Guerra civil entre historiadores espanhóis

Fotogaleria
Franco em CORBIS
Fotogaleria
Franco em CORBIS

A Real Academia de História espanhola vai rever algumas das entradas do dicionário acusado de branquear a repressão franquista e de denegrir os republicanos

Ladeado pelo rei Juan Carlos e pela ministra espanhola da Cultura, Ángeles González Sinde, o presidente da Real Academia da História (RAH), Gonzalo Anes, lançou na quinta-feira, com pompa e circunstância, os primeiros 25 dos 50 volumes que compõem o monumental Dicionário Biográfico Espanhol, uma obra que levou doze anos a fazer, que biografa mais de 40 mil figuras, desde o século III a.C. até ao presente, e que custou ao erário espanhol 6,4 milhões de euros.

Concretização de um projecto que começara a ser sonhado no século XVIII, foi apresentado como a versão hispânica do prestigiadíssimo Oxford Dictionary of National Biography. Mas, afinal, não era bem assim, como se começou a perceber logo no fim-de-semana, quando o diário espanhol Público revelou excertos de algumas entradas. A de Francisco Franco, redigida por Luis Suárez Fernández, diz que o generalíssimo se "tornou famoso pela fria coragem que mostrou no campo de batalha quando jovem oficial em África" e atribui-lhe a criação de "um regime autoritário, mas não totalitário". Em cinco páginas de texto, a guerra civil é reduzida a um parágrafo, no qual se lê que, "numa longa guerra de quase três anos", Franco "derrotou um inimigo cujas forças eram a princípio superiores". Não há qualquer referência à repressão franquista, e mesmo o "estabelecimento de compromissos com a Itália e a Alemanha", durante a Segunda Guerra, é justificado pela falta de mercados e pela hostilidade da França e da Rússia". As reacções não se fizeram esperar e Gonzales Anes já admitiu que algumas entradas irão ser revistas antes de serem colocadas na Internet, o que virá a acontecer em prazo ainda a anunciar.

A ministra da Cultura, que estivera na sessão de lançamento da obra, veio exigir "a revisão das entradas que não se ajustam à realidade", criticando ainda a escassa proporção de mulheres biografadas. Os partidos de esquerda apelaram no Parlamento a que a obra fosse retirada do mercado, o senador catalão Juan Saura considerou este dicionário "uma recompilação dos ideais do pensamento fascista espanhol", e um coro de historiadores e figuras públicas, incluindo o Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa, veio a público criticar a obra. "É uma autêntica vergonha, sobretudo no que se refere à biografia de Franco", afirmou Vargas Llosa, acrescentando: "Não se pode tolerar que isto seja pago com dinheiro público".

Os protestos chegaram mesmo à rua, com duzentos manfestantes a concentrar-se ontem diante do edifício da RAH, em Madrid, gritando palavras de ordem como "Não é uma Academia, é uma caverna!" ou "Este livrito [librillo], escreveu-o o caudilho".

Guerra civil foi "cruzada"

Dado que a obra ainda não está na Internet, onde se prevê que venha a estar, e os 50 volumes só podem ser comprados por atacado, ao preço de três mil euros, poucos leram ainda o dicionário, mas as citações que vão aparecendo diariamente na imprensa parecem deixar claro que a entrada de Franco não é propriamente uma gaffe isolada.

A entrada relativa a Juan Negrín, que liderou o Governo da República na guerra civil, escrita por Carlos Seco Serrano, considera o dirigente republicano "um ditador". Seco Serrano, um historiador octogenário, tal como Suárez, ocupa actualmente o cargo de censor na Academia espanhola.

Outro colaborador, José Martín Brocos, na sua biografia de Asensio Cabanillas, relata circunstanciadamente as vitórias que este militar, que veio a ser ministro, obteve contra os republicanos durante a guerra civil. Sublinhando o seu papel no "glorioso pronunciamento militar, salvador de Espanha", Brocos escreve, a dado passo: "continuou a marcha até Mérida, ocupando Almendralejo, onde permaneceu, normalizando a vida quotidiana". Parece um trecho anódino, mas se lermos O Holocausto Espanhol, do historiador inglês Paul Preston, ficamos a saber que mais de mil pessoas terão sido fuziladas pelos franquistas em Almendralejo, incluindo uma centena de mulheres, muitas delas violadas antes das execuções. Aparentemente, é a isto que Brocos se refere quando fala de normalizar a vida quotidiana. O mesmo historiador assina várias outras entradas. Na sua biografia do coronel franquista Santiago Alonso Sáenz, realça a sua "gloriosa morte" no campo de batalha e afirma que este estava "consciente do sentido de verdadeira cruzada que a nossa guerra adquirira".

Mas as críticas ao alegado sectarismo da obra não se resumem às biografias de figuras do franquismo. A entrada sobre o ex-chefe de Governo do PP, José María Aznar, redigida por Manuel Jesús González González, diz que é durante o seu consulado que "a Espanha consegue deixar de ser um país de segunda no concerto internacional", justifica o apoio de Aznar à intervenção no Iraque e atribui a sua derrota eleitoral ao modo como o PSOE se "aproveitou" do desastre do petroleiro Prestige e ao "clima social traumático" provocado pelos atentados de 11 de Março, omitindo o facto de o governante espanhol ter tentado atribuir os atentados à ETA.

