Steve Jobs: uma lição de liberdade

Foto

Tudo o que Jobs pedia aos políticos era que o deixassem fazer o seu trabalho. A sua epopeia é uma lição de liberdade

Já quase tudo foi dito sobre Steve Jobs e a sua epopeia, quase impossível, no mundo dos computadores pessoais. Mas não muito foi escrito sobre a atmosfera institucional, política, económica, social, que permitiu o retumbante sucesso, depois fracasso, e de novo sucesso de um outsider. A essa atmosfera têm sido dados muitos nomes, mas um é certamente incontornável: liberdade.

Quando Steve Jobs e Steve Wozniack criaram a Apple numa garagem, em 1976, o ambiente político tinha muitas semelhanças com o actual. O desemprego crescia, o pessimismo também. Falava-se do declínio do capitalismo ocidental. Só uma "política industrial", encabeçada por governos esclarecidos, poderia ainda travar a decadência do Ocidente. Por "política industrial", entendia-se todo um conjunto de acções afirmativas dos governos: subsídios e protecções aos chamados "sectores estratégicos"; investimentos públicos para "estimular a economia e sustentar a procura"; aumento de impostos, sobretudo sobre os chamados "ricos"; e aumento da despesa pública em gigantescos sistemas estatizados de saúde e educação.

Nenhum destes ingredientes esteve presente na incrível história de Steve Jobs. A primeira empresa foi fundada num apartamento, em 1976, depois numa garagem. Steve vendeu o seu carro para financiar a empresa. Daí surgiu o Apple I, o primeiro computador compacto que podia ser ligado a um ecrã. Um ano depois, surgia o Apple II. Nenhum recebeu qualquer subsídio do Governo e, mesmo depois de terem tido relativo sucesso, poucos lhe atribuíram grande futuro.

Menos de 20 anos depois, em 1984, surge o primeiro Macintosh, que iria revolucionar o mundo dos computadores pessoais. A lenda de Steve Jobs atingia as "manchetes" dos jornais de todo o mundo.

Todavia, um ano depois, Steve Jobs era despedido pelo gestor que ele próprio contratara, antigo dirigente da Pepsi. O fim de Jobs e da Apple foi então anunciado, como, aliás, viria a acontecer várias vezes depois. Mas Jobs não desistiu e criou a NexT, depois a Pixar, que viria a vender à Disney, em 2006, por 7,4 milhões de dólares.

Em 1998, o colorido iMac assinala o regresso de Jobs à Apple e o início da revolucionária dinastia dos "i": iPod, iTunes, iPhone e o incontornável iPad, no qual estou a escrever este artigo, como homenagem a Steve Jobs.

Ao longo da sua extraordinária história empresarial, Steve Jobs insistiu em nunca investir um dólar em actividades de lobby junto do Governo. Ele não acreditava em "políticas industriais". Acreditava nos consumidores e na sua capacidade de os conquistar com novos produtos - cuja existência e necessidade os consumidores ignoravam, antes de terem sido lançados. Por outras palavras, Steve Jobs não pedia aos governos que apostassem em si, ou que "educassem" os consumidores sobre a magna importância de comprarem um Mac. Tudo o que Jobs pedia aos políticos era que o deixassem fazer o seu trabalho.

Mas o papel de Steve Jobs não foi apenas importante para a Apple. Tão importante, ou talvez mais, foi a pressão concorrencial a que a Apple submeteu todo o mercado de computadores, obrigado a correr atrás e a tentar superar as inovações tecnológicas da Apple. A isto chamou Joseph Schumpeter "destruição criativa", colocando-a no centro da capacidade inigualável do capitalismo para produzir sempre novos bens e serviços a preços mais baixos e - por esse meio, e não através da chamada "redistribuição" - a sua capacidade inigualável de melhorar a condição de vida do maior número de pessoas comuns.

Steve Jobs não fez tudo isso com favores dos governos. Mas também não teria conseguido fazê-lo se os seus rivais tivessem podido obter favores políticos para impedirem a acção livre de Steve Jobs. Esta estava protegida pelos princípios do Governo limitado e dos "direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade" que fundaram a República americana. Neste sentido, a epopeia de Steve Jobs é uma lição de liberdade. Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; titular da cátedra European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilization no Colégio da Europa, Campus de Natolin, Varsóvia