Witold Gombrowicz: o elogio da imaturidade

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Mais de setenta anos depois da sua edição original, foi agora publicado em Portugal, pela primeira vez e traduzido directamente do polaco, o romance “Ferdydurke”, a obra-prima de Witold Gombrowicz, um dos maiores escritores do século XX

Em 1939, o polaco Witold Gombrowicz (1904-1969) pôde apresentar como uma espécie de "bilhete de identidade de artista" um romance, "Ferdydurke", publicado dois anos antes. Contra aqueles, poucos, que, na azáfama das vésperas da invasão da Polónia pelas forças nazis, ainda tiveram a oportunidade de reparar no romance e de o acusar de imaturidade, ele respondeu que o era por sua própria vontade. A Europa estava em ebulição. E quis o destino (ou um qualquer endinheirado), que por esses dias Gombrowicz tivesse sido convidado a participar na viagem inaugural de uma nova linha marítima transatlântica. O paquete tinha como destino a Argentina, Buenos Aires, onde o escritor se demoraria três semanas. Aceitou o amável convite. Entretanto, Hitler invadiu a Polónia, e Witold Gombrowicz deixou-se ficar por terras argentinas durante mais vinte e três anos.

Não foram, como será de supor, tempos fáceis. Depois de alguns meses na miséria, a viver do que alguns compatriotas lhe dão, consegue arranjar emprego na sucursal argentina de um banco polaco. Continua a escrever nas horas mortas. Muda várias vezes de emprego. Torna-se jornalista, tradutor, professor particular de Filosofia, e vai criando à sua volta um círculo de fiéis. Mas a emigração polaca anticomunista não se interessa pela sua arte. Nem os intelectuais polacos que vivem em Buenos Aires. O meio literário argentino é já então tutelado pelo grupo de Borges, Casares e Ocampo, autores que ele admira mas de quem não se quer aproximar. Com os seus poucos amigos polacos, frequentadores do "Café Rex", começa uma espécie de tradução colectiva do seu primeiro romance, "Ferdydurke", que consegue fazer publicar numa editora argentina em 1947, com um prólogo (que se tornou célebre) onde escreveu: "É um facto que os homens se vêem obrigados a esconder a imaturidade e por isso a sua fachada só mostra o que está maduro. Mas essa maturidade é uma mera ficção. Se não conseguirmos unir esses mundos, a cultura será sempre para o homem um instante de engano. (...) Não vêem que a vossa maturidade exterior é sempre ficcionada e que tudo o que vós podeis expressar não corresponde em quase nada à vossa realidade mais íntima?"

O incessante Kundera

De certa forma, estas linhas conseguem passar a ideia por trás do romance, que narra (em feitos cómicos e eróticos) a transformação de um homem, na casa dos trinta anos, membro da elite social polaca, num rapaz adolescente. Witold Gombrowicz mostra assim o seu interesse na construção da identidade e na maneira como o tempo e as circunstâncias, ou seja, a História e o lugar, condicionam uma forma de viver. Com as críticas recebidas, especialmente dos seus compatriotas, ele afirma que o romance "não se trata de uma sátira a uma classe social nem de um ataque niilista à cultura". Viviam-se então tempos de mudanças violentas, em que formas (sociais, religiosas, culturais) antes aceites se quebram de um momento para o outro debaixo da pressão dos novos estilos de vida. "Há assim a necessidade de encontrar uma forma para o que está ainda imaturo, que ainda não se cristalizou nem se desenvolveu... esta é a verdadeira razão do livro."

O escritor argentino Ernesto Sabato (de quem Gombrowicz era admirador) lê "Ferdydurke" e considera-o "obra-prima"; escreve um prefácio e propõe a sua reedição na Argentina. Entretanto, na Polónia, o regime comunista mantém a censura a esta e a outras obras de Gombrowicz - a excepção, durante pouco tempo, são as suas peças teatrais, levadas à cena com sucesso de público e de crítica.

