Forças do regime avançam depois de anunciarem trégua

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O regime de Khadafi negava a intenção de entrar em Bengasi FETHI BELAID/AFP

O cessar-fogo tinha sido anunciado há duas horas em Trípoli, mas em Zuaytina, a mil quilómetros de distância da capital, ninguém tinha dado conta. Em Misurata, havia disparos de artilharia pesada depois de uma madrugada de fortes combates. E apesar de terem decretado uma trégua, as forças do coronel Khadafi estavam a avançar rapidamente sobre Bengasi: à hora do fecho desta edição estavam a apenas 50 quilómetros da cidade-berço da revolução, com combates nas localidades de Al-Magrun e Sluq, segundo a estação de televisão Al-Jazira.

Apesar disso, o Governo líbio negou "bombardeamentos de qualquer tipo" desde a declaração de cessar-fogo. E o número dois do ministério dos Negócios Estrangeiros, Khaled Kaalim, afirmou que o regime não tem "qualquer intenção" de entrar em Bengasi. O procurador-geral do Tribunal Penal Internacional (TPI), Luis Moreno-Ocampo, avisou entretanto que Khadafi seria culpado de crimes de guerra se cumprisse a ameaça de atacar civis em Bengasi.

Mas no terreno, os combates continuavam. "Há uma centena de soldados de Khadafi que lutam contra nós em Zuaytina", disse o rebelde Yussef al-Shwaidi à agência francesa AFP.

Sentado numa duna, Shwaidi ouve Fahker Mohammed Taib, que saltou da traseira de uma carrinha pick-up, vindo de Ajdabiya. "Estão a bombardear casas e tivemos de vir embora depressa. Estão a atacar com tudo o que têm: artilharia, aviões, soldados."

Em Misurata houve ataques fortes, os mais fortes desde o início da guerra civil, segundo testemunhos locais. Um médico na terceira cidade da Líbia contou à Reuters, ao final da manhã, que as forças do regime tinham morto pelo menos 25 pessoas, incluindo crianças. "Vi uma menina com metade da cabeça rebentada", descreveu Khaled Abu Selha, chorando convulsivamente.

"Estão a bombardear tudo, casas, mesquitas, e até ambulâncias", disse um combatente rebelde da mesma cidade, Gemal, também por telefone. "Achamos que querem entrar a qualquer custo antes que a comunidade internacional comece a levar a cabo a resolução da ONU", antecipou, pedindo "acção imediata" aos países que aprovaram a resolução. "Têm de agir agora, antes que seja tarde de mais."

Outro habitante de Misurata, último bastião controlado pela oposição a Khadafi na parte ocidental do país, descreveu à Al-Jazira disparos de artilharia e tanques, num telefonema em que o ruído de fundo confirmava a sua afirmação. "As forças de Khadafi estão nos arredores mas continuam a disparar granadas para o centro", indicou Abdulbasid Abu Muzairik. "O cessar-fogo não aconteceu. Ele continua a disparar e a matar as pessoas na cidade."

Pedido de fronteiras abertas

Os líderes dos combatentes anti-Khadafi já tinham antecipado este cenário: "Vejam como as coisas mudam do dia para a noite", notou Ashraf Afgair, um opositor na cidade de Tobruk, lembrando que na véspera, Khadafi tinha prometido tomar Bengasi e perseguir os seus "traidores". "Estão apenas a tentar acalmar a opinião internacional. Khadafi está a tentar manter-se no poder", comentou.

Enquanto isso, alguns trabalhadores da Cruz Vermelha Internacional regressaram a Bengasi, de onde tinham saído na véspera para Tobruk, devido à degradação das condições de segurança.

O Alto-Comissariado para os Refugiados pedia, pelo seu lado, aos países vizinhos da Líbia que mantenham as fronteiras abertas. Cada vez mais líbios têm saído do país nos últimos dias. Isto que quer dizer que o que foi até agora sobretudo um movimento de estrangeiros no território (a maioria das 300 mil pessoas que saíram eram migrantes) pode transformar-se num fluxo de líbios a procurar refúgio no estrangeiro.

O ACNUR e a Organização Internacional para as Migrações pediram mais financiamento para esta operação, "uma das maiores evacuações humanitárias da História".