Paulo Macedo crê que crise é uma "bênção"

"A crise é a maior bênção que pode suceder a pessoas e países, porque a crise traz progressos". Ainda há um mês, Paulo Moita de Macedo, o administrador do BCP surpreendentemente escolhido para a pasta da Saúde, concluía com esta citação de Einstein uma análise às medidas fiscais acordadas entre Portugal e a troika. Sim, porque a fiscalidade é a grande especialidade do vice-presidente do BCP - um gestor com currículo internacional mas que, em Portugal, ficou conhecido como director-geral dos Impostos, cargo que ocupou entre 2004 e 2007, no Governo de Durão Barroso.

A única incursão no complexo sector que a partir de agora vai dirigir teve a ver com a administração da companhia de seguros de saúde do banco, a Médis, entre 2001 e 2004. Licenciado em Organização e Gestão de Empresas, Paulo Macedo, de 47 anos, iniciou a sua ligação ao BCP logo em 1993, como director da Unidade de Marketing Estratégico. E nunca mais parou a sua ascensão no banco, onde hoje detém mais de 270 mil acções. Pelo meio, foi vogal da Comissão para o Desenvolvimento da Reforma Fiscal (1994 a 1996), docente em múltiplas pós-graduações e hoje é membro da Euronext (Bolsa de Lisboa).

O que faz com que um gestor que em 2010 ganhou mais de 545 mil euros tenha decido aceitar esta pasta potencialmente tão impopular quando a palavra de ordem para os próximos anos é cortar profundamente na despesa? Espírito de missão? Quando foi director-geral dos Impostos, Macedo desencadeou polémica por continuar a ganhar o salário de origem, mais de 23 mil euros, remuneração três vezes superior à do primeiro-ministro. Mas cumpriu a comissão de serviço e saiu com a fama de "gestor brilhante" que "revolucionou a máquina fiscal" e "motivou os recursos humanos", recorda, com saudade, o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, Marcelo Castro.

Na saúde, a sua escolha é olhada com expectativa e com algum temor. "O facto de se tratar de uma pessoa sem qualquer ligação ou conhecimento dos serviços públicos de saúde, aliada a um passado profissional relacionado com os seguros privados, deixa-me bastante inquieto", admite o vice-presidente da Federação Nacional dos Médicos, Mário Jorge Neves. De resto, são enormes os desafios que Macedo tem pela frente. Se o que a troika propôs for mesmo para a frente, só nos hospitais e em medicamentos, e apenas neste ano e no próximo, é preciso cortar 1,1 mil milhões de euros. A ADSE sofrerá sucessivos desbastes, prevendo-se que seja auto-sustentável (financiada pelas contribuições dos funcionários públicos) até 2016. E, a partir de Setembro, terá de aumentar as taxas moderadoras, rever as isenções e cortar as deduções fiscais na saúde. É obra. Alexandra Campos