Toda uma moda nacional

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Legenda com duas linhas alinhada a uma coluna

Através do crowdfunding, qualquer pessoa pode ser financiada por desconhecidos. Assim tenha uma ideia ou um projecto interessante, atraente ou extravagante

Índia. Quando Inácio Roseira e Helena Pimentel passaram pela cidade de Cochim, viram alguns cães abandonados a passear e decidiram, "num acto de impulsividade e emocional", agarrar num dos animais para que viajasse com eles. O casal deu a volta à Índia, num sidecar, ao longo de cinco meses.

A cadela Kashi fez cinco mil quilómetros com eles e, no fim da viagem, Inácio e Helena queriam trazê-la para Portugal. Mas não tinham dinheiro suficiente para o fazer. Pedir emprestado? Não. Esmola? Nem pensar. Por que não pedir ajuda, para custear a despesa de transporte da cadela, a pessoas perfeitamente desconhecidas? Estranho, mas verdadeiro, o crowdfunding é a forma de financiar projectos individuais, aqueles que, "normalmente, têm um investimento inicial relativamente baixo, mas que não permite que os entrepreneurs consigam ter acesso a esses fundos por outros meios", explica Nuno Costa, sócio da Deloitte, ao P2.

O crowdfunding não se faz no meio da rua mas através da Internet. Existem entidades que disponibilizam os seus sítios online, outras desenvolvem um sítio para receberem os projectos. Em Portugal, já existem plataformas nacionais específicas. Até há pouco tempo, os portugueses recorriam a espaços internacionais. Os internautas podem aceder e escolher que projecto financiar. Cabe aos interessados prepararem uma apresentação do que é o seu projecto, inclusive com material multimédia, e os gestores do site fazerem uma prévia avaliação, continua Nuno Costa.

Mas há mais. Os gestores do site reúnem-se com o responsável do projecto para perceber o interesse e a validade que o mesmo tem e só depois é que este é dado a conhecer ao público. "As pessoas analisam os projectos de investimento e, por gosto em ajudar os outros que estão a iniciar uma nova actividade, financiam os seus projectos".

Depois, o agradecimento dos que beneficiam do crowdfunding é feito através de ofertas a quem contribuiu. Por exemplo, um músico que decida utilizar o crowdfunding como forma de angariar verbas para lançar um disco, pode optar por oferecer um CD autografado ou dar acesso exclusivo a determinado conteúdo que quem não contribuiu não tem direito. Se o valor para o financiamento for conseguido, o gestor do site cobra o valor doado ao contribuinte e entrega essa verba ao interessado, para desenvolver o seu projecto. Mas também existe a possibilidade de que o valor mínimo estipulado não seja atingido. Aí, o gestor do sítio compromete-se a não efectuar a cobrança da doação e não entrega qualquer valor ao projecto.

Trazer Kashi

"Chegámos à conclusão que o processo, para além de ser bastante burocrático e complicado, seria bastante dispendioso", explica Inácio Roseira sobre a sua vontade de trazer a cadela indiana para Portugal.

Na verdade, Inácio e Helena não eram desconhecidos de muitos dos que acompanharam a sua aventura através das redes sociais e do site criado pelo casal que, quando se apercebeu desse acompanhamento lançou a campanha Salvem a Kashi - não recorreu a nenhuma plataforma específica, mas àquelas em que já era conhecido. Com este projecto, os viajantes pretendiam angariar 1500 euros, o valor que precisavam para trazer Kashi para Portugal. O casal fez as contas e sabia que o processo ia custar mais, mas esses eram custos que podiam assegurar. Numa campanha em que as contribuições eram de cinco euros, a adesão foi "muito interessante", define Inácio. Esta chegou a atrair pessoas que ofereciam muito mais do que lhes era pedido. Cerca de 90 por cento dos que acompanharam os desenvolvimentos desta aventura na Índia são pessoas que Inácio e Helena não conhecem.

O que as levou a ajudar? "As pessoas identificaram-se com a campanha, com a Kashi e com a causa", considera Inácio. O período de quarentena, os 90 dias necessários para que o animal pudesse vir para Portugal, terminaram a 20 de Julho. "Achámos que seria muito gratificante para nós, e também para as pessoas que se envolveram na campanha, que conseguíssemos atingir o objectivo", conclui.

Na verdade, o casal não conseguiu angariar o valor total que pretendia, ficou-se pelos 1045 euros, com a ajuda de 103 pessoas. No entanto, no dia 21, Kashi chegava num voo internacional a Portugal "saudável e muito feliz", para contentamento dos seus donos, que descreveram o encontro como "muito emocionante".

