"Chegámos ao fim", diz Passos Coelho

PSD não vai dar "mais qualquer voto" ao Governo

Passos Coelho já não confia em José Sócrates. Não quer que os portugueses, ele próprio e o Presidente sejam tratados pelo primeiro-ministro como se fossem "seus empregados" e, por isso, não vai dar "mais qualquer voto" ao Governo. Mas também não deu o passo em frente, anunciando o que fariam os socias-democratas em relação a um Governo que olham como pouco fiável e incompetente.

"Não vai ser com o PSD que o Governo vai descalçar esta bota", rematou ontem no lançamento do livro Voltar a Crescer, na Associação Comercial de Lisboa onde 55 gestores e empresários apresentaram um conjunto de soluções para o país.

A assistência pressentiu o que se estava a passar e, se momentos antes ouvia os anteriores intervenientes com um persistente burburinho desinteressado, ficou num silêncio pesado a escutar as palavras duras do líder do PSD. "Chegámos ao fim. Isto não pode continuar. Esta peça de teatro acaba aqui", afirmou Passos Coelho depois de comentar as medidas anunciadas no novo Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) e criticar a inércia do executivo em atacar as "gorduras do Estado" numa altura em que impunha "mais sacrifícios" aos portugueses. As últimas palavras de Passos Coelho não deixaram margem para dúvidas: "Não daremos mais qualquer voto para manter este equívoco no futuro." A dureza já transparecia na leitura feita aos últimos dias. Comentando a "forma" como o Governo anunciara as medidas do PEC, Passos Coelho resumiu o problema na falta de confiança e de respeito. Acusou José Sócrates de tratar os portugueses como se fossem "seus empregados" por ter andado "a preparar com o Banco Central Europeu e com a Comissão Europeia um conjunto de medidas" sem informar o país. "Considero isso de uma deslealdade e de uma falta de respeito pelo país, pelos portugueses, pelas instituições, suficientemente grave para pôr em causa a confiança que o país tem em quem o governa", rematou.

Além de ter deixado confiar no Governo, Passos Coelho avaliou o executivo com um rotundo chumbo ao esforço de austeridade e controlo das despesas do Estado. O tempo esgotara-se: "Não podemos andar um ano em situação de emergência. Um ano depois, se ainda estamos em situação de emergência é porque o Governo falhou."

Contestou ainda a justificação para o anúncio das medidas que penalizavam quem já estava a fazer sacrifício. "Não vale a pena o Governo vir dizer que é apenas por precaução que estas medidas são necessárias, porque estas medidas põem o país a pão e água. Não se põe o país a pão e água por precaução." Classificou as novas medidas como injustas e ilegais: "As medidas no dia em que deixam de ser justas passam a ser ilegítimas e não são aceites."

No fim, anunciou o fim do apoio do PSD à equipa de José Sócrates: "O Governo meteu o país numa grande alhada e agora quer que seja o PSD a descalçar a bota. Isto já passou os limites e portanto não vai ser com o PSD que o Governo vai descalçar esta bota."

A indefinição sobre a conduta do PSD no futuro foi também visível pelas palavras de Miguel Relvas. Não foi tão violento como Passos Coelho e passou a "batata quente" aos socialistas. Reafirmou que o PSD "não viabilizará este PEC", insistindo, contudo, que o "Governo tem condições para governar".

No final de uma reunião dos órgãos de direcção do PSD, Miguel Relvas voltou a acusar o Governo de violar a "lealdade institucional" e de "falhanço" na execução orçamental. Questionado sobre se antevia o cenário de eleições antecipadas, Miguel Relvas respondeu que "o Governo tinha todas as condições para governar".Nuno Sá Lourenço e Sofia Rodrigues

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