"Me gustas democracia, pero estás como ausente"

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Estes jovens não se sentem tratados com justiça pelo sistema económico nem representados pelo sistema político

A frase que dá título a esta crónica, com um cheirinho a Neruda, está escrita num cartão encostado à estátua de D. Pedro IV, no Rossio, em Lisboa. É um dos muitos cartões com dizeres que se acumulam na "acampada" a que um grupo de jovens espanhóis deu início na semana passada em Lisboa e aos quais se juntaram, entretanto, dezenas de jovens portugueses. O grupo chega a algumas centenas nas "assembleias populares", momentos de maior concentração. Mas este mesmo cartaz não está só em Lisboa. Ele está a aparecer em dezenas de cidades europeias.

Estes jovens do Rossio são uma extensão do grupo de espanhóis que tem estado nos últimos dias a ocupar a praça da Puerta del Sol em Madrid e outras cidades espanholas e que se tem alargado entretanto, via redes sociais, a outras cidades europeias (Amesterdão, Bruxelas, Paris, Dublin, Berlim...). A Internet está cheia de vídeos, blogues e tweets destas concentrações, ocupações, acampamentos, organizados de forma espontânea ou convocados de forma descentralizada por jovens reunidos no Movimento 15-M (de 15 de Maio, data da primeira concentração espanhola) e unidos sob o slogan "Democracia real já!".

Os jovens espanhóis disseram-se desde o início inspirados pelo movimento português Geração à Rasca, mas as manifestações do Norte de África também são referências no discurso dos oradores que se sucedem atrás dos megafones nas várias cidades europeias. O que querem estes jovens? O que gritam nos seus megafones? O que escrevem nos seus cartões? Democracia verdadeira, dizem. As palavras de ordem, que se repetem com variantes em todas as cidades, são humorísticas ("Yes we camp!") e de desafio ("Toma la calle!", "J"y suis! J"y reste! Je-ne-partirais-pas!") mas são também claramente reivindicativas: "I don"t feel represented!", "Não somos anti-sistema. O sistema é anti-nós", "Esta crise não pagamos", "Não somos mercadoria de políticos e banqueiros", "A bancos salvais. A pobres roubais". Há slogans a fazer lembrar Maio de 68 ("Os nossos sonhos não cabem nas vossas urnas", "Se não nos deixam sonhar, não vos deixaremos dormir!"), outros mais claramente políticos ("Contra a ditadura capitalista", "Contra a ditadura económico-financeira", "Pelo poder popular"), outros antiliberais ("Porqué manda el mercado, si yo no le he votado?"), muitos contra o FMI. Muitos contra a corrupção (os políticos chorizos...). E muitas referências à Revolução, que estará a começar. Há queixas que se aproximam perigosamente do discurso populista antipartidos. O cuidado (excessivo) em não se aproximarem das propostas deste ou daquele partido torna por vezes as críticas difusas e as propostas vagas, mas uma coisa é evidente: estes jovens não se sentem representados pelos políticos ("No! No! No-nos-representan!"). Nem no seu país nem na Europa. Nem se sentem tratados com isenção pelo sistema eleitoral. Não se sentem tratados com justiça pelo sistema económico. Não se sentem defendidos pelo sistema judicial. Sentem que o sistema financeiro é desumano, injusto e fomenta a desigualdade e o crime. E, quando se ouvem melhor, as suas críticas aos partidos têm a ver com o facto de o sistema os forçar a escolher entre um PS e um PSD (em Portugal) ou entre um PP e um PSOE (Espanha) que, se podem ser distinguíveis, representam uma democracia armadilhada, que está como ausente, que coloca todas as escolhas fora da sua mão, do seu voto, da sua vontade, na mão do FMI, da União Europeia ou do mercado. Não foi por acaso que a multidão que enchia a Puerta del Sol recebeu o resultado das eleições regionais espanholas na mais absoluta indiferença. O que os move não é a adesão a este ou àquele partido. Nenhum os entusiasma nem lhes merece confiança. Não apelam ao voto nem à abstenção, mas sentem que não é nas eleições que vão conseguir mudar o que querem mudar. E, ganhe quem ganhar as eleições, estão dispostos a não nos deixar dormir. Ainda bem. ([email protected])