No final, contas feitas, "todo o processo superou os dois mil euros", pelo "elevado valor do transporte e de todo o processo legal na Índia, da alimentação, do canil [onde cumpriu os 90 dias de quarentena] e das consultas no veterinário", contabiliza Inácio. Agora, Kashi pode finalmente brincar no jardim com Índia, a cadela que já por lá andava antes da viagem feita por Inácio e Helena àquele país.

"O lixo dos outros"

As plataformas de financiamento cooperativo Redebiz e Massivemov foram as primeiras a ser lançadas em Portugal, ambas criadas este ano (ver PÚBLICO de 24/07/2011).

Miguel Costa e Alberto Miranda, ligados ao marketing digital, lançaram a Redebiz em Junho. O que os motivou foi a "dificuldade em obter financiamento para projectos" em Portugal.

A Massivemov surgiu pela mão de Gabriela Marques e João Marques, trabalhadores numa empresa na área dos combustíveis, depois de um contacto com o conceito de crowdfunding numa viagem ao estrangeiro. Consideram que a crise que o país atravessa deve ser "contornada com novas formas de empreendedorismo" em que "todos podem ter uma oportunidade de concretizar os seus projectos através do financiamento cooperativo", uma vez que "Portugal está repleto de boas ideias e excelentes capacidades", explica Gabriela ao P2.

Mo.Ca foi um dos projectos da plataforma Massivemov e este excedeu os 100 por cento em menos de um mês desde o seu lançamento.

Jorge Sá, arquitecto de 31 anos, e Filipa Carretas, técnica de turismo de 32 anos, do Porto, têm um projecto de mobiliário de cartão que assenta na reutilização de diversos materiais. Este é o projecto Mo.Ca. "O lixo dos outros é o nosso luxo ou o luxo dos nossos clientes", brinca Filipa. Inicialmente, foi uma brincadeira mas os amigos começaram a gostar e o projecto começou a ser divulgado. Ele, "o homem da geometria descritiva", e ela, "a organizada e a mais prática", elaboraram a primeira peça: uma mesa puzzle. A peça puzzle, que pode ser uma mesa de apoio, um banco individual ou corrido, pode ainda ser transformada em puzzle para as crianças brincarem.

E esta peça resume as máximas destes empresários: a reutilização de materiais e o poder "transformar e descobrir novas facetas da peça". O contacto com o Massivemov surgiu através de um amigo. "O espaço começa a ser um grande problema para nós e precisamos de alugar um para trabalhar e para continuarmos a produzir." O Massivemov foi a ajuda que precisavam para arranjar "financiamento para um espaço e algum material para os primeiros seis meses de vida do projecto", revela Filipa. "Confiantes", alcançaram 129 por cento, mais do que o valor que estabeleceram no início (1100 euros como meta, mas hoje já vão em 1419 angariados). A boa divulgação do projecto e o apoio dos amigos são considerados os motores desta campanha, resumem Jorge e Filipa.

No dia 1 de Setembro, será lançada uma terceira plataforma de financiamento: a Zarpante, com sede no Porto. Anne-Charlotte Louis, uma descendente franco-portuguesa, analista financeira, e Henrique Moretzsohn de Andrade, brasileiro, da área da música, uniram a cultura e as finanças e rapidamente se interessaram pelo crowdfunding e pelo seu potencial. Actualmente vivem em Paris, mas lançar esta iniciativa em França não fazia sentido, seria apenas mais uma. Em Portugal, existem poucas e não são comparadas com o mercado francês ou americano, avalia Henrique.

Para ele, as outras plataformas não são "concorrentes" da Zarpante, porque esta divulgará projectos ligados à arte. "Precisamos de mais pessoas que divulguem esta noção de financiamento colectivo porque ainda não é suficientemente clara para o público em geral. É preciso criar muitas plataformas deste tipo para que as pessoas comecem a acostumar-se à ideia", continua.

A ideia é "internacionalizar", uma vez que os portugueses estão espalhados por todo o mundo e isso "potencializa o mercado". "Vamos ter um carinho especial pelos projectos que relacionem a arte e a língua portuguesa." Não vão existir limites de valores a doar, se uma pessoa quiser contribuir com um euro, pode fazê-lo.

O crowdfunding é um fenómeno crescente em Portugal. "Isto começa a ser um bocadinho fashion. As pessoas tendem a querer estar naquilo que é novidade e acabam por se envolver. A sensação que tenho é que Portugal é um nicho de mercado a atacar, por todo o sucesso e facilidade de penetração deste tipo de iniciativas. Admito que, num curto espaço de tempo, isto vai ser uma realidade maciça", prevê Nuno Costa, da Delloitte.