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A crise económica que levou Portugal a provar pela primeira vez a receita do FMI

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Rui Mateus, Mário Soares e Mota Pinto: o líder do PS defendia revisão do "folclore ideológico do século XIX" dr

Em 1983, duas razões explicam a vinda do FMI. Uma degradação da conjuntura externa, mas também as políticas eleitoralistas então seguidas

"Estava em causa, muito cruamente, a própria capacidade de assegurar, em termos de financiamento externo, o funcionamento corrente da actividade económica. Chegámos, meus senhores, a essa fase. Não é o Governo que enferma de uma estreita miopia financista, é a realidade que nos apresenta a factura."

A voz a colar a estas palavras é a do então ministro das Finanças, o já falecido Ernâni Lopes. Local: o Parlamento, durante uma interpelação ao Governo, em Outubro de 1983, dois meses após se ter assinado a carta de intenções com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que impôs um severo programa económico.

Como se chegou aí? Primeiro, um desequilíbrio externo explicado pelo aumento dos preços do petróleo em 1973 e pela explosão social pós 25 de Abril, que obrigaram ao primeiro acordo com o FMI em Maio de 1978. Mas a instável economia portuguesa foi ainda afectada por uma desadequada política económica.

Em 1980, o Governo da Aliança Democrática (AD), era Cavaco Silva ministro das Finanças, promoveu políticas que, no entender do ex-governador do banco central Silva Lopes, tinham o único fim de "promover a vitória eleitoral do PSD-CDS".

Subiram os gastos orçamentais, valorizou-se o escudo, dificultou-se a vida aos exportadores, subiram as importações. Em resultado, o défice das transacções correntes subiu de cinco por cento do PIB em 1980 para 11,5 por cento em 1981 e 13,2 em 1982. A dívida externa aumentou de 467 milhões de contos em 1980 para 1199 milhões em 1982. Os mercados financeiros aproximavam-se do país.

Um programa de estabilização foi sendo introduzido desde final de 1982. O Governo AD ainda aumentou, no início de 1983, as taxas de juro em quatro pontos e vendeu 50 toneladas de ouro para financiar as contas externas. Mas face ao avolumar dos problemas e fragilizado pelas críticas internas no PSD - com Cavaco Silva a conspirar contra Francisco Balsemão - a AD desfez-se e, nas eleições de Abril de 1983, o PS ganhou as eleições, com 36 por cento. Nasceu então o Governo do Bloco Central (PS-PSD), de Mário Soares e Mota Pinto.

Umas das primeiras medidas foi desvalorizar o escudo em 12 por cento e aumentar as taxas de juro. Aumentaram-se os preços de produtos básicos. Congelou-se o investimento público e criou-se um imposto extraordinário sobre os lucros. Mas não chegou. Iniciaram-se negociações com o FMI. O Governo falava da inevitabilidade do acordo, o que não era consensual. João Salgueiro, à data membro do PSD e hoje ex-presidente da CGD, estava contra. Fernando Ulrich, então jornalista e hoje presidente do BPI, escreveu: "Esta via anestesiante da inevitabilidade de negociação corre o risco de nos fazer esquecer que o Fundo também tem os seus objectivos, um prestígio e uma credibilidade a defender."

Cavaco Silva, director do gabinete de estudos do banco central, chefiou a delegação a Washington, mas em Portugal não participou na negociação. Foi Teodora Cardoso, directora do banco central, quem o substituiu. As negociações iniciaram-se a 18 de Julho de 1983 e terminaram às 4h da madrugada de 8 de Agosto.

O Fundo desbloqueou 300 milhões de dólares para financiar a dívida e 100 milhões para quebras de exportações até 28 de Fevereiro de 1985. A terapia foi brutal: redução do défice de transacções correntes de 9,3 por cento em 1983 para 6 por cento em 1984. O défice orçamental deveria passar de 11,7 por cento em 1982 para 7,3 por cento em 1984. Criou-se um polémico imposto extraordinário. A taxa de desemprego subiu de 5,8 por cento no início de 1983 até ao ponto mais alto no segundo trimestre de 1986 - 7,6 por cento.

Mas a crise teve consequências políticas. O PS meteu o marxismo na gaveta. "Não renegamos o nosso passado, nem a nossa história, [mas é preciso rever] um certo folclore ideológico que vinha do século XIX", disse Mário Soares no congresso de Outubro de 1983. No PSD, após a contestação interna à política seguida, Mota Pinto demitiu-se em Fevereiro de 1985. Cavaco Silva ganhou o congresso da Figueira da Foz em Abril de 1985, rompeu com o Bloco Central e ganhou as eleições de Outubro desse ano, a tempo de beneficiar dos efeitos da terapia de choque e da retoma económica internacional.

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