Stealing Orchestra

Deliverance

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É tão lúdico quanto impossível procurar uma expressão que consiga sintetizar o universo Mãe-Terra em lava de "Deliverance". Teria de ser algo do género electro-prog-rural, embora a mais pomposa "música avançada de raízes" também sirva.

Decantando a expressão: há algo de rural em "Deliverance" no sentido em que acordeão (como sempre), guitarras acústicas e bandolim são os três itens principais do cardápio - constituem, aliás, a base dos primeiros (e belíssimos) temas, "Evitando o cinismo" e o espanholado "Enquanto há memória" (com voz de Ana de Deus). O "prog" corresponde a uma característica acumulativa que marca esta música: a uma base simples pequenas harmonias vão sendo adicionadas, enquanto as dinâmicas vão sendo alteradas por forma a criar cada vez mais tensão, como um útero que se contrai cada vez mais depressa rumo ao parto. E o electro refere-se tanto aos samples de base como à super-estrutura que sustenta as melodias acústicas - samples que embora resgatem géneros e ritmos diferentes têm uma candura, uma intimidade , um calor que permitem uma linguagem unificada, sejam nas serpentes das arábias de "Um reino maravilhoso" ou no coito de jazz com música cigana da espantosa "When conspiracy theories become mainstream". É um puzzle irresolúvel, só que desta feita inscrito mais fundo na terra, explodindo de tensão, cuspindo entranhas. Não é um disco, é uma quinta cheia de estranhada bicharada prenha. E "A glorious moment of popular catarsis & reverence", com os seus trovões de guitarra eléctrica, as rajadas dos órgãos e o rugir da percussão é - só - uma das grandes canções do ano.