Um dos primeiros autores a promover fora da Argentina, quase de maneira incessante, Witold Gombrowicz e o seu "Ferdydurke", foi o escritor checo (naturalizado francês) Milan Kundera, que considera o romance uma "obra-prima" do modernismo europeu. Desde os seus famosos ensaios coligidos em "A Arte do Romance", até ao genial "Os Testamentos Traídos", que Kundera inclui sempre o nome de Gombrowicz entre os quatro ou cinco grandes autores do século XX, chegando a afirmar que "Ferdydurke" é uma dessas obras maiores que inauguraram "o terceiro tempo da história do romance fazendo ressuscitar a experiência esquecida do romance pré-balzaquiano e apoderando-se dos domínios considerados outrora como reserva da filosofia." E, comparando-o com "A Náusea", diz que o facto de ter sido o romance de Sartre, e não o Gombrowicz (foram publicados com um ano de diferença, mas um na França e o outro na Polónia), "a tornar-se o exemplo desta nova orientação teve desagradáveis consequências: a noite de núpcias da filosofia e do romance desenrolou-se com um tédio recíproco." Descoberta algumas décadas depois de ter sido escrita, a obra de Gombrowicz (e o mesmo se passa com a de Broch, de Musil e de Kafka) já não teve a força necessária para seduzir uma nova geração de escritores e de leitores e criar um movimento. Para Kundera, aquela que poderia ter sido "a maior viragem da história do romance no nosso século [XX]", acabou por ter passado despercebida.

Em 1963, a Fundação Ford convida Gombrowicz para uma estada de um ano em Berlim. Em 1964 é convidado a visitar a sua Polónia natal, o regime tinha já mostrado alguma abertura, e Gombrowicz era bastante conhecido graças a uma revista (feita fora da Polónia) que circulava debaixo das mesas de todas as universidades e cafés onde se reuniam os opositores do regime. Ele hesita, e por fim recusa. É curiosa a justificação que Kundera, também ele um exilado, encontra: "Desconfiança em relação ao regime comunista que lá reinava então? Não creio: o comunismo polaco estava já a decompor-se, a gente de cultura fazia na quase totalidade parte da oposição e teria transformado a visita de Gombrowicz num triunfo. As verdadeiras razões da recusa só podiam ser existenciais. E incomunicáveis. Incomunicáveis porque demasiado íntimas. Incomunicáveis também porque contundentes para os outros. Há coisas que só podemos calar." ("Os Testamentos Traídos", ASA, 1994, pág. 88) Quando se fala de exílio, fala-se da "dor da nostalgia", mas há também uma espécie de "dor da alienação", um complexo processo de distanciamento ao longo do qual aquilo que um dia nos foi próximo e querido, se tornou estranho.

Entretanto, em 1960, Gombrowicz publicara com êxito o romance "Pornografia", a sua personalidade corrosiva e tragicómica não sofrera grandes alterações. Continuava o seu processo de corroer tudo o que é falso no mundo, destruindo edifícios culturais obsoletos, até chegar ao que ele considerava verdadeira e genuinamente humano, e por isso, imaturo. Tornado numa espécie de apóstolo da juventude, em 1968, o seu reconhecimento e admiração estavam num crescendo. Mas o seu carácter insuportável (que para alguns mais não era do que o escudo de uma enorme timidez) ia-o fazendo arremeter contra quase tudo e todos. Quando lhe perguntam quais os autores que mais o influenciaram, nomeia Dostoiévski, Nietzsche, Mann e Alfred Jarry, e acrescenta: "como vêem, nem Proust, nem Joyce, nem Kafka, nem nada do que se faz hoje. Prefiro autores anteriores, em que a medida do homem era mais alta."

O movimento do Maio de 68 "apanhou-o" a viver em França, e já não de boa saúde física. Ele que em "Ferdydurke" já tinha deixado claro que achava que as convulsões idealistas da juventude resultam da impotência de viver, da tristeza do artifício, da melancolia do aborrecimento, e do ridículo que é a ficção, não escondeu o seu desinteresse pelo movimento estudantil, para grande escândalo da esquerda intelectual. Ficaram as suas palavras: "Do ponto de vista político e ideológico, o movimento da juventude não me interessa em absoluto. As suas novas ideologias foram previamente moldadas por pessoas mais velhas e são de má qualidade; são aparências, palavras vazias. Vejo na crise da juventude uma crise dos adultos. Frente à juventude, os adultos são cobardes, servis, sem energia, e as suas ideias não têm peso. Os intelectuais, neste movimento [Maio 68] são ridículos, e o Sartre é igual ao resto... em cima de bidões e cercado de microfones. Pediu-me conselhos, como se eu fosse um segundo Marcuse. A minha resposta foi: ‘Não perco tempo com idiotices!' Actualmente, este conflito é uma espécie de revolução artificial."

Witold Gombrowicz morreu numa aldeia perto de Nice em 1969.