Quatro coleccionadores interessados no retábulo de Contreiras

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O retábulo da Quinta de Porto da Luz terá sido pintado por volta de 1555 dr

Obra do século XVI falhou venda, mas a leiloeira tem já possíveis compradores. Nada está garantido

Um retábulo do século XVI atribuído ao mestre português Diogo Contreiras falhou a venda no leilão que a Veritas fez quinta-feira em Lisboa, mas isso não significa que a obra não venha a mudar de mãos.

Há quatro coleccionadores interessados neste retábulo renascentista que pertenceu à capela da Quinta de Porto da Luz, em Alenquer, disse ontem ao PÚBLICO o leiloeiro, Igor Olho Azul. "Talvez haja ainda um quinto", acrescentou, "mas, para já, a venda não está garantida". O retábulo, que segundo os especialistas é uma obra de referência da arte portuguesa, tinha uma base de licitação de 125 mil euros, valor pelo qual deverá ser agora vendido. "Esperamos ter tudo concluído nas próximas duas ou três semanas", acrescentou, sem revelar o nome dos actuais proprietários ou dos interessados. "Um dos coleccionadores é estrangeiro e não soube do leilão a tempo. Os outros são portugueses e tinham já manifestado o seu interesse. Só não licitaram porque quiseram dar oportunidade a um museu de comprar a obra", explica o leiloeiro.

A sua eventual saída do país não tem qualquer impedimento legal, uma vez que a obra não está classificada nem em vias de classificação. "Não há qualquer processo de classificação em curso", assegurou ontem ao PÚBLICO João Villalobos, assessor do secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas. "Decidiu-se não abrir o processo com base num parecer técnico do historiador Pedro Dias."

Antes do leilão, o director do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), António Filipe Pimentel, tinha já defendido que o Estado devia comprar o retábulo, provavelmente a última obra de Contreiras (c. 1500-1565). Mas todos os seus esforços foram em vão, já que a Secretaria de Estado da Cultura optou por não exercer o direito de preferência na aquisição da peça e, em cenário de crise e de transição política, todos os mecenas contactados pelo director do MNAA se mostraram indisponíveis para apoiar a compra.

A obra atribuída a Diogo Contreiras, pouco conhecida fora do ciclo dos historiadores de arte, terá sido executada por volta de 1555 por encomenda do cónego Francisco Dias, que nela aparece retratado. É formada por uma máquina retabular com um nicho central onde deveria ser colocada uma imagem da Virgem e por duas pinturas a óleo sobre madeira (107x60cm). Na da direita estão representadas quatro santas mártires (Luzia, Eulália, Bárbara e Apolónia) e, na da esquerda, para além do cónego, ajoelhado, figuram S. Paulo Apóstolo, com a sua espada; S. Marçal, com uma igreja a arder; Santo António envergando o hábito franciscano; e S. Vicente, com a palma do seu martírio e a barca tradicional.

"Nesta obra de arte não são apenas as pinturas que a tornam especial, diríamos que, na verdade, é todo o conjunto", escreveu o historiador de arte Anísio Franco. "É extraordinário as pinturas ainda se encontrarem integradas no seu retábulo de origem que, mau grado o estado de conservação e repintes, é dos únicos datáveis de meados do século XVI que ainda se conservam no nosso país."

Foi o historiador de arte Joaquim Caetano quem, na década de 90, atribuiu o retábulo a este pintor activo entre 1521 e 1560 e autor de outras importantes obras da arte portuguesa do século XVI, como os retábulos da Colegiada de Ourém, da Igreja de Santa Catarina, nas Caldas da Rainha, e do Mosteiro de S. Bento de Cástris, em Évora.