que um grupo de estudantes desta faculdade decidiu montar um piquete no portão principal, apesar de a paralisação não os abranger, conta Rafael Rostom, estudante de Sociologia. "Para os professores com falsos recibos verdes está a ser cada vez mais complicado aderir", explica. À solidariedade acrescentam outras razões, que os levarão também, horas mais tarde, à manifestação dos indignados e da CGTP. Num cartaz improvisado em cartão, um dos estudantes escreveu: "Foi na rua, a lutar, que conquistámos tudo a que temos direito. Será na rua e na greve que impediremos a sua perda."

Luís Baptista avisa: "Os nossos pais estão a ficar sem poder de compra para pagar as propinas. São quase mil euros. E agora vão cortar-nos o passe escolar. Continuar a estudar está a ser cada vez mais difícil".

No registo minuto a minuto da paralisação, o PÚBLICO on-line dava conta que na escola secundária Camões, em Lisboa, os alunos também fizeram um piquete de greve. À tarde participaram na manifestação com cartazes onde se lia: "Revolto-me, logo existo".

Três das cinco escolas básicas e secundárias de Lisboa por onde o PÚBLICO ontem passou estavam encerrados. As outras duas estavam a funcionar. Em dias de greve, quando as escolas não encerram, há um corrupio que se repete: alunos que entram, saem, voltam depois e tornam a sair. São-lhes marcadas faltas e está é a única forma de saberem que aulas não terão. Ontem não foi excepção.