Os elogios a Aznar não surpreendem demasiado, tendo em conta que foi o seu Governo que assinou com a RAH o convénio para a elaboração deste dicionário. E a polémica que agora rebentou podia bem prever-se desde que foi dada mão livre à RAH para avançar com o projecto nos moldes que entendesse. "A Academia é muito reaccionária, tal como em Portugal", diz o historiador português Manuel Loff, notando que a biografia de Franco foi pedida a um "franquista assumido".

Especializado em História Medieval, Suárez, de 86 anos, é o actual presidente da Hermandad Valle de los Caídos, a instituição que gere a basílica e o memorial que Franco mandou erguer para as vítimas da guerra civil, e onde ele próprio está sepultado. Membro declarado da Opus Dei, foi também o único historiador a quem a filha de Franco, Carmen, permitiu que consultasse os arquivos do ditador, aos quais teve acesso exclusivo até estes terem sido finalmente abertos aos investigadores, em 2005. Um privilégio que lhe permitiu escrever, entre outras obras, os oito volumes de Franco e o Seu Tempo. Para Manuel Loff, convidá-lo a redigir a entrada de Franco é o mesmo que, em Portugal, convidar-se Franco Nogueira, se este ainda fosse vivo, para escrever a entrada de Salazar.

E Suárez não é propriamente uma figura exótica no contexto da Academia, uma instituição cujos membros, antes e depois de cada assembleia, pedem, em latim, que o "Espírito Santo ilumine as suas inteligências e os seus corações".

Ditaduras há muitas

O historiador Rui Ramos, que escreveu uma entrada para o formalmente congénere Dicionário de Oxford, sublinha que, ao contrário do que parece ter acontecido em Espanha, os organizadores do dicionário inglês "procuraram os melhores especialistas para tratar cada tema, não era quem se oferecia ou tinha vontade de escrever". Ora, a justificação de Gonzalo Anes para a escolha do autor da entrada de Franco foi justamente a de que este se ofereceu para a fazer.

Ramos acredita que a RAH não terá "a ligação ao mundo universitário" que têm as instituições afins no Reino Unido ou em França, mas acha que as diferenças entre as duas academias ibéricas já não serão assim tantas: "Os historiadores portugueses mais activos não fazem parte da Academia, e os membros da Academia não são muito conhecidos nos meios universitários".

O historiador até acha normal que se defenda que o franquismo não foi um regime totalitário, mas parece-lhe mais inaceitável pretender, como Suarez fez numa entrevista, que Franco não foi um ditador. "O salazarismo e o franquismo eram ditaduras, sobre isso não há discussão séria: não havia partidos, existia polícia política, não era reconhecido o direito de oposição".

Mas, apesar das semelhanças com os fascismos europeus - "o culto do chefe, as milícias armadas, o corporativismo, as organizações de juventude, uma certa encenação do poder" -, Ramos enquadra os regimes ibéricos da época na categoria das ditaduras militares, distinguindo-as do nazismo ou do fascismo italiano, "onde há a conquista do poder por um movimento". Recordando que os fascistas portugueses, como Rolão Preto, foram perseguidos pelo Estado Novo, e que o regime se distanciou expressamente do totalitarismo, Ramos lamenta que os historiadores que "levantem reservas a esta identificação sejam imediatamente acusados de tentar branquear o salazarismo". Diz que ele próprio já foi acusado de o fazer por Fernando Rosas, que, por sua vez, tinha sido acusado do mesmo por Álvaro Cunhal.

Para o historiador, a polémica em Espanha é mais uma demonstração de que não é fácil separar o debate académico da discussão política, "duas coisas que estão entrecruzadas, mas que são diferentes".

Loff reconhece que "a memória da repressão franquista no pós-guerra não está solucionada" e que, em Espanha, "há uma historiografia militante em ambos os campos", mas já não subscreve a tese de que o franquismo não foi um totalitarismo. "Até 1945, o totalitarismo faz parte da própria terminologia do franquismo, toda a legislação assume que Espanha é um estado totalitário". Daí que, argumente, "um historiador como Stanley Payne, que acha que não houve fascismo em Portugal, sempre tenha defendido que houve fascismo em Espanha até 1945". Mesmo em Portugal, acrescenta Loff, a retórica antitotalitarista corresponde a uma época de consolidação do regime, na primeira metade dos anos de 1930, e tende a desaparecer durante a guerra civil de Espanha e a Segunda Guerra.

Para Ramos, "o mais grave" na polémica espanhola ainda é a posição da ministra da Cultura", porque "não pode ser uma autoridade política a reescrever a história numa espécie de censura oficial". Uma atitude que, além do mais, considera ineficaz. "Agora está o PSOE no Governo, mas daqui a um ano ou dias vinha o PP e mandava reescrever tudo outra vez."

Novamente, Loff não está de acordo. "O dicionário foi subsidiado pelo Estado sem concurso nenhum, e se é claro que não compete ao Estado condicionar e censurar, este tem o direito de se pronunciar quando uma obra paga pelos contribuintes é, pela própria selecção dos autores, forçosamente sectária e claramente centrada numa visão neofranquista da realidade".