Ângelo de Sousa O artista desconcertante

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Cinema, fotografia, escultura, desenho: todas as disciplinas cabiam no universo de Ângelo fotos: NELSON GARRIDO

Fazia sempre o que não se esperava que fizesse. Tinha um humor único, uma alegria às vezes infantil. Mas também uma melancolia profunda. Criou um mundo de cor e de luz. Ângelo de Sousa morreu segunda-feira, aos 73 anos. Nunca deixou de nos surpreender.

Tinha uma presença inconfundível: uns óculos grandes, grossos, uma voz forte, de professor, e o verbo contundente que se colava ao Porto, a cidade onde escolheu viver e com a qual a sua carreira se acabaria por identificar de forma indelével. Quando se refere a contemporaneidade do Porto nas artes visuais, citam-se de imediato dois nomes grandes, duas palavras que dizem tudo: Siza e Ângelo. Ângelo de Sousa faleceu segunda-feira, de doença prolongada. Tinha 73 anos. O funeral sairá amanhã às 10h45 da Igreja de São João da Foz, no Porto, onde se encontra em câmara-ardente, para o Cemitério do Prado do Repouso.

"Surpreendente", "desconcertante", "inesperado" - estas eram algumas das palavras que ontem ocorriam imediatamente aos amigos quando se lhes perguntava como o recordavam. Eduardo Souto de Moura, o arquitecto que na véspera recebera o Prémio Pritzker 2011, lembrou o "amigo excepcional" com o qual colaborou no Edifício Burgo, na Av. da Boavista, no Porto, e com quem assinou a instalação Cá Fora: Arquitectura Desassossegada - um jogo de arquitectura e espelhos - para a representação de Portugal na Bienal de Arquitectura de Veneza de 2008.

Do que Souto de Moura gostava mais no trabalho do pintor era o seu "rigor milimétrico". "Era impressionante o cuidado que ele tinha, por exemplo, na escolha da cor. Parece tudo muito simples, mas era tudo muito pensado, muito reflectido." Ângelo de Sousa era, diz Souto de Moura, "uma espécie de Miles Davis pelo modo como o seu percurso artístico passou por várias fases, do realismo inicial - nos anos 60, teve aquela série muito interessante dos cavalos, de que eu gosto muito - até ao abstraccionismo e ao monocromatismo que marcou a sua última fase, que também acho muito interessante".

Jorge Molder, ex-director do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, confirma o que Souto de Moura dissera: Ângelo "gostava de cultivar um ar de simplicidade, mas era muito inteligente e extremamente culto". Em casa dele havia "pilhas de livros", mas se os amigos pegassem num ao acaso e lhe fizessem uma pergunta percebiam que ele sabia o que era, tinha lido. E, sobretudo, "tinha um grande sentido de humor, era um permanente fazedor de jogos de palavras, de trocadilhos". Era - conclui Molder, procurando a palavra - "muito inesperado".

O tempo de Moçambique

O encenador Jorge Silva Melo conheceu-o bem ao longo dos dois anos em que o filmou para o documentário Ângelo de Sousa - Tudo o que Sou Capaz, filme que começou com uma boleia que Silva Melo deu ao artista até Coimbra (e durante a qual Ângelo foi-se divertindo lendo as matrículas dos outros carros) e continuou, com filmagens aqui e ali, quando havia oportunidade - "podes fazer uma telenovela em vários episódios com isto", brincava Ângelo de Sousa. O tempo foi fundamental para Silva Melo o conhecer "para lá da máscara alegre e infantil com que nos desarmava". Por detrás disso, havia, diz o encenador, "uma espécie de melancolia". E mesmo a "proposta de alegria" no trabalho dele era "uma conquista diária sobre a tristeza da noite".

Um trabalho sobre o qual era difícil fazê-lo falar, conta o crítico de arte João Pinharanda, que sobre ele escreveu um livro para crianças intitulado História de Um Pintor Ambicioso, que "queria só com uma cor e um traço pôr um mundo inteiro dentro de um quadro".

Sobre a sua obra, Ângelo de Sousa "desdizia - e era nesse desdizer que tínhamos que encontrar o que ele queria dizer". E o desafio era permanente, porque a obra de Ângelo mudava. "Fazia sempre o que as pessoas não estavam à espera que fizesse."

Quem não conseguiu superar a emoção para falar da obra de Ângelo de Sousa foi Jorge Pinheiro, seu amigo pessoal desde que, no final da década 60, com ele integrou o colectivo Os Quatro Vintes. "Tenho muito pouco a dizer: perdi um amigo de 50 anos, e isso é que me custa", limitou-se a dizer Jorge Pinheiro.

Se foi no Porto que estudou e que construiu a sua obra, Ângelo de Sousa nasceu em Moçambique, a 2 de Fevereiro de 1938, aí vivendo até aos 17 anos. E Moçambique foi vital para a sua formação. Numa entrevista ao PÚBLICO em 2009 (in Pública, 25/1/2009), falava do país arejado, da vida solta de menino, de uma caixa de lápis que recebera em criança e da censura pouco eficiente que aí existia. Jorge Molder recorda que o amigo tinha "uma nostalgia grande da terra, de Moçambique, e gostava de falar dos tempos da juventude".

