Fazer de novo, ?ver as coisas a funcionar

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Há mais de vinte anos que Miguel Palma trabalha entre máquinas, objectos mecanizados, barulhos de motores e ventoinhas NUNO FERREIRA SANTOS

Máquinas e motores, modelos de aviões, barcos e automóveis. Não, não é um estaleiro ou uma oficina. É "Linha de Montagem" a mais recente antológica de Miguel Palma que reúne no CAM da Gulbenkian um conjunto impressionante de obras nunca vistas em Portugal. José Marmeleira

Miguel Palma (Lisboa, 1964) é um homem atarefado. Agarra num cabo eléctrico e desaparece sob uma mesa. "Já liguei!", grita, "vamos ver como funciona". De repetente, ouve-se o som de um ventilador e uma estrutura de plástico cresce de tamanho. Até que desaba lentamente tomando a forma de uma misteriosa escultura. "Não está totalmente afinada, mas funciona", avisa o artista, regressado à claridade do Centro de Arte Moderna (CAM), da Fundação Gulbenkian.

Há mais de vinte que Miguel Palma trabalha entre máquinas, objectos mecanizados, barulhos de motores e ventoinhas. Instalações, esculturas, modelos de aviões e barcos. Obras de um engenheiro inútil ou de um mecânico escultor. E algumas podem ser vistas a funcionar, a partir de hoje, na antológica "Linha de "Montagem, no CAM.

Das 170 peças, uma boa parte nunca saiu do atelier do artista e um número razoável foi concebido em residências internacionais ou apresentado pela primeira vez em colectivas fora de Portugal. Há, por isso, e embora se incluam projectos não inéditos, uma sincera sensação de descoberta quando se entra na nave, transformada em oficina cujo silêncio só é interrompido pelo espreguiçar dos mecanismos eléctricos.

Duas longas mesas exibem globos terrestres, miniaturas de carros, modelos arquitectónicos, livros presos em pinças de metal, bonecos que falam. "São quase bancadas de trabalho, onde se misturam ideias e onde me aproprio de outras ideias", comenta Miguel Palma. "Gosto de trabalhar em vários registos ao mesmo tempo e raramente acabo um trabalho sem começar outro". O dispositivo sugere uma comparação curiosa: "Pensei neste circuito como se fosse uma feira de antiguidades. Assim desmonto a forma como os objectos são habitualmente apresentados nos museus. Há uma contaminação entre as coisas".

Outros lugares são habitados por obras isoladas, que aguardam o confronto com o espectador. É o caso de "Rescue Games", versão reduzida da construção criada para a Bienal de Nova Orleães em 2008. A sua história pode contar-se em poucas linhas. Chegado à cidade americana três anos depois do furacão Katrina, o artista erigiu um barco de salvamento a partir de uma lancha de desembarque militar. Com um importantíssimo pormenor: a "nova" embarcação não salvava ninguém; limitava-se a baloiçar tranquilamente sobre a água através de um sistema hidráulico. Em vez da tragédia natural ou civilizacional, Miguel Palma propunha a contemplação e o movimento.

Atracção ambígua

pela tecnologia

Sem acesso ao original, que pelo seu peso e dimensão não foi possível trazer à Gulbenkian, restam a série de desenhos que esteve na sua origem: "Foram manuseados, usados durante a construção [por uma empresa]. Depois transformei-os, redesenhei-os. Quero que as pessoas olhem para eles e percebem todo o processo. Porque foi uma coisa vivida e discutida, andou pelo chão, foi levada ao estaleiro". O desenho é o suporte de outros trabalhos e um dos traços mais significativos de "Linha de Montagem". Vemo-lo produzido com stencil ou grafite, sobre imagens preexistentes, a antecipar trabalhos futuros ou sem relação com qualquer obra. "Dá-me a oportunidade de trabalhar de uma forma compulsiva e entusiasmada. É como um diário que guarda e revela ideias, coisas que fiz ou partes de projectos"-

"Woolworth Building" (2007)" e "Plataforma"(2008) são duas obras que exemplificam a relação do desenho com a construção. A primeira consiste no desenho da peça, a segunda traduz materialmente a sua concretização numa maqueta do Woolworth Building, um dos mais antigos arranha-céus de Nova Iorque, sobre dois tanques de vidro cheios de água. "Criei edifício mutante que se adapta aos níveis do líquido através de sistemas eléctricos e electrónicos. A água, que passa aleatoriamente de depósito a depósito, altera a sua estabilidade. Está sujeito às forças da natureza, sem posição fixa."

Se há assunto que assoma em" Linha Montagem", chama-se tecnologia, objecto da afecção do artista, afecção declaradamente ambígua: "Admiro a tecnologia, mas também sei que pode ser uma coisa perigosa. Desejo-a e desejava-a não a desejar". É um sentimento contraditório que várias obras evocam: as "Pinturas Catalíticas" (2007), feitas com o combustão de um motor, o F16 transformado num avião civil de "If I had an F-16 I"d be home right now" (2006) ou "Upa! (2006), uma apropriação da primeira bomba de napalm fabricada em Portugal : "Encontrei-a no lixo, com as cartas datadas de 1961 sobre a sua construção". Ao lado do modelo original, está uma miniatura do engenho: "É a maqueta que os empregados ofereceram, como pisa-papéis, ao director da Fábrica de Oeiras", esclarece.

Invisível está o uso de tecnologia high-tech. "Também a uso, mas há sempre uma mecânica, uma coisa física, um peso, uma gravidade. Tem a ver com a necessidade de construir, de que as coisas existam fisicamente.Com a minha condição de escultor". Miguel Palma gosta de ver as suas peças funcionar e o seu entusiasmo leva-nos a perguntar se a emoção é a mesma que o motivou a dedicar-se à criação artística na década de 90 do século passado. A resposta chega com bonomia e boa disposição: "Sim, sinto a mesma paixão, o mesmo gozo, sinto que não tenho nada perder. E gosto da ideia, da vontade fazer de novo, de fazer diferente. E sem pretensões ou falsa modéstia, creio que faço isso. Como um músico que não se repete no disco seguinte".