Eram tempos em que via muitos filmes, em inglês e francês, sem legendas, tinha acesso a revistas internacionais onde se divulgavam exposições e artistas, e surpreendentemente pôde aí conhecer amigos informados que, em discussões sem fim, construíram no seu espírito uma base cultural sólida e despertaram nele a curiosidade pela actualidade, que é condição indispensável para a prática artística no século XX. Sobretudo num país como o Portugal das décadas de 50 e 60, onde o ensino se ficava pela modernidade dos neo-realistas do pós-guerra e pouco mais. Muito novo, Ângelo já tinha ouvido falar e visto reproduções de abstractos, de Pollock, mas achava-se sobretudo com talento para o cinema. Era cinema que queria fazer e estudar, algo que na época apenas era possível fora de Portugal.

Os Quatro Vintes

Mas a morte prematura do pai, quando tinha 15 anos, e as condicionantes económicas que inevitavelmente daí resultaram, fizeram-no trocar a formação nesta área pelas artes plásticas. Em 1955, ingressou na Escola de Belas-Artes do Porto; antes disso, já se tinha decidido pela pintura. A capital nortenha constituía uma mudança brutal em relação à luz e ao colorido africano. Passado o primeiro embate, Ângelo de Sousa seguiu um percurso académico de sucesso, tendo concluído o curso de Pintura com 20 valores. Formou depois o grupo Os Quatro Vintes com mais três colegas igualmente brilhantes: Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues, grupo que tinha por objectivo a apresentação ao público da obra dos quatro recém-formados. Ângelo de Sousa já tinha entretanto realizado a sua primeira exposição, logo em 1959, numa colectiva que incluía, entre outros, Almada Negreiros.

Recebeu entretanto bolsas de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian e do British Council que lhe permitiram viajar para Paris e Londres. Mas não se interessou pela vida de bolseiro no estrangeiro, preferindo voltar para o Porto. De regresso, foi assistente na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, mais tarde chamada FBAUP, onde já dera aulas desde 1962.

A partir dos anos 60, expôs nas galerias e instituições mais significativas de Lisboa e Porto: Cooperativa Árvore, Sociedade Nacional de Belas-Artes, Buccholz, 111, EMI-Valentim de Carvalho, Módulo, e sobretudo a Galeria Quadrado Azul, que o representou desde 1995. Participou em importantes colectivas como Alternativa Zero (1977, Galeria Nacional de Arte Moderna) e Depois do Modernismo (1983, Sociedade Nacional de Belas-Artes), A III Exposição de Artes Plásticas (1986, Fundação Calouste Gulbenkian) ou Há Um Minuto no Mundo que Passa (1991, Fundação de Serralves).

A confirmação internacional da qualidade da sua obra veio com a atribuição do Prémio Internacional na XIII Bienal de São Paulo (1975), a que se seguiram outros prémios importantes: da II Bienal de Vila Nova de Cerveira (1980), Prémio de Pintura da III Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (1986), Prémio EDP Pintura (2000), Prémio Gulbenkian (categoria Arte, 2007) e Prémio Amadeo Souza-Cardoso (categoria Consagração, 2007).

Prémios que coincidiram com exposições antológicas no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian - escultura, em 2006, e desenho, em 2003 -, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves - fotografia e filme, em 2001 - e no Centro Cultural de Belém - uma antologia em 1993-94, que passou também por Serralves.

Tomado pela cor

A obra de Ângelo de Sousa diversifica-se pela pintura, mas também pelo cinema, a fotografia, a escultura e o desenho, inserindo-se numa vocação experimentalista que encontra resposta na prática artística internacional das décadas de 60 e 70. A participação no grupo Os Quatro Vintes não obedecia a qualquer propósito programático, mas pautava-se, como a dos seus colegas, por critérios de exigência pessoal, e no seu caso a uma atenção exclusiva à cor e ao que a determina, ou seja, a luz. As mesmas que Ângelo encontrara em Klee, dizendo-se, como o mestre suíço, tomado pela cor.

Na obra de Ângelo, não é assim possível estabelecer fracturas entre as diversas disciplinas. O artista escolhia uma ou outra como modos possíveis de resolver essa espécie de possessão pela luz e pela cor que, no caso do desenho, por exemplo, o levou desde os anos 60, da declinação de signos primordiais sobre fundos neutros à fixação de cores geometrizadas em formas fechadas. Na pintura, através do uso de tintas e ceras que modificavam a luminosidade cromática, definia subtis e poéticas gradações de cor que se movimentavam visualmente no plano do suporte através de linhas quase intuídas, e que sugeriam um conceito de paisagem ou de natureza-morta; em obras mais recentes, retomou a afirmação de geometrias sobre fundo claro, um pouco como o que desenvolvia na juventude.

Na escultura, por fim, abdicava da volumetria, da gravidade e da textura, dobrando, lacerando ou enrolando folhas de metal, de plástico, de acrílico como se se tratasse de papel. Estas esculturas, frequentemente pousadas simplesmente no chão sem suporte, estabeleciam e estabelecem um diálogo com o espaço que leva em consideração o movimento do espectador. Recentemente, foram inauguradas esculturas públicas suas em Santo Tirso, na Avenida da Boavista, no Porto, e em Carrazeda de Ansiães.

E é através deste movimento, ou, melhor dizendo, da vibração real ou simbólica da cor e da forma, que a associação com o desenho e a fotografia se faz. Paradoxalmente, embora a prática da pintura, do desenho e da escultura tenham sido preferidas entre todas na sua obra pública, essa vibração, essa inconstância da luz e da forma, usualmente apenas associadas ao cinema, permanentemente perseguidas e nunca alcançadas, será talvez a grande constante da sua obra. Como todos os grandes, repetimos, basta e bastará um nome para o identificar: Ângelo. com Alexandra Prado Coelho e Sérgio C. Andrade